O bom samaritano e o programa Mais Médicos

12 Jul

Houve um tempo em que eu acreditei no juramento de Hipócrates. A famosa declaração solene realizada por médicos por ocasião de sua formatura. Na versão mais verbalizada no Brasil contemporâneo, milhares de formandos afirmam, todos os anos: “Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e a minha arte com boa reputação entre os homens; se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário”. Claro que isto se perde um pouco no luxo das formaturas e ao som das bandas que nelas tocam.

Há muito tempo, perguntaram a um Mestre, a respeito do sentido da vida. Um outro tipo de doutor, o da lei, se atraveu a inquiri-lo acerca do sentido da existência humana. O exemplo dado foi brilhante:

Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês? Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo.

Quem é o próximo? O sacerdote, o levita ou o samaritano? Quem é aquele digno da vida eterna? Obviamente, aquele que não tem medo do pobre, que não se acovarda diante dos desafios impostos pela violência e pela pobreza. Aquele que cuida de suas feridas, aquele que o acolhe. O Programa Mais Médicos vem resolver e denunciar a hipocrisia da medicina sacerdócio e da medicina levítica deste país.

É simples encarar a medicina como sacerdócio nos hospitais de luxo da Grande São Paulo. É facílimo encara a medicina como procedimento levítico nos escritórios das Sociedades médicas. Mas,a  população, essa que continua despojada e maltratada há anos, precisa de samaritanos, precisa de quem se disponha a ir para as regiões mais distantes, precisa de quem queira morar em cidades pequenas, de quem acredite no SUS,  em creia em pessoas mais do que em corporativismo.  Mas, faltam médicos. Muitos médicos. Muito mais do que se achavam no início. Acho que faltam milhões.

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