À esquerda

7 Dez

Eu diria, que ser de esquerda é entender que enquanto houver um ser humano fora, ninguém está dentro. Dom Helder Câmara falava que enquanto houver uma pessoa com fome no mundo, nossa Eucaristia não é completa. E completava, quando dou pão aos pobres me chamam de santo, quando indago pela causas da pobreza, chamam-me de comunista.

“A riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma “imensa acumulação de mercadorias.”(1). Enquanto uns acumulam, outros não tem. Alguém tem que não ter para outro acumular, e o que fica no meio invejar o que tem pra trabalhar feito um burro de carga, tentando ter como o que acumulou e fugindo do medo de não ter como o que não tem.

E se é verdade que o capitalismo é uma “feitiçaria”  como escreve Isabelle Stengers, também é verdade que estamos todos presos a uma “eficácia simbólica”, como a descreveu Claude Lévi-Strauss, todos fazemos parte de um sistema que credita a ele uma estrutura que funciona, e da qual não conseguimos nos livrar, tal qual a máscara de ferro descrita por  Max Weber, até porque desinfeitiçar é um processo. Alguém conhece um bom xamã nisso?

O processo do capital como escreveu Deleuze nos levou a nos tornamos mera máquinas desejantes, objetos viraram fetiches, nossos corpos nem mais são nossos, perdemos a noção da nossa subjetividade, e a imago é tudo que importa. O novo filme de Sofia Coppola fala muito bem disso: em Bling Ring: A Gangue de Hollywood,  um grupo de adolescentes obcecados por fama, Rebecca (​​a líder), Marc, Nicki, Sam e Chloe, usam a internet para rastrear o paradeiro das celebridades, a fim de roubar as suas casas. A prisão tudo bem, desde que se fale deles. É o fim do mundo, não se deseja nem mais a liberdade,  o grito por FREEEEEEDONNNN  do guerreiro, patriota escocês e herói medieval William Wallace perdeu o sentido. Interessa o click da câmera e o número de curtidas do Face. Muito mais.

No meio de tudo isso, aos que faltam tudo, nenhuma chance é possível sem a esquerda. Porque ser de esquerda é olhar o que falta a quem falta. Ser de esquerda é ser fundamentalmente chato, porque é apontar o tempo todo: falta isso, falta aquilo, faltam eles, aquelas, aquelas ainda.

Ser de esquerda não é fácil, não é simples, porque aos que faltam não falta apenas pão, falta amor, saúde, vida, muitos direitos fundamentais, forças para buscar: direitos, sentido e significado. Falta justiça, falta revelação, falta publicidade. Aos que faltam sobra anonimato, silêncio e desolação, tudo que as máquinas desejantes, adivinhem? Não desejam.  Aos que faltam a espera é companhia da morte. Aos que faltam, grita-se negligência, dor, desespero. Não tem balada, rave, 500 kg de cocaína na vida dos que nada têm. Nos desamparados sobra desilusão. A mídia nunca foi lá. A esquerda precisa ir. A esquerda é a única esperança dos que lá estão. De vir a ser. Do seu devir. Por isso, eu que nasci gauche, torta e assim, sou esquerda de papel passado.

Ser de esquerda, Giles Deleuze

Ser de esquerda é isso. Eu acho que é criar o direito. Criar o direito. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é um governo de esquerda. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. E ser de esquerda é o contrário. É perceber… É um fenômeno de percepção. Primeiro, percebe-se o horizonte. Estão à esquerda em seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro, vê-se o horizonte e sabe-se que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode mais durar. Não é possível esta injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos.. A esquerda é o conjunto dos processos de devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas são coisas bem conhecidas.

(1) A primeira citação de O Capital aprece antes em Karl Marx,Contribuição para a Crítica da Economia Política.

À esquerda – Vladimir Maiakovski

Em frente, marche! Basta de falar!
O tempo dos oradores já passou.
Hoje tem a palavra
o Camarada Mauser!
Não há outra lei senão a da natureza.
Somente Adão e Eva estão com a verdade.
Abaixo as leis, abaixo as cadeias!

Fustiguemos a carroça da história
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Em frente, à conquista
dos Oceanos!
Tendes canhões em vossos navios de aço.
Já esquecestes como os fazer falar?
Que a coroa abra uma goela
quadrangular,
que o leão britânico ruja
que importa?
A comuna está em marcha
e manterá a vitória!
À esquerda, à esquerda, à esquerda!

Aqui é a sombra e a morte, mas lá longe
do outro lado das montanhas
o sol se levantou sobre um mundo novo.
Lá, além das planícies,
o solo estremece sob os passos inumeráveis
de homens impávidos e livres.
Camaradas, nós somos um rochedo de granito.
Os bandidos da Entente se arremessam contra ele.
Mas nada abaterá a Rússia Soviética.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Eles não puderam furar os olhos atilados da águia
que olha e compreende as lições do passado.
Avante, pois, meu povo, e já que o pegaste
estrangula teu carrasco!
A trombeta dos bravos já soou o alarme.
Nossos estandartes aos milhares avermelham o céu.
Só a rota dos traidores é que conduz à direita.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!

Vladimir Maiakovski (Bagdadi, Rússia, 19 de julho de 1893 – Moscou, 14 de abril de 1930) – Poeta e dramaturgo, considerado um dos mais influentes autores do século XX. Foi um dos fundadores do movimento artístico futurista da Rússia. Ao lado de figuras como Meyerhold, participou da criação de um novo teatro russo influenciado pela arte construtivista. As traduções foram feitas por Carrera Guerra, Boris Schneiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos

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