A nazificação da direita – algumas notas

6 Jul

 

Nas manifestações em São Paulo, que eu analisei rapidamente aqui,  percebi a presença, em especial no dia de 20 de junho, de grupos nazifascistas destacados na manifestação. Moro muito perto da Avenida Paulista, e vi que nesse dia a manifestação se dividiu em blocos, e o grupo dos neonazistas, muitos com suásticas, tatuagens white powers – que eu reconheço por estudar – estavam lá. Agrediam manifestantes de esquerdas, queimavam bandeiras do movimento negro, pediam a expulsão dos bolivianos, dos nordestinos. A nazificação da direita paulista chegava ao máximo, no meio de uma manifestação que tinha tudo para ser libertária e pacífica. Escrevo o presente texto para acrescentar ao debate que surge após a publicação da minha entrevista na Carta Capital, que pode ser lido em: http://www.cartacapital.com.br/politica/a-explosao-do-odio-7327.html/view

Em primeiro lugar a expansão dos grupos neonazistas não é nova, estudo isso há onze anos. A nazificação da direita também não é.  É complexo. Quero colocar algumas notas para permitir um chão comum:

1. A pesquisa surgiu da minha perplexidade, em 2002, diante do crescimento assustador destes grupos. Que não são skinheads. Skinheads não são nazifascistas por definição, a origem do movimento skinhead é completamente diferente e operária, eu sei,  mas muitos grupos neonazistas usam o termo skinhead para se definir, e como antropóloga tenho que entender como eles se definem: skinhead, brancos, arianos, alemães. Um mote entre eles é: minha nação é minha raça.

2. A eles interessa odiar: odiar e criar inimigos, por uma construção simbólica coletiva, no laço social, que denomino paranóia construída socialmente, de um outro animalizado e diabolizado: o judeu, o negro, o migrante, o nordestino, o gay, a lésbica. Todos eles devem ser eliminados.

3. Suas estratégias são criadas num limbo entre um léxico genômico complicadíssimo de se explicar (mitocôndrias negras, poe exemplo) e de símbolos religiosos, pagãos e protestantes. Não tenho nada, absolutamente nada contra os protestantes, mas é FATO que LUTERO escreveu OS JUDEUS E SUAS MENTIRAS e que isso foi determinante na história do antissemitismo e do nazismo alemão. È fato que a KKK  surgiu entre os fundamentalistas protestantes estadunidenses, e que a teologia da prosperidade fomentou ódio aos gays nos EUA. Eu não tenho nada contra as igrejas evangélicas, mas tenho que apontar os fatos que ampliaram os discursos de ódio no mundo. Leia sobre um laudo que fiz a respeito de um livro, para entender um pouco acerca disto em http://etnografianovirtual.blogspot.com.br/2012/09/mpf-abre-inquerito-civil-sobre-livro.html

4. A direita tem se apropriado deste discurso e de muitos destes elementos simbólicos, inclusive, usando atores neonazistas. Exemplo: Durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, em 2010, vivemos neste país um dos mais horrendos processos de calúnias já vistos em uma batalha política: e-mails anônimos, circulavam pela internet, com mentiras contra a candidata Dilma Roussef. As mentiras eram tão absurdas que resolvi empregar a mesma metodologia que usara em minha pesquisa de mestrado para tentar identificar vínculos na rede entre as mensagens transmitidas, sites, blogs, e registros. Outras pessoas fizeram o mesmo, sem usar uma metodologia e cibermetria. Uma dessas pessoas, Tony Chastinet, comentou a respeito de um site mencionado em uma mensagem por ele recebida na época da grande boataria, que eu também recebi, que era intitulada: “Candidatos de esquerda”. Na mensagem se recomenda a leitura do sitewww.tribunanacional.com.br. Na página, há uma montagem, grosseira, de Dilma ao lado de um fuzil. Uma verdadeira central de calúnias como se pode amostrar emhttp://www.tribunanacional.com.br/v2/editorial/a-terrorista/.
O site na época estava registrado em nome de “Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares”, cujo CNPJ (026.990.366/0001-49), está localizada na SCRN, 706-707, Bloco B, Sala 125, na Asa Norte, em Brasília. O responsável pelo site é Nei Mohn. Ele foi presidente da “Juventude Nazista” em 1968.

5. Quando o movimento chegou às ruas, eu pensei a imensidão dele à luz de Castells, imaginei, que era evidente seu crescimento, oras, porque a insatisfação das pessoas com o transporte é imensa: elas são tratadas com pouquíssima dignidade humana por horas para ir e vir do trabalho em um transporte de péssima qualidade. Em Sampa, o metrô está mais do que lotado, e transitar pela cidade é um caos total. Os trabalhadores sofrem demais. As manifestações viraram um Carnaval às avessas: vamos expor toda a frustração de anos de descaso total.

E desde o início eu sempre  lembrei muito de Manuel Castells. Bem no início, antes da pancadaria geral da PM paulista, que ao se calar, abriu espaço pra tudo, até para os nazis.

Em O poder da identidade, ele descreve idéias e análises organizadas após 25 anos de estudos sobre movimentos sociais e processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a sociedade da informação: a globalização e a identidade.

Alguém teve coragem de me dizer que a rede não teve nada importância nas manifestações. realmente, 150 mil pessoas  que não se conhecem apareceram na frente da minha casa e marcaram como? pelo telefone, por telepatia, o por sinal de fumaça? Depois não querem que antropólogos falem em pensamento mágico!!!!!

Os movimentos sociais, segundo Castells, vivem entre a relação do poder do Estado e do poder da informação, “uma vez que,as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado […] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações “[…] (CASTELLS, 2000, p. 348-349).

A personalização da política – que Manuel Castells acredita ser cada vez mais forte – acarreta muitas vezes fragilidades, que os opositores se encarregam de revelar. Ele escreve:

Como as mensagens mais eficazes são as mais negativas e uma vez que a difamação é uma forma definitiva de negatividade, a destruição de um líder político através da filtração, invenção apresentação e propagação de uma conduta dolosa que lhe é atribuída, de forma individual ou em associação, é objectivo último da política do escândalo. Por isso, tácticas como a “investigação da oposição” pretendem encontrar informação comprometedora que se possa utilizar para destruir a popularidade de um político ou de um partido. A prática da política do escândalo representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo. Sendo que a política mediática é a política da Era da Informação, a política do escândalo é o instrumento eleito para dirimir as batalhas políticas do nosso tempo (Castells, 2009: 331-332). Esses escândalos geram inquérito parlamentar ou judicial, dos quais juízes, promotores e inquisidores acabam se tornando heróis protegidos pela mídia, que ganha sua audiência. Eles também apoiam essa mídia, e juntos arrebatam o poder do processo político e disseminando na sociedade, formando uma espécie de relação de simbiose. ”Na política de escândalos, como também em outros domínios da sociedade em rede, o poder dos fluxos supera os fluxos de poder.”

Os escândalos acabam gerando o desinteresse da população por política, e uma busca por novas lutas, que movimentos sociais como esses, de massa, podem acabar suprindo. Os neonazistas se aproveitaram disto, repetindo Mussolini e gritando SEM PARTIDO: lembro que o ditador italiano defendia que os partidos enfraquecem a nação. Desculpem, direitistas loucos, mas a democracia precisa de partidos fortes. E lutaremos por ela.

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