Para Oscar Romero, com amor.

9 Fev

 

Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão. Hebreus 2. 14 e 15

Ao escrever aos Hebreus, o autor revela o sentido máximo da Paixão de Cristo: destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, a fim de libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão. Como cristã, sempre li este texto com esperança, como cientista social, sempre vi neste texto um desafio.

Uma vez, meu pai, em 2013, pediu-me que eu escrevesse algo sobre esse texto. Eu comecei algo na época, que expando aqui. Hoje algo me motiva isso. O papa Francisco acaba de anunciar a beatificação de Oscar Romero.  Sem dúvida, sempre foi uma das trajetórias que mais admirei em minha vida, e ver esta resolução, depois de vinte anos de lutas e discussões no Vaticano demonstram que a luta recompensa, sempre. Um dia. De alguma forma. No caso, na forma de esperança, de sangue mártir, irrigando a Igreja de mais e mais luta.

Voltando ao texto de Hebreus,  texto em que se revelam elementos cruciais do Mistério Pascal: o Mistério Pascal é a grande vitória sobre a morte, celebramos hoje o Mistério Pascal nesta beatificação.

Oscar Romero vive. Bendito seja.

O autor de Hebreus fala dos filhos que participam da mesma carne e do sangue, da mesma natureza, da mesma humanidade. Eis o Mistério Pascal, somos todos irmãos, e nos mais frágeis , a nossa humanidade encontra seu lado mais delicado. Garantir vida, cidadania a cada pessoa humana é celebrar uma Eucaristia verdadeira, plena.

A Ressurreição aqui é tanto  sobre a morte física/biológica (portanto, inevitável), pois a Ressurreição é a garantia cristã da vitória da esperança, quanto sobre a morte espiritual, como negação da vida eterna, como fechamento para a fraternidade e a divindade (portanto, resultado de uma opção). A opressão dos pobres é uma morte em vida, a sujeição à verdadeira escravidão é um morrer cotidiano, pois impede uma vida plena, feliz, realizada. Enquanto os poucos senhores deste mundo gozam de tudo que o mundo pode oferecer, os pobres, aos bilhões, estão condenados na Terra a uma morte em vida, à condições de trabalho precário, à situação de refugiados, à pobreza e a miséria. Oscar Romero, um dos profetas latinoamericanos dos pobres ao ser beatificado, enche-nos de esperança para a vocação de lutar.

Como renovar neste dia, nossa compreensão, então, o texto do autor de Hebreus? Em primeiro lugar, implica em entender que o Mistério Pascal significa a possibilidade de destruição do império da morte, pela destruição do demônio, e do medo da morte. A filósofa da educação Sandra Mara Corazza recorda que “é fácil dizer que o Inferno “é tão velho quanto o mundo” (2002, p. 15). Ela aponta que o Inferno e o Diabo “pertencem a toda a humanidade”(p. 15), e que durante a construção do nosso imaginário coletivo sempre foram ‘usados como forma matricial de qualquer ideologia e movimento de fetichização” (p.15). Para tanto, foram construídos como “completamente indestrutíveis” e como aqueles que se refazem continuadamente, “em torno das experiências do mal, da falta moral, do castigo e do sofrimento” (p.15). A autora também ressalta que a origem etmológica da palavra demônio é grega, podendo ser transliterada como “daimonion” e que seu significado pode ser sintetizado como “o que distribui”, “que divide”, “o provedor que reparte” ao contrário de simbólico que sintetiza, reúne, unifica (p. 17).

Ou ainda Ef 1,9, que “Ele nos manifestou o mistério de sua vontade, conforme decisão prévia, para realizá-lo na plenitude dos tempos – o desígnio de em Cristo reunir todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra”.

 

Corazza, ainda lembra: Satã é deste mundo, de nosso mundo. Não é alteridade radical, não é o completamente outro. Não se defronta ao humano, como o que é alheio à sua natureza, como o que o nega e anula. Mas, vive entre nós, dentro de nós, todo o tempo. Reina, como Príncipe, aqui, neste mundo onde vivemos. Seja como ameaça, limite, ou ensinamento, Satã está instalado na vida cotidiana. Está aqui, no coração das coisas e dos humanos. Ele dissolve as fronteiras da verdade e da quimera, e guarda a memória das grandes ameaças malignas (p. 2).

 

Em segundo lugar, é preciso ter em mente, que destruir o que reparte e o que divide é romper com a própria estrutura do sistema capitalista e com o sistema de classes. É desacreditar de todo e qualquer sistema patrimonialista estamental, pois como escreveu Deleuze, ateu,  “não se deve perguntar qual é o regime mais duro, ou o mais tolerável, pois é em cada um deles que se enfrentam as liberalizações e as sujeições” (1998, p. 220).

O Mistério Pascoal não será pleno enquanto a Eucaristia não se realizar plenamente, numa sociedade sem divisões, e na qual homens, mulheres, pessoas com e sem deficiência, de qualquer orientação sexual, de qualquer origem social, étnica, se vejam absolutamente como iguais.

Finalmente, a Paixão de Cristo é libertadora, essencialmente libertadora: remove os grilhões da opressão, e deve servir para encorajar a luta contra todo o medo e contra toda sujeição econômica, política, social, cultural, deve gerar e gerir uma autonomia expressiva em todos os indivíduos. Manifestando essa natureza libertadora, a Paixão de Cristo deve construir o paradigma libertador, articulável por meio de uma libertação profunda, simbólica, integral, pluralista, capaz de reler a experiência cristã a partir da aceitação sincera da pluralidade das vias religiosas diversas, inter-religiosas, multi-religiosas, ecológicas, feminista, multi-regional e que dialogue com contextos universais e regionais, com a mesma delicadeza e compromisso.

Corazza, Sandra Mara. (2002). Para uma filosofia do Inferno na Educação, Nietzche, Deleuse e outros malditos afins. Belo Horizonte: Autêntica editora.

DELEUZE, Gilles, (1998). Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34.

 

Bjs coloridos e libertadores em todos.

 

 

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