Dos corpos (todos) maravilhosos

18 Dez

Adriana Dias

DS-Priscila-Menucci

Eu não sei se houve um tempo em que alguma mulher comprou um vestido para seu corpo, mas, com certeza absoluta, cada dia mais é evidente: o sistema de produção contemporâneo exige que se compre um corpo para o vestido. Ser mulher, ou tornar-se mulher, como sempre preferi  pensar, há muito significa desempenhar um papel, em múltiplas esferas, aceitando imposições e imaginários: há que se comprar o corpo desejável, o cabelo da cor certa, o make que está na última tendência, e com tudo isso, implorar aceitação social: no limite, no sistema em que vivemos, implorar que funcione, como máquina, diria Deleuze, a fim de um objetivo: DESPERTAR O DESEJO.

O corpo que se compra, deve ser saudável, feminino, forte, deve evocar no coordenador do sistema (o macho, branco, hetero) um misto de mãe e amante, numa verdadeira cornucópia simbólica, em que este corpo servirá: ao machismo, a heteronomartividade, ao racismo: é preciso alisar o cabelo, ou tornar os cachos aceitáveis. É preciso que o vestido seja de parar o trânsito, o que numa polis como a Paulicéia pode significar ainda mais dificuldade para a mobilidade urbana. Mais que isso, quando alguma diversidade é permitida, ainda é porque, perversamente, grupos minóricos alcançaram o padrão de consumo das classes A e B, ou desejam alcança-lo. Se a lésbica puder consumir, tudo bem, desde que claro, ela não faça cenas em público, nem exija beijo na novela das nove, dirão as regras (malditas) do jogo. Se a mulher negra puder consumir, tudo bem, desde que ela pague a taxa de docilidade, sedução e cumplicidade com o sistema, ressalvará a casa grande moderna, que no fundo quer apenas reformar a senzala, mas não explodir os limites do sistema colonial em que estamos todos inseridos, de fato.

Na produção do vestido, que deixa vestígios na mulher e no mundo, resíduos são produzidos. O vestido/desejo/vestígio não é sustentável, nem poderia ser, ele foi pensado e produzido para agredir: o corpo, a Terra, as almas.

Neste cenário, a mulher com deficiência, excluída ainda mais, se for pobre e negra, e que representa o grande desafio de qualquer política pública para o segmento, é a menos ouvida. Porque é a menos desejável, nessa gramática tecida pelo preconceito.

O capacitismo, a discriminação motivada pela concepção de que o corpo da Pessoa com Deficiência é menor, menos humano, menos capaz, tem na mulher com deficiência seu alvo mais frágil: ela é rejeitada por ser mulher, por ser pessoa com deficiência, e se for pobre, negra, indígena, quilombola, múltiplas rejeições serão somadas à conta de horror.

É impossível combater o capacitismo sem pensar na mulher com deficiência. Sem ouvi-la. Ela não pode comprar o corpo para o vestido do capital. Mas, ela pode ensinar o que o corpo sente, e deixar o vestido fetiche de lado, e ensinar algo a todas nós: a ser verdadeiramente mulher. A aceitar a imensa variabilidade humana não como espectro de variações entre normalidades e defeitos, mas como uma diversidade plena de significado. De sentido, de humanidade. Eu acredito no corpo. Seja ele como for, ele é muito, mas muito mais interessante que qualquer vestido.

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