Racismo de jaleco

27 Ago

O Brasil, esse país que nos delírios de Ali Kamel não necessita de cotas porque não abriga racistas, se comparado ao país das maravilhas perderia feio: o mundo de Lewis Carrol parece um mundo muito mais verossímil perto do que tenho lido na imprensa desde a esperada chegada dos médicos cubanos. Esperada pelas pessoas de bem, pelos municípios que precisam de médicos há anos, pelos patriotas  que anseiam por justiça social  e pelos milhões de  brasileiros que não tem acesso à saúde nas áreas mais  distantes do país. O Brasil não é para iniciantes, com certeza. É para corajosos, como Alexandre Padilha que enfrenta o problema, pelo âmago da questão: faltam, de fato, médicos! É também para quem , no mínimo, consegue perceber que o sistema colonial nunca foi de nós apartado, e que a elite não apenas se acha branca, e  que, quando usa jaleco branco, parece não dispor  este jaleco a serviço do pobre, do menos favorecido. A não ser como caridade, nunca como direito.

Quando defendi meu Mestrado acerca do racismo digital, na UNICAMP, escrevi: o discurso racista regula, seleciona, organiza, redistribui e articula poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro das discussões acerca dos poderes, quando se sente ameaçada de sua extinção. Agora, vemos isso se desenvolver: médicos gritam com colegas oriundos de Cuba, com medo, transmutado em ódio racial irracional. Não lhes interessa a formação dos cubanos, seu preparo. Interessa-lhes odiar, pura e simplesmente. Cospem em colegas,  denominam os recém chegados de escravos.

“Os mitos despertam nos homens pensamentos que  lhes são desconhecidos”.
Claude Lévi-Strauss (1983, p. 13)

O mito do médico branco, dono do poder, do saber e da autoridade se dissolve enquanto essa classe absolutamente corporativa solta como um dragão apenas ódio, racismo, preconceito e incentivo ao crime. Parece que não há mais racionalidade. Seu desejo é que se restaure uma espécie de ordem natural, aonde apenas os ricos tenham acesso ao médico, e que os pobres continuem abandonados. E que apenas eles, brancos, de brancos jalecos, decidam quando façam caridosamente uma visita a um lugar menos favorecido. Desde que tenha um shopping na volta.

Escravos são os racistas de jaleco. Escravos de seus modelos raciais racistas e alucinadores. Escravos de sua indecência e desumanidade, escravos de seu corporativismo. Que o modelo colonial imploda de uma vez. Bem-vindos, cubanos. Muito obrigada por tudo.

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