O HOMEM E SUA SOMBRA

2 Set

Affonso Romano de Sant’Anna

13

 Um homem nasceu sem sombra

– e na aldeia o evitavam.

No entanto, era apenas

um homem

cuja sombra não se externava.

Era como um mudo

que para dentro cantava

um paralítico

que internamente andava.

Sua sombra

                   era um pássaro

que sem asa

                   – voava.

30

 Um homem foi visto

vagando no verão

sem sombra

às dez horas.

Tanta luz!

Por dentro

e fora.

Parecia a eternidade

quando se perde

do agora.

 35

 Era um homem que tinha vertigem

ante o poço da própria sombra.

Por isto retrocedia

quando em suas bordas pisava.

Sua sombra era um buraco negro

onde o dono

se abismava.

 Do livro:

O homem e sua sombra. 
Porto Alegre: Alegoria, 2006.

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