O CENSO 2010 e as pessoas com deficiência

2 Jun

Segundo o último Censo do IBGE, haveria no Brasil uma população total de  190 755 799 pessoas. Destas, 23,92 % teriam pelo menos uma das deficiências investigadas. O número assusta, pois o Censo 2000 apontara apenas 14,5% da população brasileira como afetada por uma das deficiências investigadas. Como alguns grupos já se levantam para interrogar a respeito do porque do aumento, é preciso frisar dois aspectos importantíssimos: o primeiro, é que, obviamente, com os avanços sociais das políticas de inclusão social implantadas pelo governo do presidente LULA é absolutamente impossível que o número de pessoas com deficiência no Brasil, em termos relativos (em porcentagem) possa ter crescido, porque isso representaria uma perda imensa social.

 

Isto posto, como explicar a mudança dos números? Isto se deve ao segundo aspecto: é a primeira vez que o Brasil utiliza uma nova metodologia para pesquisar as deficiências, que foi empregada neste Censo do IBGE 2010, que se valeu de parte do método do Método do Washington Group. (http://www.cdc.gov/nchs/washington_group) metodologia mundial que articula vários países para integrar a forma internacional para organizar e sistematizar dados acerca da deficiência no mundo. O Censo IBGE se valeu desta nova metodologia na aplicação dos formulários da amostra, em que constavam dados a respeito da deficiência e, como foi a primeira vez que esta metodologia foi usada alguns problemas podem ser vislumbrados a um olhar atento:

 

Segundo os dados, entre as pessoas que afirmaram possuir deficiência visual, 0,28% dos brasileiros disseram ter deficiência visual total, ou seja, cegos, 3,18 % possuírem grande dificuldade (a denominada baixa visão) e 15,31 %, relataram “alguma dificuldade”. Aqui, como no Censo anterior aconteceu, obviamente, uma hipervalorização do que seria alguma dificuldade visual. Provavelmente, pessoas com grande grau de miopia ou com outras dificuldades oftalmológicas podem ter feito afirmações que não puderam ser peneiradas pelos recenseadores, inclusive porque se utilizavam, repetimos pela primeira vez da metodologia.

 

Na deficiência auditiva, se afirmaram surdos, 0,18% dos brasileiros (vale lembrar que entre estes uma parte é oralizada e implantada ou implantável, outra é usuária de LIBRAS). Possuem grande dificuldade auditiva, 0,94% dos brasileiros, e “alguma dificuldade” 3,97%.

 

Na deficiência motora, não possuem nenhum movimento, 039% dos brasileiros, enquanto 1,94 se relatam com grande dificuldade motora e 4,63 % com “alguma dificuldade” motora.

 

O Censo registrou a presença de deficiência mental em 1,37% dos brasileiros.

 

Note-se que os números das pessoas com alguma dificuldade motora e auditiva são próximos, ultrapassados em 10% pelos de alguma dificuldade visual, o que, de fato apenas confirma a hipervalorização deste segmento, demonstrando, mais uma vez,  equívoco na aplicação da metodologia.

 

Infelizmente, ainda, a implantação da metodologia não foi suficiente para determinar números essenciais para o segmento e para implantação de políticas públicas específicas, não determinando o número de pessoas com deficiência mental leve e severa, surdos-cegos, pessoas com deficiência múltipla e pessoas com deficiência causadas por doenças raras. Estas permanecem como estimativas baseadas em padrões internacionais.

 

Adriana Dias

Coordenadora do Comitê Permanente de Deficiência e Acessibilidade da Associação Brasileira de Antropologia

Mestre e doutoranda em Antropologia Social/UNICAMP

 

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