Meio Sol Amarelo, o grande romance de Adichie

4 Mar

Hoje eu li um livro belíssimo, destes que a gente tem vontade de levar em caso de fuga para um abrigo nuclear. Falo do romance de Chimamanda Ngozi Adichie, Meio Sol Amarelo, que situa na Guerra de Biafra uma das mais belas histórias que eu já li. Personagens absolutamente humanos, muito bem construídos, revelam o drama local de uma forma universal: somo tanto produto do nosso social, como as escolhas subjetivas que fazemos diante deste mundo social. Numa história que mescla dor de uma forma quase bela, romance, de uma maneira absolutamente contemporânea, e personagens sem maniqueísmo algum, Adichie nos apresenta a Nigéria, a terra de Biafra, o colonialismo inglês, as dores do povo, os olhares de quem dias melhores, numa colcha de retalhos linda de ler e de reler. Livro para nunca esquecer.

Meio Sol Amarelo é daqueles romances pouco vistos na história da literatura, capazes de descrever um povo, uma época com precisão e ao mesmo tempo falar da humanidade inteira em cada parágrafo. Como é possível que tenhamos esquecido os mortos do Biafra? Como podemos ser cúmplices, silenciando-nos?

Adichie, uma das grandes escritoras de todos os tempos, talvez a melhor do mundo de hoje, não precisa dizer isto textualmente no livro. Suas personagens nos desnudam para tanto.

Pouquíssima gente já ouviu falar na República do Biafra um estado que existiu no sudeste da Nigéria. formado pelo  povo ibo e que durou de 30 Maio de 1967 a 15 de Janeiro de 1970.

Uma resposta do povo ibo ao colonialismo e ao novo colonialismo inglês, dadas as tensões económicas, étnicas, culturais e religiosas entre os vários povos da Nigéria. Pouca gente entende que Nigéria foi uma criação inglesa, bem como quase todos os estados do continente africano foram construções de seus colonizadores, passando por cima de milhares de povos, tribos, universos simbólicos, tradições, mundos. Na base da guerra, da eliminação, da morte. Como toda colonização ocidental sempre fez, vide América e mundo indígena… A formação do estado da Nigéria fez com que o povo ibo, para preservar sua identidade entrasse numa guerra na qual sofreu um dos piores massacres do século XX.

O Biafra, em sua tentativa de luta e emancipação, chegou a ser reconhecido por alguns países, como Gabão, Haiti, Costa do Marfim, Tanzânia e Zâmbia, todos fruto de processo colonizador tão destruidor como o próprio povo ibo vivia. Outras nações não deram reconhecimento oficial, o que poderia ter evitado a morte de dezenas, centenas de milhares de pessoas, mas providenciaram assistência ao Biafra: Israel, França, Portugal, a Rodésia, a África do Sul e o Vaticano.  providenciaram esse apoio. O Biafra também recebeu ajuda de organizações não governamentais como a Joint Church Aid, a Holy Ghost Fathers of Ireland, a Caritas Internacional, a MarkPress e a U.S. Catholic Relief Services. Mas, nada disso impediu o massacre do povo ibo.

A população de etnia ibo, não reconheceu o novo governo nigeriano, comandado pelo general Yakubu Gowon. Em 1967, ele sitia a Nigéria em 12 estados… Os ibos do leste rejeitam a divisão e formam um país independente chamado Biafra… Começa o conflito: o novo estado era dirigido por Lt. Col. C.O. Ojukwu. Logo depois da separação, iniciou-se a lutra entre as forças da Nigéria e de Biafra… O resultado é uma guerra civil que dura até 10/01/1970, quando Biafra foi invadida pelas tropas nigerianas, então se rende e é reincorporada à Nigéria… terminando assim em 15 de janeiro de 1970. Estima-se que durante o conflito tenham morrido entre 500 mil e 2 milhões de civis, quase todos ibos, vítimas da fome ou dos confrontos…

Entretanto, selos foram emitidos pela “República de Biafra” entre 1968 a 1969. O primeiro data de 1968 (SG: 1), com valor facial de 2 d, ele marca o primeiro aniversário de Independência, ocorrida em 30/05/1967, e mostra o Forte Marcourt sobre o mapa do país…

 
Site oficial da autora: http://www.halfofayellowsun.com/
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