Adormecer como todo mundo

19 Maio

Hoje a dor continua aqui. Desde que eu saí do elevador parado no meio do caminho que ela está insuportável. Tem sido comum elevador com degraus no trabalho. Mas, dessa vez, o degrau era enorme e eu precisei de ajuda, bastante, para sair. as pessoas foram gentis. Meu corpo é que não aguenta.

No século XIX, Schopenhauer atribuía a doença apenas à vontade, chegando a afirmar que “recuperação de uma doença depende de uma vontade sadia que assuma poderes ditatoriais, de modo a subjugar as forças rebeldes da vontade enferma”.  Basta procurar numa livraria na sessão de auto-ajuda e veremos quanto ainda há deste tipo de pensamento, que credita à vontade o poder de um governo sobre o limite do corpo.

 Minha libertação desta percepção que responsabiliza a vítima pela dor, começou com Susan Sontag. Sua grande observação foi denunciar que  todas essas interpretações para a doença carregam um caráter moral. É preciso, defendeu ela, deixar de observar a doença como um castigo ou de pensá-la como expressão da individualidade interior. “Com as doenças modernas (antigamente a tuberculose, agora o câncer), a idéia romântica de que a enfermidade exprime o caráter é invariavelmente ampliada para afirmar que o caráter é a causa da doença – porque não se exprime por si só”, afirmou.

Ontem, li uma notícia linda: cientistas têm restaurado o funcionamento intelectual, cognitivo e motor de um rato adulto com Síndrome de Angelman usando um antibiótico comum para acne na adolescência! Esta descoberta surpreendente é um divisor de águas para nossa forma de ver “deficiência intelectual” e tem o potencial não apenas para a Síndrome de Angelman, mas para abrir caminhos para o autismo e doença de Alzheimer também! Ensaios clínicos com este medicamento para  “acne” começam com 24 crianças nos EUA em 2012.  E eu fico na sabedoria do mundo: uma doença tão rara abrindo caminhos tão amplos…

Que as dores sirvam para minha elevação moral. Sempre.

Beijos coloridos em todos!

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