O Cortiço, parte I

28 Maio

Uma amiga me pediu uma ajuda para filha que fará vestibular. Quer entender um livro. Eu amo o bendito. Então, resolvi, escrever aqui e tornar público, pra todo mundo. Aproveitem!

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Entendendo a obra:

O Cortiço, romance de  Aluísio Azevedo,publicado em 1890.

Ficheiro:Aluisio Azevedo.jpg

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. (Capítulo II, pg. 17)

Aluísio problematizou no romance ‘O Cortiço’ as relações sociais entre as classes mais pobres e a burguesia carioca, denunciando as explorações impostas às lavadoras, aos  ferreiros e operários: estão evidentes no livro as imensas  modificações enfrentadas na sociedade pelo  fim do tráfico negreiro (1850) e pelo fim da escravatura (1888), pelo declínio da economia açucareira, e pelo vertiginoso crescimento da industrialização e crescimento das cidades. Analisando estes elementos, ainda, sob a ótica do  determinismo social  (discutindo como o meio, o lugar, e o momento influenciam o ser humano) e do darwinismo social ( evocando um constante evolucionismo), Azevedo retrata como a vida social é imposta às pessoas e nelas operacionalizadas.

A estética naturalista, utilizada com mão larga pelo autor,  caracteriza-se por uma visão do homem, do mundo, da vida, da sociedade, da religião e da própria literatura vinculada a posturas filosóficas da segunda metade do século XIX: cientificismo, darwinismo, determinismo, materialismo e patologismo. O Brasil, mais -permeável à influência francesa, apresenta um naturalismo caracterizado principalmente pelo patologismo, pelo determinismo hereditário e mesológico (que vincula o homem e seu meio natural), em que o tropicalismo desempenha um papel especial. Por isto na obra, o cortiço influenciará as pessoas que nele moram, a cidade litorânea corromperá a todos que nela vivem. Note-se, por exemplo, a presença da certeza de que o mundo é governado pela violência. O homem é, no limite natural, um ser primitivo e brutal, que, corrompido pelo meio natural, que o afasta do processo civilizatório, descamba em uma vida cada vez mais violenta. . A violência se acha presente em todo 0 Cortiço. Não apenas entre pessoas, mas, o próprio cortiço surge como um elemento alimentador dessa violência.

E as palavras “galego” e “cabra” cruzaram-se de todos os pontos, como bofetadas. Houve um vavau rápido e surdo, e logo em seguida um formidável rolo, um rolo a valer, não mais de duas mulheres, mas de uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As cercas e os jiraus desapareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, estalando em descarga; ao passo que numa berraria infernal, num fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquela onda viva ia arrastando o que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de planta, tudo rolava entre aquela centena de pernas confundidas e doidas. Das janelas do Miranda apitava-se com fúria; da rua, em todo o quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela frente surgia povo e mais povo. O pátio estava quase cheio; ninguém mais se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças berravam. (pg. 127)

Neste retrato, relatado por um narrador onisciente, de terceira pessoa, que descreve um processo naturalizado, em que o coletivo, apontando para a animalização, desenvolve uma natureza zoomorfista:

O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea  naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (pg. 18)

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Para dar conta do tema, Aluísio Azevedo se vale de vários elementos: o primeiro que discutiremos é o uso do espaço:

Há dois espaços explorados por Azevedo, que servirão para contrastar as classes sociais, os dramas, as questões, os mundos:

O cortiço e o sobrado.

O cortiço é o conjunto de casebres, o todo orgânico, no qual vivem os pobres, os operários, amontoados ao lado da pedreira e da taverna do português João Romão. Na segunda metade do século XIX, os cortiços do Rio eram objeto de atenção das autoridades públicas. Médicos higienistas, autoridades policiais, vereadores, fiscais da municipalidade, tinham que dar conta do fenômeno crescente dos cortiços, por representarem ao mesmo tempo problema de saúde pública e de segurança. As conhecidas moradias coletivas,  de pobres e operários, das quais o proprietário era geralmente português, dono de armazém próximo, que explorava os moradores, era uma questão para as autoridades, que nem sempre estava do lado dos mais desfavorecidos: O Conde D’Eu, marido da princesa Isabel, foi dono de um imenso cortiço, o “Cabeça-de-porco”, onde viviam mais de 4 mil pessoas.

A ocorrência freqüente de epidemias de varíola e febre amarela levava à suspeita de que a aglomeração de pessoas em habitações coletivas piorava sobremaneira o quadro da saúde pública na Corte.

Cortiços eram também assunto de polícia. Numa conjuntura em que pobreza e disposição à criminalidade surgiam juntas no imaginário de autoridades e proprietários, os habitantes dos cortiços tornaram-se membros das ditas “classes perigosas”.

O sobrado, em que vivem Miranda e sua família símbolo da aristocracia  burguesa ascendente do século XIX se situa ficcionalmente no do bairro de Botafogo, explorando a exuberante natureza local como meio determinante.

A natureza próxima, marcada pela cidade litorânea, funcionará como um elemento  corruptor de ambos.

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Uma resposta to “O Cortiço, parte I”

  1. Paulo Cesar Alves 28 de Maio de 2013 às 23:22 #

    O Cortiço.
    .A leitura do texto mostra a dualidade da vida ( dos sujeitos ) de um ” cortiço , ( um espaço ,um território geográfico com elementos e sujeitos próprios e diferenciados, com ordenação e caos.). : O cortiço .e do espaço social.. autoridade e marginalidade .. mostra a liberdade individual atada ao caos coletivo de viver-se ” lá “..Tem a industrialização crescente com o declínio da economia açucareira. .O texto permite visões antagônicas e/ou opostas que se cruzam quase sempre.. Seria a comunicação dentro do caos..tem escondido a liberdade dos negros, com o fim do tráfico negreiro e posterior fim da escravidão mas que isso não determinou aos negros uma liberdade de fato , de direito e real. Uma vez que desconhecem como viver de forma livre numa terra que não é deles…” O Brasil mais permeável à influencia francesa..” Lembro de Antônio Paim. . sobre o filoneísmo, mania que o brasileiro tem de gostar de tudo que vem de fora, notadamente da França , que inundou a cultura brasileira seja de expressões, seja de palavras adaptadas ao dia a dia…
    Drica, não sei se os jovens de hoje tem condições de fazer uma leitura com todos esses conceitos sociais apontados no texto ( por você ) , entendo como um resumo de ” gente grande ” repleto de conceitos diversos sobre disciplinas também diversas….

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