Uma reflexão rápida

19 Jun

Desde a semana passada eu tenho analisado com amigos o grande movimento social que tomou as ruas do país. Tenho participado pela rede, até porque, como estou recém operada e muito frágil na saúde, não me sinto em condições de estar nas ruas. Mas, o interessante é que tudo que eu comentei do movimento até agora com pessoas próximas aconteceu da forma como eu imaginei, ora bolas, porque a insatisfação das pessoas com o transporte é imensa: elas são tratadas com pouquíssima dignidade humana por horas para ir e vir do trabalho em um transporte de péssima qualidade. Em Sampa, o metrô está mais do que lotado, e transitar pela cidade é um caos total. Os trabalhadores sofrem demais. As manifestações viraram um Carnaval às avessas: vamos expor toda a frustração de anos de descaso total.
E desde o início eu lembro muito de Manuel Castells. Em O poder da identidade, ele descreve idéias e análises organizadas após 25 anos de estudos sobre movimentos sociais e processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a  sociedade da informação: a globalização e a identidade. A partir da sociedade em rede, e das novas tecnologias, ele pensa a  revolução tecnológica e informacional e a dita  nova economia, problematizando várias questões neste contexto: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a realidade midiatizada., o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Por outro lado, o autor destaca o despertar e fortalecimento  de uma onda poderosa de identidade coletiva que desafia a globalização e o cosmopolitismo em função da singularidade cultural e autocontrole individual. Fundamentando a discussão nos movimentos sociais e na política, como resultantes da interação entre a globalização induzida pela tecnologia, o poder da identidade e as instituições do Estado, Castells, faz uma lúcida análise dessa sociedade conectada pela convergência de telecomunicações, e redes sociais, demonstrando como pensar a contraditória pluralidade e a própria  organização da sociedade civil em movimentos sociais participantes como uma quarta ameaça à soberania do Estado.

Gostaria, portanto de partilhar algumas idéias de Castells com vcs!

Os movimentos sociais, segundo Castells, vivem entre a relação do poder   do Estado e do poder da informação, “uma vez que,as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado […] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações “[…] (CASTELLS, 2000, p. 348-349).

No sexto capítulo, A política informacional e a crise da democracia, o autor destaca a fragmentação do Estado, a imprevisibilidade do sistema político e a  singularização da política. Afirma que .as novas condições institucionais, culturais e tecnológicas do exercício democrático tornaram obsoletos o sistema partidário existente  e o atual regime de concorrência política […]. (CASTELLS, 2000, p. 408). Conclui expondo que é necessário estimular o surgimento de uma democracia informacional.

À crise de legitimidade do Estado-Nação acrescente-se a falta de credibilidade do sistema político, fundamentado na concorrência aberta entre partidos. Capturado na arena da mídia, reduzido a lideranças personalizadas, dependente de sofisticados recursos de manipulação tecnológica, induzido a práticas ilícitas para obtenção de fundos de campanha, conduzido pela política do escândalo, o sistema partidário vem perdendo seu apelo e confiabilidade e, para todos os efeitos, é considerado um resquício burocrático destituído da fé pública. (Castells, 2000, p. 402)

Ao lado desse processo de  surge também um outro, que Manuel Castells, denominou  a “política do escândalo” , segundo ele, inseparável da política mediática” (2009: 331). É por meio dos órgãos de comunicação social (em que se incluem os meios de comunicação de massa) que a sociedade fica a saber desses mesmos escândalos. Depois, acrescenta o autor, “as características da política mediática fazem do uso dos escândalos o instrumento mais eficaz da luta política” (331). A personalização da política – que Manuel Castells acredita ser cada vez mais forte – acarreta muitas vezes fragilidades, que os opositores se encarregam de revelar. Ele escreve:

Como as mensagens mais eficazes são as mais negativas e uma vez que a difamação é uma forma definitiva de negatividade, a destruição de um líder político através da filtração, invenção  apresentação e propagação de uma conduta dolosa que lhe é atribuída, de forma individual ou em associação, é objectivo último da política do escândalo. Por isso, tácticas como a “investigação da oposição” pretendem encontrar informação comprometedora que se possa utilizar para destruir a popularidade de um político ou de um partido. A prática da política do escândalo representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo. Sendo que a política mediática é a política da Era da Informação, a política do escândalo é o instrumento eleito para dirimir as batalhas políticas do nosso tempo (Castells, 2009: 331-332). Esses escândalos geram inquérito parlamentar ou judicial, dos quais juízes, promotores e inquisidores acabam se tornando heróis protegidos pela mídia, que ganha sua audiência. Eles também apoiam essa mídia, e juntos arrebatam o poder do processo político e disseminando na sociedade, formando uma espécie de relação de simbiose. “Na política de escândalos, como também em outros domínios da sociedade em rede, o poder dos fluxos supera os fluxos de poder.”

Os escândalos acabam gerando o desinteresse da população por política, e uma busca por novas lutas, que movimentos sociais como esses, de massa, podem acabar suprindo.

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2 Respostas to “Uma reflexão rápida”

  1. luizmullerpt 19 de Junho de 2013 às 8:22 #

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