O que é a concepção antropológico-cultural da surdez?

20 Maio

A concepção antropológico-cultural da surdez é uma corrente que prega não ser a surdez uma deficiência, constituindo-se numa variação natural do ser humano como ser loiro, alto, baixo, mulher ou homem. É a negação de norma em seu sentido mais amplo. Todos os aspectos que caracterizam o ser humano como tal podem constituir-se em deficiência, quando, pelo excesso ou pela falta alteram as funções básicas de um ser humano “normal”. Em outras palavras, se temos olhos, é para ver, se temos ouvidos, é para escutar, se temos pernas, é para caminhar. Assim, a cegueira, a paraplegia, a paralisia cerebral e a surdez são claras deficiências e devem ser prevenidas e suas funções restituídas, sempre que possível e, principalmente, sempre que for viável. O excesso de altura pode ser uma deficiência, da mesma forma que a falta dela é conhecida como nanismo. A coisa é tão complexa que a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidades, Incapacidades e Saúde), da OMS (Organização Mundial de Saúde) teve que catalogar, característica a característica, as funções normais de um ser humano para poder definir o que se considera como deficiência.

Meu medo é que, via proselitismo entre as pessoas com deficiência, essa torpeza de pensamento atinja as instituições que lidam com as demais deficiências, influenciando educadores, pais e profissionais da reabilitação como os fonoaudiólogos, psicólogos, médicos, etc. Essas pessoas não compreendem que excluir é muito mais fácil que incluir e que é muito mais barato para a sociedade como um todo comprar um território e mandar todos os surdos para lá, fundando a Surdolândia. Eles estão, no fundo, querendo que se volte aos lazaretos.

A visão antropológico-cultural da surdez, ao contrário, coloca os ouvintes e os surdos em posição antagônica, exaltando os surdos a rebelarem-se e constituírem sociedade própria, com valores próprios, saindo, como eles mesmos dizem, “do julgo dos ouvintes e do ouvintismo”. Como se não bastasse, essas pessoas praticam proselitismo declarado, num nanismo às avessas, com teses que em nada deixam a desejar ao autor de Mein Kampf, Adolf Hitler. Leiam, pois, com muito cuidado o que os seguidores dessa corrente pregam e façam uma discussão universal a respeito. Façam-no, porém, com espírito crítico.

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2 Respostas to “O que é a concepção antropológico-cultural da surdez?”

  1. Fernando 7 de Junho de 2012 às 21:38 #

    “A visão antropológico-cultural da surdez, ao contrário, coloca os ouvintes e os surdos em posição antagônica, exaltando os surdos a rebelarem-se e constituírem sociedade própria, com valores próprios, saindo, como eles mesmos dizem, “do julgo dos ouvintes e do ouvintismo””

    Voce está precipitada na definição do que seja um concepção antropológica da surdez. O que a antropologia fala sobre sobre isto é justamente o contrário do que você está colocando, e extremamente inverso do que Hitler tem sobre isso.

    Bem sucintamente, para não me alonga, o que a antropologia fala a respeito da surdes não é sugerir uma rebelião, mas sim retirar a hegemonia ouvintista do que venha a ser a condição humana. O que a antropologia diz é que ser surdo não é ser anormal, mas o contrário, se constitui uma variante humana possível, a antropologia retira do ouvintismo a hegemonia da normalidade dos corpos, dizendo que ser surdo é ser normal da mesma forma que é normal escutar. O que a antropologia vai dizer é que a construção do universo simbólico pelos surdos se dá não pela falta da audição, não pela ausência de um sentido, mas pela percepção do mundo que é completa, tanto faz os canais que se utiliza para tanto, ouvir ou não não é elemento definidor de falta ou perda. Quem sente falta de ouvir é quem ouve, quem nasce surdo não sente esta falta, nem mesmo sabe que é surdo. Para o surdo o ouvinte é que é o diferente, não ele. Ele é normal.
    Agora, você falar que essa concepção é semelhante a que Hitler teria, me desculpe a franqueza, mas você precisa estudar um pouco mais sobre ‘eugenia’ – e um pouco mais de antropologia – para perceber que a purificação que ela sugere nada tem a ver com reconhecimento da diferença enquanto normalidade. Hitler queria uma nação “pura”, com pessoas “perfeitas”, bastasse não ser ariano para ser anormal. Hitler identificava, claro, a diferença, mas não reconhecia jamais estes como uma variante possível de humanidade. Hitler identificava a diferença no intuito de eliminar e “purificar” a humanidade, retirando dela os “defeituosos”.

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    • Adriana 25 de Junho de 2012 às 14:11 #

      Comentário da Anahi em resposta: Eu abomino qualquer radicalização do discurso da diferença à surdez, seja de que lado for. Sugiro que você leia meu texto “O Modelo Social da Surdez: um caminho para a surdolândia?”. Quando eu digo “visão antropológico-cultural da surdez” é no sentido de corrente/escola, porque foi assim como seus próprios adeptos cunharam, pior ainda, ao deturpar o conceito de “cultura” da Antropologia para se reportar à “cultura surda”, hierarquizando diferenças. Assim, eles apropriaram-se, sim, indevidamente da Antropologia, com os usos e abusos de seus conceitos, porque se a Antropologia é tudo isso que você diz aqui [sic], na prática não é isso o que os surdos adeptos dessa perspectiva fazem, posto que condenam todo aquele surdo que não se enquadra na sua “norma” de ser surdo. O que a Antropologia ensina é que há vários modos de ser surdo. Não há um único modo de ser surdo, assim como também não há um único modo de ser gay, lésbica, mulher, homem, negro e negra, e assim por diante. Há diversidade em um mesmo segmento. Assim, essa perspectiva, a da “cultura surda” hierarquiza as diferenças entre eles mesmos (surdos oralizados x surdos sinalizados x surdos implantados x ensurdecidos e o escambau) e entre surdos e ouvintes. Em outras palavras, a única possibilidade de ser surdo é se comunicar por língua de sinais. Quanto à Hitler, você teria que ver como esse tipo de comparação se procede. Ela tem sua origem em, por exemplo, um e-mail revoltoso de uma pessoa surda e seus apoiadores quando compararam o implante coclear à “implantação cocleariânica”, sugestivo o nome, não? Meu texto que sugeri acima tem inclusive desenhos, um deles sugestivo à proposta de “eliminar” os ouvintes (“Ouvinte não entra”) que não seguirem ou não concordarem com os ideais impostos pela “cultura surda” (e isso também vale para os surdos contrários a essa perspectiva). A outra categoria acusatória refere-se ao fato de algumas lideranças surdas chamarem literalmente de fascistas aqueles que optaram pelo caminho da oralização e do implante coclear, comparando esse caminho a um genocídio da cultura surda e da língua de sinais [sic]. Então, o único surdo verdadeiro é o Surdo, aquele que se comunica em língua de sinais, né?

      Para finalizar, sugiro ainda que leia “Ciladas da Diferença”, de Antonio Flavio Pierucci, que embora não se refira ao caso da surdez, vai justamente mostrar os mecanismos perversos do discurso à diferença, portanto, toda sua fundamentação teórica também pode aplicada ao caso da surdez.

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