Não é questão de corpo, mas de poder.

31 Mar

Hoje nós, da ONG ESSAS MULHERES desenvolvemos, junto com a Secretarias Municipais de Mulheres e da Secretaria de Pessoa com Deficiência de SP, uma roda de conversa para apresentar o PROJETO VIDAS EM RODAS, fundamentado na metodologia Paulo Freire, e que viabiliza, em três módulos, o encontro de Mulheres com Deficiência e Mães de Crianças com Deficiência com temas feministas.

No evento deixamos claro três objetivos/focos/ações centrais da ESSAS MULHERES:

  • Discutir e denunciar amplamente a questão da violência sofrida pela mulher com deficiência.
  • Desenvolver um grande debate acerca da relação entre mulheres e deficiência, na questão dos direitos sexuais e reprodutivos.
  • Elaborar ações de autonomia e visibilidade para mulheres com deficiência, fortalecendo laços sociais, investindo na solidariedade, no humor, no espírito crítico e na agenda de uma cidadania plena.

 

Para tanto, elaboramos ações, debates, aulas, apostilas, dinâmicas.

Falamos hoje muito de violência. As narrativas trouxeram o debate, falamos disso demais. Preparando-me para o evento, eu separei muitos dados.

Lembrei-me de uma denúncia q eu fiz há algum tempo atrás, de uma página de Humor Controverso q dizia: Estupre uma deficiente intelectual, ela não vai poder contar mesmo. Minha indignação me fez ligar para pessoas as três da manhã, mas consegui que a página fosse retirada, de tanta gente que eu pedi ajuda. E eu chorava, e chorava.  Muito.

Ainda na vibe da organização do evento saiu a pesquisa do IPEA.  E duro não é ler a pesquisa, é ler comentário das pessoas no FACE, PROVANDO que os dados são reais, que o pacto civilizatório foi quebrado. Vivemos uma espécie de barbárie com requintes neo-fascismo em alguns lugares sociais. Precisamos de um choque. Como a campanha da Nanda, que mobilizou o FACE, https://www.facebook.com/nana.queiroz. Precisamos conversar sobre feminismo, profundamente. URGENTE. Sobre violência.

Mulheres com deficiência vivem em absoluta vulnerabilidade. Vivem em fragilidade social, educacional, sofrem ainda mais abusos que as mulheres sem deficiência. 40% delas sofrem de violência doméstica. Mulheres com deficiência intelectual ou mental chegam a ser 9 vezes mais abusadas.

Conheço casos de abusos, pelas pesquisas, emblemáticos. Mudo o nome aqui: só o nome. Suelem, surda, foi abusada pelo padastro anos a fio.  Marina, paraplégica foi violentada pelo cunhado 8 anos seguidos. Nos dois casos, a família sabia. A situação só mudou com interferência externa.

Por conta de tudo isso, eu que escolhi o caminho Rosa Parcks de vida (eu não saio do ônibus, não adianta, eu não saio, eu fico aqui e luto), fui aprofundando o estudo acerca da questão da violência contra à mulher, a luz da violência contra a mulher com deficiência.

E é isso que eu queria partilhar.

Primeiro. Violência sexual não tem nada relação com roupa, crença. Tem relação com PODER.  O que está em questão é quem manda. Você sobre o seu corpo, ou eu, e o meu desejo.

O homem machista costuma responsabilizar a vítima comparando-a com objetos, dizendo é como ir na favela com ROLEX, ao afirmar que a mulher que usa roupa assim ou assada (ou frita), é co-responsável pelo crime. Uma matéria da ridícula revista usa o argumento.   Caras mulheres: um relógio, ainda que de milhares de dólares não é uma PESSOA.

Uma pessoa tem direitos. Mulheres são pessoas. Se eu tivesse que resumir o feminismo numa frase eu escreveria, feminismo é uma luta radical pelo reconhecimento de que mulheres são PESSOAS.

Quando entendemos isso, passamos a compreender que a roupa nada significa, afinal matar uma pessoa nua não minimiza o homicídio…

Mas, na nossa sociedade, o feminino foi durante muito tempo uma coisa que pertencia ao homem. Não uma pessoa. E por isso, o argumento da roupa, e de como deve ser a nossa luta, se devemos mostrar peitos, ou não e todos os debates sobre o direito do corpo alheio.

Porque, no limite, o debate da violência sexual, é um debate sobre PODER. SOBRE QUEM DETERMINA A VONTADE SOBRE O CORPO DA MULHER, e aqui é sobre mesmo, até incluindo o debruçar-se.

Em segundo lugar, só mudamos relações de poder desiguais, construindo igualdade. E para isso, precisamos dar AUTONOMIA para as mulheres, estabelecermos relações de solidariedade e confiança entre nós. Precisamos confiar nas mulheres… Precisamos parar de falar mal das mulheres pela vestimenta, pelo cabelo, pelos mesmos motivos que o PODER MACHISTA usa para retirar poder de nós.

Construir igualdade é garantir mulheres na política, é votar nelas, é defendê-las.

Em terceiro lugar, precisamos discutir direitos sexuais e reprodutivos. Este é o centro do poder. São as mulheres que precisam discutir e protagonizar o debate sobre  gravidez, gestação, prevenção, aborto legal. SOMOS NÓS que temos que garantir que seremos ouvidas.

 

bjs coloridos em todas.

Na ONG eu estou Coordenadora Científica, assim como no Instituto Baresi. Como teórica da deficiência coordeno o Comitê Deficiência e Acessibilidade da Associação Brasileira de Antropologia. E tenho uma etnografia acerca da violência praticada contra mulheres com deficiência, e há anos estudo dados acerca da relação pobreza- deficiência – violência.

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