Política & Ideologia

20 Maio

Segundo a grande pensadora da política Hannah Arendt[1], a política se baseia na pluralidade da humanidade. E portanto, deve  tratar da convivência entre diferentes.  Se todos fossem iguais, o  mundo não seria apenas chato, monótono e um convite ao suicídio pelo falta de convite ao desafio, pela falta da divergência,  mas também seria apolítico, porque a política surge exatamente para negociar a convivência humana, estabelecer o contrato social, assegurar os direitos, os valores, as garantias dos diferentes agentes.

Arendt continua afirmando belissimamente: Exatamente  na garantia e concessão voluntária de uma reivindicação juridicamente equânime reconhece-se que a pluralidade dos homens, os quais devem a si mesmos sua pluralidade, atribui sua existência à criação do homem.

Ou seja: somos humanos, e cada vez mais humanos, exatamente na medida em que somos capazes de conviver com os mais diferentes de nós, quando garantimos por meio de uma concessão voluntária o direito ao outro de participar da vida pública, tanto quanto aceitamos o nosso direito de reivindicarmos este direito a esta participação.

O propósito essencial da política, portanto é criar, na visão de Arendt, um espaço humano, diverso, de discernimento, para a concessão ao outro e a reivindicação de si.

Discernimento é uma palavra fundamental aqui.  A construção da alteridade, da compreensão do outro, ( do francês Autre) só é possível com discernimento da relação entre eu e outro, da suas garantias, das minhas reivindicações. Política é um espaço, absolutamente relacional.

Outro aspecto fundamental da política está na na confiança, que Arendt abordou neste texto e também em Política e Verdade. Neste primeiro texto, ela fala:

A liberdade de externar opinião, {…} distingue-se da  liberdade característica do agir, do fazer um novo começo, porque numa medida muitíssimo maior não pode prescindir da presença de outros e do ser-confrontado com suas opiniões. É verdade que o agir também jamais pode realizar-se em isolamento, porquanto aquele que começa alguma coisa só pode levá-la a cabo se ganhar outros que o ajudem. Nesse sentido, todo agir é um agir in concert, como Burke costumava dizer: “é impossível agir sem amigos e companheiros dignos de confiança” (Platão, 7- Epístola 325d14){…}

Ou explicando, não se faz política sem confrontação, e muito menos no isolamento do Himalaia. No Himalaia se medita. Política se faz no debate. No mundo, com as pessoas, para as pessoas, entre as pessoas.

Também não se faz política sozinho.  Se faz política in concert, ao lado de quem se confia. Política depende de alianças. Esses vínculos devem ser profundos, verdadeiros, basear-se em valores, adivinhem? Políticos! Valores que busquem a garantia da diversidade humana. Que sejam motivados por política, pelos valores que garantam a perpetuação do in concert, da luta de todos por todos.

O contrário de tudo isso é ideologia.  Ideologia é a morte da política. A ideologia deseja  o fim da diversidade, a eliminação da convivência, a vitória da dominação, o poder, o império. A política debate, o império invade. A ideologia se dá não entre companheiros, mas entre ladrões. Entre mercenários, a ideologia move interesses e conluios, degradante, calunia, decompões e tenta destruir a política. A ideologia criou o fascismo, o nazismo, a bomba de Hiroshima. A ideologia é racista, machista, capacitista, alienante, odeia o diferente. A política quer acabar com a pobreza, a ideologia quer eliminar o pobre. A ideologia criminaliza a luta dos movimentos sociais, e tudo odeia, a não ser o lucro ganho com trabalho escravo do imigrante.

Política é cheiro de mato e crianças brincando, ideologia é cheiro de mofo e lixão com crianças catando comida para não morrer de fome.

Política é esperança, é céu azul, é pátria mãe gentil. Ideologia é medo, é céu poluído e filho com pais mortos e exilados pela ditadura. Política é saúde para todos, ideologia é plano de saúde para alguns e morte para o resto. Política é a primavera tendo filhos e flores, numa tarde de sol.  Ideologia é aborto com a morte da mãe e as flores do túmulo apodrecidas. Política é fé no amanhã. E no depois de amanhã, e no dia do aniversário do ano que vem. Ideologia é medo da morte. E de todos os dias que vem antes dela.

Política é luta. Ideologia é silenciar a luta.

Acredito que a ideologia está com os dias contados. E que o povo profundo, da luta,  vai pra luta defende a política, com fé, com diálogo, com discernimento e confrontação. Não vai ser fácil. A ideologia tem mídia, tv, jornal. Ela gosta de aparecer. Mas, a turma da política tem a Aparecida. Ela é da política. Como eu sei? Uma hora aparece índia, outra negra, sempre diversa. Em cada canto, do jeito do seu povo, disposta a dialogar. Santa Mãe, rezai por nós.

[1] O que é Política? Agosto de 1950

 

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