Dos corpos maravilhosos

14 Dez

Adriana Dias

Eu não sei se houve um tempo em que alguma mulher comprou um vestido para seu corpo, mas, com certeza absoluta, cada dia mais é evidente: o sistema de produção contemporâneo exige que se compre um corpo para o vestido. Ser mulher, ou tornar-se mulher, como sempre preferi  pensar, há muito significa desempenhar um papel, em múltiplas esferas, aceitando imposições e imaginários: há que se comprar o corpo desejável, o cabelo da cor certa, o make que está na última tendência, e com tudo isso, implorar aceitação social: no limite, no sistema em que vivemos, implorar que funcione, como máquina, diria Deleuze, a fim de um objetivo: DESPERTAR O DESEJO.

O corpo que se compra, deve ser saudável, feminino, forte, deve evocar no coordenador do sistema (o macho, branco, hetero) um misto de mãe e amante, numa verdadeira cornucópia simbólica, em que este corpo servirá: ao machismo, a heteronomartividade, ao racismo: é preciso alisar o cabelo, ou tornar os cachos aceitáveis. É preciso que o vestido seja de parar o trânsito, o que numa polis como a Paulicéia pode significar ainda mais dificuldade para a mobilidade urbana. Mais que isso, quando alguma diversidade é permitida, ainda é porque, perversamente, grupos minóricos alcançaram o padrão de consumo das classes A e B, ou desejam alcança-lo. Se a lésbica puder consumir, tudo bem, desde que claro, ela não faça cenas em público, nem exija beijo na novela das nove, dirão as regras (malditas) do jogo. Se a mulher negra puder consumir, tudo bem, desde que ela pague a taxa de docilidade, sedução e cumplicidade com o sistema, ressalvará a casa grande moderna, que no fundo quer apenas reformar a senzala, mas não explodir os limites do sistema colonial em que estamos todos inseridos, de fato.

Na produção do vestido, que deixa vestígios na mulher e no mundo, resíduos são produzidos. O vestido/desejo/vestígio não é sustentável, nem poderia ser, ele foi pensado e produzido para agredir: o corpo, a Terra, as almas.

Neste cenário, a mulher com deficiência, excluída ainda mais, se for pobre e negra, e que representa o grande desafio de qualquer política pública para o segmento, é a menos ouvida. Porque é a menos desejável, nessa gramática tecida pelo preconceito.

O capacitismo, a discriminação motivada pela concepção de que o corpo da Pessoa com Deficiência é menor, menos humano, menos capaz, tem na mulher com deficiência seu alvo mais frágil: ela é rejeitada por ser mulher, por ser pessoa com deficiência, e se for pobre, negra, indígena, quilombola, múltiplas rejeições serão somadas à conta de horror.

É impossível combater o capacitismo sem pensar na mulher com deficiência. Sem ouvi-la. Ela não pode comprar o corpo para o vestido do capital. Mas, ela pode ensinar o que o corpo sente, e deixar o vestido fetiche de lado, e ensinar algo a todas nós: a ser verdadeiramente mulher. A aceitar a imensa variabilidade humana não como espectro de variações entre normalidades e defeitos, mas como uma diversidade plena de significado. De sentido, de humanidade. Eu acredito no corpo. Seja ele como for, ele é muito, mas muito mais interessante que qualquer vestido.

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2 Respostas to “Dos corpos maravilhosos”

  1. NILTON SILVA 19 de Dezembro de 2012 às 4:08 #

    Achei o texto muito bom Dri, Parabéns sua linda!!! E parabéns ao Marcelo, que é uma cara formidável!

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  1. Assuma a sua beleza! | Infinito Particular - 26 de Abril de 2014

    […] Os corpos maravilhosos […]

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