#002 Ela foi minha primeira amiga de infância.

14 Jul

1book1

A primeira vez que a gente senta ao lado da irmã da Alice, de sua gatinha Diná, e sonha com ela a queda na toca do Coelho Branco, a primeira vez a gente não esquece.

Eu tinha quatro anos, e meu pai olhou para mim e disse, hoje vou contar para você um dos contos favoritos da sua mãe. Soou como se ele fosse me dar uma sacola cheia de doces, ou me contar um grande segredo de família. o livro chegou assim, como um cumplíce da felicidade materna. Ele pegou um exemplar do livro com grandes figuras, em inglês, todas figuras preto e branco. Aquilo parecia um enigma, um pacto, entre ele e eu.

Ele me mostrou o desenho da garota e disse, Adriana essa é Alice. Muito prazer, Alice, eu disse, quem é você, como se pudesse prever a pergunta da Lagarta…

Meu pai começou a  dizer que um dia, ao lado da irmã, Alice avistou um coelho de colete. Eu ri, imediatamente. Um coelho correndo de coletes. Aquilo me pareceu absolutamente provável, como todo mundo imaginário deve parecer provável às crianças. O coelho retirou do colete um relógio e gritou: Estou muito atrasado.

Tive pena dele, preso no relógio, tal como meu pai e minha mãe. Porque um coelho, ora bolas, estaria atrasado? – perguntou meu pai. E eu respondi: para ir ao jantar de cenouras com a coelha, lembrando das chamadas de minha mãe, na hora do jantar…

Não, respondeu meu pai, solenemente, ele estava atrasado, e a Rainha de Copas poderia castigá-lo. Eu perguntei qual seria o castigo, e meu pai, riscando a garganta com o dedo disse em tom lento e silábico: Cortem a cabeça, gritaria a Rainha. Eu lembrei de Mary Stuart, que sempre povoava a vida em casa, minha mãe e seu mundo britânico, histórias, livros, teatro, tudo ela exigia que a gente soubesse e lesse. A Rainha de Copas é a Lisabeta? – eu perguntei, e meu pai falou, que era parente: uma parente mais antiga, ou mais nova talvez, que eu fosse perguntar a minha mãe, que lógico, a cronologia da coroa inglesa era a paixão dela, não a dele. Mas, uma parente mais brava, mais dura e completamente louca. Olhando sério pro meu pai eu perguntei: porque colocam uma louca no trono da Inglaterra? Era costume da política, ele me respondeu, dando-me a melhor informação sobre Ciência Política de toda minha vida. Os loucos reinam, eu pensei. Nunca vou querer reinar, porque eu não sou louca.

Meu pai ficou em pé, como um valete de copas, ou como o gato na árvore, colocou as mãos na cintura, apontou para um lado e afirmou: lá mora uma Lebre de Março maluca. E mudando de direção, disse e lá vive um chapeleiro louco. Eu sou louco, você é louca. Somos todos loucos aqui. Eu olhei para o meu pai bem séria (eu era dessas crianças muito sérias, mas muito piadistas também, que já tinha operado tanto o corpo e sentido tanta dor, que entendia muito bem o que era uma vida louca) e disse, tá bom, somos loucos todos, uns pelos outros.

Meu pai parou a história, me abraçou e  disse à minha mãe, que preparava bolinhos de chuva  para chover canela neles depois: a Mé (sim, eu era a Mé, meu irmão me chamava assim, e todos copiaram) a Mé é doida por todos nós. Minha mãe chegou com um prato de bolinhos e chuva e groselha gelada. Comemos, rimos, até meu irmão acordar e vir participar também. Todos os quatros, rindo, da nossa loucura. Confortados por bolinhos de chuva com canela e groselha coloridíssima, que enchia de cor as ilustrações em preto e branco do livro, que depois eu devoraria (eu lia desde um ano e meio de idade).

Nunca mais eu pude esquecer Alice.  Ela foi minha primeira amiga de infância.

Advertisements

Comente-me!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s