Myrtes Mathias

22 Fev

Quando eu era adolescente,  a busca de Deus era uma sede imensa. Hoje, meu relacionamento com ele é bem íntimo, graças a sua MARAVILHOSA GRAÇA. E hoje, tenho a certeza que meu relacionamento com ele só se revela na ação para com meu próximo. Ora e labora…

Mais jovem, as poesias de Myrtes Mathias foram muito importantes em minha busca. Um pouco delas para vocês:

Há um Deus em Tua Vida

Quando te vejo tão acomodado ao mundo
que te cerca,
como a água tomando a forma do vaso
que a contém,
eu me lembro de um Rei coroado de espinhos,
arrastando uma cruz pelos caminhos,
pelas ruas de Jerusalém.

Quando te vejo tão preocupado com rótulos
e comodidades,
tão desejoso de aparecer,
eu me lembro de um jovem-Deus perdido no deserto,
onde só feras e anjos O podiam ver.

Um jovem-Deus que te entregou um dia
o privilégio da Grande Comissão,
o Qual negas com tua covardia,
sucumbindo a promessas
que te falam à carne e ao coração.

Quando te vejo tão ocupado em construir
celeiros,
ajuntando fortunas que o ladrão pode roubar,
eu me lembro de um Deus caído sob tuas culpas
sem o conforto de uma pedra para repousar.

Quando te vejo conivente com aquilo
que Ele aborrece,
ao ponto de ocultar a Herança que Ele te legou,
pergunto: Seria falsa a promessa que fizeste
ou o amor que tu Lhe tinhas era pouco
e se acabou?

Onde está teu grito de protesto,
que já não escuto?
Tua atitude de inconformação?
Será que te esqueceste do santo compromisso
ou te parece pouco o privilégio da tua missão?

Por que tremes diante do mundo,
temendo por valores que só servem aqui?
Será que Cristo te escolheu em vão
ou será que já não existe um Deus
dentro de ti?

Tu estás no mundo, mas não és do mundo.
Não escolheste – foste escolhido.
Por que te encolhes ao ponto
de seres grande pelo padrão dos homens,
comprometendo tua autoridade
de condenar um mundo corrompido?

Foste escolhido para uma missão tão grande
que nem a anjos foi dada a executar:
não te assustem ameaças,
não te seduzam promessas,
numa obra eterna, é melhor morrer do que negar.

Lembra-te que há um Deus em tua vida
que os teus atos devem glorificar

Escreve em Mim 

Senhor, aqui está minha vida,
não como um documento já preparado
à espera da Tua rubrica.
Apenas uma folha de papel em branco
a ser preenchida com a vontade Tua,
com os planos Teus.
Por favor, Senhor,
pensa em minha insuficiência,
considera minha dificuldade de compreender
e escreve com tintas vivas, nítidas,
de tal maneira que me seja impossível
confundir ou duvidar.
Quero sair agora,
ainda hoje, se possível for,
a mostrar ao mundo o que escreveste em mim,
a provar aos homens que Tu és o Autor.

Que a mais simples criança possa ler-te em mim
e que o mais sábio dos homens possa reconhecer
em cada gesto meu
o traçado dos eternos dedos Teus.

Diante desse mundo que se desintegra,
desta sociedade que exige cada vez mais,
quem sou eu para escrever primeiro
e pedir depois a Tua aprovação?

Estende a mão que gravou no Sinai a Santa Lei,
que escreveu na areia uma mensagem até hoje desconhecida
e, para o bem do mundo,
para glória Tua,
para paz de minha alma,
escreve na folha em branco de papel que eu sou,
a palavra que és Tu mesmo:

AMOR!

Que eu creia em TI

“Ainda que a figueira não floresça,

Não haja fruto nas vides;
Ainda que falhe o produto da oliveira,
E os campos não produzam mantimento;
Ainda que o rebanho seja exterminado da malhada
E nos currais não haja gado”,
Dá-me graça,Senhor,de crer em Ti.
Ainda que eu veja crianças deformadas,
Jovens revoltados,
Desgraçados sufocando no álcool
A miséria que os sufoca,
Dá-me a graça,Senhor,de crer em Ti.
Ainda que eu veja tua obra- prima degradada;
ainda que me ensurdeça o grito de milhões oprimidos;
ainda que o poeta repita que
“Debalde morreste sobre um monte”;
ainda que eu clame e não me respondas;
que eu fale de poder e tombe de fraqueza;
que proclame a Tua gloria e me arraste no pó,
dá-me graça,Senhor,de crer em Ti.
Ainda que te veja nos braços de outra cruz,
dá-me a fé do criminoso que expirou ao Teu lado,
que,Te vendo supostamente derrotado,
orou como te peço agora:
“Lembra-te de mim”.
Se é que,por multiplicar-se a iniquidade,
de muitos o amor se esfriará aqui;
se e que vivendo virei a negar-te,
Toma-me a vida,
mas da-me a graça de morrer
Acreditando em Ti

Agora – Myrtes Mathias

Se queres dar-me uma flor,

dá-me antes que eu morra…

Se podes hoje fazer o milagre

de um sorriso num rosto que chora,

não coloques flores sobre tumbas;

Se queres dar-me uma flor, faze-o agora.

Se podes dar um lar ao órfãozinho,

abrigo ao pobre que geme lá fora,

não encolhas a mão – Deus está vendo:

se podes dar-me uma flor, faze-o agora.

Se conheces o Eterno Caminho

que leva ao templo onde a Alegria mora,

não guardes, egoísta, o teu segredo;

Se podes dar-me uma flor, faze-o agora.

Se podes dizer em uma frase linda

algo que faça a tristeza ir embora,

dize-a enquanto posso agradecer sorrindo:

se podes dar-me uma flor, faze-o agora.

O que farei das orações, das flores

quando do mundo eu já não mais for?

Aos pés de Deus eu as terei tão lindas

que não precisarei do teu amor.

Não esperes o instante da partida,

se podes me fazer feliz, faze-me agora.

Para que chorar de remorso e saudade?

Custa tão pouco a felicidade:

dá-me uma flor antes que eu vá embora.

A QUE PREÇO, SENHOR?

Myrtes Mathias

Quando medito, Senhor,
Nas palavras que pronunciaste
Em Tua última noite:
“Em memória de Mim”…
Quando penso que milhões curvam a fronte
Para comer uma migalha de pão
E tomar um minúsculo cálice de vinho
Em memória do “Filho de carpinteiro”,
Do incompreendido Líder de uma minoria,
Volta-me à mente e ao coração
O preço que isto Te custou.

“Em memória de Mim”.
O que já não foi feito em memória Tua?
Em Teu nome, guerras foram declaradas,
Reis perderam o trono,
Plebeus atingiram a fama e a santidade.
Milhares caminharam para a morte
Entoando hinos,
Deixando-se dilacerar por feras,
Enquanto aproveitaram o último alento
Para uma derradeira profissão de fé e amor:
“Salve, Cristo, quem vai morrer Te saúda”!

Nenhum herói conseguiu mudar assim
O coração dos homens, os destinos da humanidade.
Mas a que preço, Senhor!
A que preço!
Que de angustia, oculta sob a ternura dos gestos
De cortar o pão e abençoar o vinho!
Que solidão imensa na simbólica distribuição
Que só Tu sabias ser o primeiro passo
Na direção do calvário;
O primeiro degrau na escala de todo horror
Que, já naquele instante, a terrível onisciência,
Te fazia sofrer:
A luta no Getsêmane,
O beijo de Judas,
A brutalidade dos soldados,
A hipocrisia de Caifás,
A covardia de Pedro,
O abandono total e absoluto da cruz.

Já não Te feriam os ouvidos
A dúbia voz de Pilatos
E o “crucifica-o”, de Teus próprios irmãos?

E foi na contemplação de mil dedos
Apontados em Tua direção,
Já sentindo na carne o dilacerar dos cravos,
Que ordenaste, num tom que mais parecia um pedido
De quem ama na hora de dizer adeus:
“Fazei isto em memória de Mim”.

Só Tu tiveste autoridade para uma ordem assim.
Mas a que preço, Senhor!
A que preço!
Tão grande que me faz transbordar de gratidão a alma,
Quando medito no Teu mandamento-pedido:
“Em memória de Mim”.
Bem sei que Te custou a vida
Escreve-lo na mesa da casa que é Tua,
Em meu coração, que também é Teu.

Caminhos de Deus

“Somos caminhos que Deus usa.”

Senhor, do alto sei que vês melhor,
quanto mais se sobe, maior a visão;
Teus olhos abrangem a eternidade:
contemplam o sol em sua imensidade,
vêem o verme a se arrastar no chão.

Para que então ficar gritando ao mundo:
olha o que tenho, o que sei, que sou?
Se lá do alto vês o mundo todo,
Tu sabes, Senhor, onde eu estou.

Tu sabes por que vim ao mundo,
tens uma missão pra mim.
Nada mais falta que submissão,
dizer – Ordena. Abrir o coração.
Ouvir a ordem e obedecer assim:

Sem importar a obra que a mim couber,
ou o lugar em que meu campo esteja.
Pode ser obscura minha atuação,
o que me importa é Tua aprovação,
ser tudo aquilo que queres que eu seja.

Talvez não tenha a sorte das estrelas
que belas cintilam, dando inspiração.
Talvez meu campo seja o mais mesquinho;
que me importa, se me tornar caminho
por onde passe a Tua compaixão?

Foram caminhos os servos do passado,
através de História um traço de luz:
Abraão, Moisés, José, Rute, Davi,
Jonas, Ester foram no tempo aqui
apenas caminhos em direção da cruz.

Os que vieram depois também são caminhos
por onde a graça de Jesus passou
em busca do oprimido e do aflito,
caminhos que se fundem no infinito
no Único Caminho que um dia me salvou.

Agora, Senhor, a minha prece:
eu quero a graça de participar,
se não posso ser um caminho brilhante,
faze-me atalho na serra distante
mas onde o mundo veja Teu amor passar.

Usa-me, Senhor, durante todo o tempo,
para que no dia em que voltar ao céu,
possa dizer-Te, com um sorriso doce:
– Nada fiz, nada ajuntei, eu nada trouxe,
na terra fui apenas um caminho Teu.

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Uma resposta to “Myrtes Mathias”

  1. natália fonseca 4 de Abril de 2014 às 12:33 #

    Gosto imenso dos poemas de Myrtes Mathias que conheço desde 1986 onde ouvia dizer na minha igreja. São poemas que falam do nosso Salvador Jesus e do Seu amor. Não posso dizer que gosto mais de uma do que de outra mas há uma que me toca muito: “Quando o Príncipe visitou o presídio” em que fizemos uma singela representação e todos gostaram. Tenho dois livros mas aqui em Portugal não é possível comprar os muitos que ela escreveu. Fica aqui o desafio: mandem essas maravilhas para este lado do Atlântico, sim?
    Um grande abraço e que possamos ter em breve mais conhecimento dessa grande poetisa.

    Natália

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