Para journaling poético – Camões

20 Dez

Quer falar de amor? ❤

Fale com quem escreveu de forma linda, quase divina.

Você pode escolher um pedaço, um trecho, uma linha, duas….

Vamos de Camões:

 

Um poema de Camões desenhado para vocês!

Um poema de Camões desenhado para vocês!

Amor, que o gesto humano na alma escreve,
    Vivas faiscas me mostrou hum dia,
    Donde hum puro crystal se derretia
    Por entre vivas rosas e alva neve.
      A vista, que em si mesma não se atreve,
    Por se certificar do que alli via,
    Foi convertida em fonte, que fazia
    A dor ao soffrimento doce e leve.
      Jura Amor, que brandura de vontade
    Causa o primeiro effeito; o pensamento
    Endoudece, se cuida que he verdade.
      Olhai como Amor gera, em hum momento,
    De lagrimas de honesta piedade
    Lagrimas de immortal contentamento

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por huns termos em si tão concertados,
Que dous mil accidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena, ausente.
Tambem, Senhora, do desprêzo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-hei dizendo a menor parte.
Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.

Onde esperança falta, lá me esconde
    Amor hum mal, que mata e não se vê.
      Que dias ha que na alma me t[~e]e posto
    Hum não sei que, que nasce não sei onde;
    Vem não sei como; e doe não sei porque.

Sete annos de pastor Jacob servia
    Labão, pae de Raquel, serrana bella:
    Mas não servia ao pae, servia a ella,
    Que a ella só por premio pertendia.
      Os dias na esperança de hum só dia
    Passava, contentando-se com vella:
    Porém o pae, usando de cautella,
    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.
      Vendo o triste Pastor que com enganos
    Assi lhe era negada a sua Pastora,
    Como se a não tivera merecida;
      Começou a servir outros sete annos,
    Dizendo: Mais servíra, senão fôra
    Para tão longo amor tão curta a vida.



Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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