OS DISTRAÍDOS

31 Maio

Rubens Figueiredo

Ainda que eu feche os olhos, mesmo que eu tape os ouvidos e comprima com força as mãos sobre as orelhas, percebo na pele, sinto nos ossos que o mundo trepida e bufa, agitado, à minha volta. Sempre me admira que tudo se esforce tanto em se mostrar, sempre me espanta que com tamanha sofreguidão todos queiram aparecer. Para mim, esconder-se é a habilidade suprema e manter-se oculto constitui o talento mais precioso de todos.

Mas nem sempre pensei assim, antes eu era como os outros. Entrava no elevador e as quatro pessoas que meus olhos viam eram as quatro pessoas que o elevador de fato carregava. A voz que meu ouvido escutava no telefone representava, para mim, a mesma voz que falava, bem longe dali. Minha mão espremia uma esponja encharcada e a água que escorria entre os dedos era — assim eu acreditava — a mesma água que ela, antes, havia absorvido. Mas a essa altura, em algum lugar, em algum vão mais sombrio, ele já me espreitava pelas costas. Sem que eu notasse, ele já vigiava, com ar de gracejo, a inocência dos meus movimentos e media, com uma ponta de escárnio, a extensão da minha crença descuidada.

Quando tudo se empenha tanto em aparecer, em correr de encontro aos nossos olhos e ouvidos, quando tudo parece ávido de atirar suas quinas e seus contornos sobre os nossos dedos, a atenção se torna um exercício fútil, um luxo dispendioso, uma arte para frívolos. Aprendi que, neste mundo, quem se mostrar muito atento perderá sua hora, perderá seu ônibus, será chamado de tonto, desleixado, e no fim sentirá estalar no rosto o menosprezo que é a recompensa reservada aos distraídos sem remédio.

Mais até do que o menosprezo, prestar atenção atiça o rancor, incendeia a indignação ao nosso redor, pois desse modo nos colocamos em um abrigo, recuamos para fora do alcance dos outros, erguemos à nossa volta um maciço bloco de ar e deixamos o mundo vazar através de nós, sem sequer nos tocar. O sonho do observador é se anular diante daquilo que é observado. Um sonho possível. Aprendi isso aos poucos, graças a ele, graças à sua presença perfeita, que até hoje nunca se deixou ver.

Mas, se é mesmo assim, como me dei conta de que ele estava aqui? Na primeira vez, foi algo menor do que uma sensação, porém maior do que um raciocínio. Sozinho na sala, tateando a maciez do tapete com os pés descalços, um pouco embriagado pelo rumor da televisão ligada no apartamento vizinho, me apanhei, por algum motivo, refletindo assim: se não posso ver ao mesmo tempo tudo o que está nesta sala, se ao virar a cabeça para o lado metade do mundo desaparece de repente atrás de mim, o que impede que haja agora alguém aqui e eu não saiba? Se meus olhos estão sempre voltados para a frente, como posso estar seguro de que não haja alguém, neste mesmo instante, olhando para a minha nuca?

Com um gesto sobressaltado, virei para trás e tudo o que vi foi o espelho oval na parede. O vidro devolveu o meu sorriso meio sem graça, em face do meu próprio ridículo. Mas nesse momento, com a sensação de que o espaço da sala havia encolhido, pressenti que ele estava ali, ocultando-se habilmente na faixa estreita onde o foco dos meus olhos e o raio do reflexo do espelho não podiam alcançá-lo.

Sua perícia fica mais patente quando lembro que, atônito, circulei um pouco pela sala, olhando para os lados, o que, sem dúvida, o obrigou a constantes deslocamentos para fugir ao mesmo tempo do meu olhar e da vigilância do espelho. Não canso de admirar sua destreza, quando penso como, numa sala tão pequena, ele se mostrou capaz de se esquivar de toda a luz que eu, o espelho e o céu lançávamos sobre ele, repetidas vezes, como uma rede de caçador.

Hoje, refletindo sobre esse primeiro encontro, me pergunto até que ponto foi de fato minha observação que revelou sua presença, ou se ele mesmo, por pouco que seja, se deixou voluntariamente perceber. Quem sabe seu intuito fosse, de fato, me deixar alerta. Pequenos episódios podem ter ocorrido antes, sem que eu soubesse interpretar o seu sentido. Ele pode muito bem ter graduado pouco a pouco os desvios da minha atenção, tomando cuidado, é claro, para não me deixar de sobreaviso.

Por exemplo, certas manhãs em que acordei assustado, correndo os olhos de uma ponta à outra do quarto, como se os últimos vestígios de algum pesadelo fugissem pelas paredes, escoassem depressa pela beirada do rodapé. Ou ainda situações em que me surpreendi, no ônibus, fitando uma pessoa sentada ao meu lado. Eu seguia atentamente a linha do seu nariz, procurava com insistência algum vinco no canto da sua boca, como se pudesse estar ali sentado alguém conhecido.

Eu observava o rosto dessa pessoa com um olhar tão pesado, tão opaco, que o mundo ao redor empalidecia e as pessoas em volta olhavam para mim um pouco intranqüilas. Mas bem antes disso, ainda no colégio, eu já preferia me sentar na última fila da sala, junto à parede. E, quando garoto, se era obrigado a comparecer a alguma festa da família, sem notar eu ia aos poucos recuando, passo a passo, até o canto da sala, até onde duas paredes me concediam o consolo de um ângulo.

Em todo caso, a partir daquele dia, onde quer que eu estivesse, passei a olhar em volta à procura dele. Tentava sempre me certificar da sua presença, embora nunca o visse. Às vezes, tinha a sensação de que havia passado bem rente a ele. Um deslocamento de ar mais tênue do que um hálito me dizia que por pouco eu não havia roçado no seu braço ou no seu ombro.

Por instantes, eu me esquecia do que as pessoas estavam dizendo ao redor, deixava o café esfriar na xícara, enquanto buscava, com o canto dos olhos, sinais dos artifícios dele, dos seus despistamentos. Com alegria, eu descobria uma caneta fora do lugar, uma penugem de pombo sobre minha mesa de trabalho, uma torneira pingando no banheiro, e nisso reconhecia acenos que ele esboçava para mim, a mão que ele me estendia do fundo do seu esconderijo.

Na opinião dos outros, eu ia me tornando cada vez mais distraído, mais alheio às preocupações comuns, cada vez mais ausente. Nunca souberam ver aí o sinal de que minha capacidade de atenção crescia e se aprimorava, como uma arte rara. Um escritor antigo disse que, quando observamos qualquer coisa com toda a atenção e pelo tempo necessário, essa coisa, por mais banal que seja, se revela infinitamente interessante. O escritor só não disse, ou talvez nem soubesse, o que acontece conosco quando levamos esse exercício até o limite da perfeição.

Talvez o primeiro indício tenha ocorrido no dia em que, após o expediente, todos foram embora e me deixaram trancado no escritório, sem notar que eu estava ali. Eu me esquecera da hora e, quando dei por mim na sala escura, tive de usar o telefone para chamar alguém e me tirar de lá. No dia seguinte, os colegas de trabalho despejaram sobre mim as piadas que já eram previsíveis, e eu mesmo achei graça na história. Mas depois notei que as pessoas começaram a entrar e sair do aposento onde eu estava sem me cumprimentar, sem sequer olhar para mim. Distraídas, só me notavam ali se eu lhes dirigisse a palavra.

Veio enfim o dia em que não lhes dirigi mais uma só palavra. Deixei que procurassem por mim e não me encontrassem ali onde eu devia estar. Deixei afinal que se esquecessem totalmente de mim, que meu nome se apagasse de suas vozes, e então me senti mais compacto, mais fechado na capa da minha pele, me vi mais inteiro e mais concentrado em mim mesmo do que em qualquer outro momento, certo de que afinal estampava no espaço e gravava na superfície do ar as linhas que me definiam com exatidão e com justiça. Foi esse o dom que ele quis me legar, quando de algum modo permitiu que eu adivinhasse a sua presença.

Há pouco tempo, reparei numa mulher parada na rua, os olhos aparentemente imersos em uma vitrine. Na verdade, ela não via o que estava ali dentro, muito menos o que se agitava à sua volta. Toda a sua atenção repousava imóvel em um ponto embaçado do vidro.

Num lampejo, percebi o que ela buscava, talvez ainda sem saber. Usei os recursos que a transparência do vidro e o movimento do ar nos oferecem, e ela, de repente, com um susto contido, se virou para trás. Olhou para um lado e outro, desconfiada, apertando a bolsa entre os dedos com um pouco mais de força. Sem me ver, é claro. Jamais me verá. Ninguém, ninguém vai me ver nunca mais. Entretanto, no fundo daquele minuto, inquieta, mas com o pressentimento da liberdade já vibrando em seu rosto, ela soube que eu estava ali.

Foi também a sua primeira vez. Percebo que ela vai se tornando mais e mais atenta e que a sua vontade — eu sinto, mesmo de longe — se condensa um pouco mais a cada dia. Logo entenderá o que estou lhe dando. Logo vai dar o passo para o lado, que a deixará fora da vista de todos, desembaraçada de sua guarda exasperante. Em breve, ela vai dar o passo curto, meio cego, não de quem avança mas de quem se desvia, o passo que a deixará para sempre livre da traição dos distraídos. É difícil. Demora. Mas começa, ela também, a se transformar numa traidora.

Em As palavras secretas.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Anúncios