Aos seis anos

24 Maio

Ontem, quando eu defendia no Twitter, mais uma vez  a escola inclusiva, destacando um príncipio fundamental da declaração de Salamanca, o principio de que, na escola inclusiva, todas as crianças devem aprender juntas, um professor me respondeu que eu tentasse  explicar isso para uma criança de seis anos. Pensei na hora na única resposta que acho possível, mas não respondi por considerar que poderia ser tido apenas como uma respsota agressiva. Na verdade, acredito que quem não se acha capaz disso nem devia TENTAR ensinar.

A idéia da escola inclusiva é por fim, de uma vez por todas, nas organizações que absorvem verbas públicas, aos milhões, longe da lógica da escola pública, e portanto, longe do controle estatal. Pensar uma escola segregada, fundamentando isto numa necessidade especial de educação, quer validada pela experiência da surdez, ou por qualquer outra é uma verdadeira afronta ao modelo de sociedade, solidário, que desejo para as futuras gerações.

É verdade que a LIBRAS é determinante na apreensão do mundo do surdo, permitindo uma tradução muito específica da realidade. Sim, é. Mas, isto não cria a Surdolândia, nem a LIBRASlandia. Pois a paralisia cerebral também é determinante neste sentido, o autismo e a síndrome de down, com seus aspectos cognitivos específicos também. Isso, apenas para dar mais três exemplos. Se justificarmos pelo aspecto culturalista, teremos que criar escolas específicas para cada modelo de apreensão de mundo. Ganhariam apenas os surdos, por estarem mais mobilizados, neste sentido, tendo como aliados os partidos neo-liberais?

Na verdade, para além do debate se há ou não cultura surda, e como esta não dá conta, e não dá mesmo, dos recortes de classe, gênero, étnicos e de orientação sexual, está o que desejamos para a sociedade brasileira. Porque esta deve ser a diretriz definitiva para pensarmos a escola que necessitamos. Não há homogeneidade no mundo, nem no mundo surdo, nem nos mundos possíveis pelas escolas que fragmentam seu público-alvo.

Quando decidimos aparelhar a escola pública com salas bilíngües, com salas de recurso (e eu tenho algumas críticas à forma que esta implantação tem se dado), com melhores recursos audio-visuais, não organizamos uma escola melhor para esta ou aquela dificuldade. Possibilitamos, na verdade, uma escola melhor para todos.  Ao permitimos que a diversidade humana  esteja presente na vida escolar, e realizamos, paralelamente a isto um trabalho educacional verdadeiramente inclusivo, aprenderemos tudo o que é necessário para viver em sociedade, aos seis anos de idade.

O aprendizado, então,  se dará de modo que a escola se torne o que Vygotsky denominou  zona de aproximação proximal, um espaço no qual a relação com o outro é determinante no aprendizado como facilitador. Claro que isto exigirá tempo recursos e treinamento. Por isto mesmo, não há como dividir recursos desta proposta para outras diferentes. O dinheiro público só pode ser investido nesta proposta.

Se há outros desejos, que se busquem outros caminhos. Precisamos escolher o que é importante para nós, e deixamos toda possibilidade de formação de guetos no passado.

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