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A quem interessa a desconstrução da vítima de estupro coletivo?

30 Maio

ARTIGO originalmente publicado na REVISTA FÓRUM

Leia na íntegra aqui http://www.revistaforum.com.br/2016/05/30/desconstrucao-da-vitima-do-estupro-coletivo/

A quem interessa a desconstrução da vítima de estupro coletivo?Adriana Dias:

Poucos se dão conta de quem realmente deseja muito que a culpa fique na moça. A turma do Cunha, não só pelo projeto que fragiliza a lei do aborto legal, ou o atendimento a vítimas de estupro, e sim porque fragiliza todo o debate contra a moral desses pastores. Reporto-me a um caso antigo para falar disso. Tenham paciência, que o babado é longo

Junho das mulheres

28 Maio

 Junho das Mulheres está chegando. JUNTAS.‪#‎EstuproNuncaMais‬

Por Adriana Dias

Por Adriana Dias

mais de 30
eram mais de trinta
em cima dela
uma mina
uma menina
centenas de golpes brutais
todos infernais
na carne feminina desmaiada
e então menina acordou sufocada
sufocada em sangue, em dor
com vagina e alma dilaceradas
enquanto isso os bestiais
dançaram ao som de fuzis mortais
filmaram o coma da menina
gargalharam sobre o corpo inerte, triviais
colocaram na net, irracionais
outros, compartilharam adicionais
em seguida,
negaram os policiais o abuso,
e nós mulheres assistimos tudo
como a quem vai a milhões de funerais
num só dia.
Foi um estupro coletivo
homens machistas
mais de trinta
fatais.

Eles violentaram todas nós.
Nós, nossas mães, irmãs, filhas, amigas, sobrinhas
nossas meninas.
nossas minas. Nossas gurias,
cor-de-rosa, lilás, góticas ou princesas,
femininas, feministas, todas nós.

Foi um estupro coletivo.
Eles violentaram mais de 30 milhões
Mais de trinta milhões de mulheres,
Mais de trinta milhões de vaginas,
Mais de trinta milhões de almas,
Mais de trinta milhões de minas,
de gurias, de meninas.

 

10 pontos para pensar a Lava Jato nesses dias pós-hecatombe

17 Maio

Adriana Dias lista comparações com a italiana Mãos Limpas e faz observações sobre questões ainda obscuras a respeito da operação comandada por Sergio Moro

Por Adriana Dias

  1. Em sua frequente comparação com a Mani Pulite, operação italiana dos anos 90 de combate à corrupção, um exame detalhado do agente centralizador de ambas operações é muito revelador: Antonio de Pietro estudou primeiramente na Alemanha, no início da década de 70; formou-se em engenharia eletrônica, trabalhou dois anos naquele país depois de formado, antes de retornar à Itália, quando em Milão começou os estudos na faculdade de Direito, trabalhando na área de engenharia. Esse é o homem da Mani Pulite, um homem com duas faculdades, que antes de assumir a função pública trabalhou para pagar o próprio sustento, e morou em dois países distintos. Na década de 80 entra para a Academia de Polícia e, sempre conciliando trabalho e estudo, chega a procurador adjunto de Bergamo. Giuseppe Di Pietro, seu pai, morreu no campo, esmagado pelo trator arando campos de beterraba.
  2. Do outro lado temos Sérgio Moro, o juiz da Operação Lava Jato, que se situa num lugar muito diferente do campo. Revelou-se numa reportagem que ele só andou de ônibus pela primeira vez aos dezoito anos. Viveu na Maringá cidade dos sonhos, da qual saiu para Curitiba como juiz, nunca trabalhou para se sustentar durante o período da universidade, e o curso em Harvard que consta em seu currículo dura menos de um mês. Você pode verificar em http://hls.harvard.edu/dept/academics/continuing-and-executive-education/. Seu pai, funcionário público biônico da ditadura, foi nomeado pela ARENA. Esses lugares tão diferentes mostram o quanto a concepção das operações é diversa: numa REALMENTE se desejava combater a CORRUPÇÃO; na outra, apenas UM PARTIDO POLÍTICO, O PT, o partido dos proletários, dos operários, dos trabalhadores. Lugar que Moro desconhece por nascimento.

Leia o texto integral no Portal da Revista Fórum em http://www.revistaforum.com.br/2016/05/17/dez-pontos-da-lava-jato/

O empoderamento das mulheres e o problema do deputado Flavinho

7 Maio

Não é o fato de ser religioso que o leva a fazer um discurso machista e desinformado. É como você escolhe ser religioso

Por Adriana Dias

Caro deputado Flavinho, vou escrever este artigo diretamente para o senhor, esperando que ele chegue, via web, pela maravilhosa atitude do compartir até sua pessoa. Na noite de 27 de abril, no plenário da Câmara Federal, o senhor se manifestou radicalmente contra a criação da Comissão da Defesa dos Direitos da Mulher com um discurso que chocou pelo tom machista e pouco informado. “As mulheres que estão lá fora, que não são feministas, como muitas aqui, a mulher ‘de verdade’ que está lá fora ralando para sobreviver não quer empoderamento. Ela quer ser amada. Ela quer ser cuidada.”  Como discordo de sua desinformação desinformante e de seu machismo que se fantasiou de cristão, uso o presente texto para tentar explicar alguns pontos:

Em primeiro lugar, não vou tentar lhe explicar a teoria do Estado Laico, a CEDAW, os direitos universais. Não acho que o senhor, como demonstrou aquele dia, tenha capacidade intelectual para tanto. Então, valho-me do espaço que temos em comum, a cristandade. Conheço Canção Nova há quase duas décadas, fui convidada por padre Jonas, um dos coordenadores de Canção Nova, para integrar a parte de comunicação no início do século e nunca quis. Cuidei da parte online de uma das maiores revistas católicas desse país, a Sem Fronteiras, e ajudei com dicas, Toca de Assis, a comunidade católica, a colocar seu primeiro site no ar. Tenho até hoje o CD de imagens que me trouxeram que guardo com carinho, e certa tristeza, pelo que aconteceu com Padre Roberto, o fundador da TOCA, porque sei exatamente o que aconteceu, e silencio aqui esse ponto.

Eu acuso

13 Abr

Acredito que a história contará a verdade. E os que tentam neste momento manchar a democracia com um golpe pagarão o mais alto preço: o da infame lembrança ou do esquecimento total. Estaremos do lado dos que serão lembrados por lutar pela verdade e pela justiça

Caras companheiras e companheiros, uso aqui algumas palavras que não são minhas, mas acho-as tão pertinentes que sinto-me no “dever de falar, eu não quero ser cúmplice. ” O texto de Émile Zola parece-me tão atual e adequado a esse processo montado por Eduardo Cunha, “uma figura nebulosa, a mais complicada” de toda nossa história republicana, envolvido em corrupção até o colágeno dos ossos. Não afirmo até a alma, porque essa ele vendeu há muito. Para Collor, no escândalo da Telesp no Rio. Acostumado a escapar sempre da justiça, apelando para o apoio dos fiéis da Igreja, e jurando que os brasileiros merecem respeito. Um respeito que ele nunca ofereceu.

Preciso escrever sobre o que vivemos. Se não o fizer, “minhas noites seriam assombradas pelo espectro de uma inocente que sofre, mergulhado na mais dolorosa tortura, por um crime que ela não cometeu”. E que se diga, nunca conseguiram provar. Provaram um erro. Não provaram crime.  Mas, Cunha fez, junto com a proposta dos ressentidos “a instrução como se fosse uma crônica do século XV, misteriosa, com expedientes cruéis e todo baseado exclusivamente em uma evidência infantil, esse documento imbecil, que não passa de uma traição vulgar, a patifaria mais grosseira, pois os maiores segredos transmitidos se revelaram todos sem nenhum valor. Eu insisto porque é aqui que está a semente de onde surgirá o verdadeiro crime, a espantosa recusa de justiça que torna” o Brasil “um lugar doente”.

Uma nação com alma de torcida

23 Mar

ARTIGO originalmente publicado na REVISTA FÓRUM

Leia na íntegra aqui http://www.revistaforum.com.br/2016/03/23/uma-nacao-com-alma-de-torcida/

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É preciso que a grande imprensa pare de jogar pólvora e pavios curtíssimos no meio da arquibancada. Embora a narrativa seja de capítulo de novela e os jornalistas da mídia tradicional pareçam narrar o último jogo do campeonato, não é isso que está acontecendo

Por Adriana Dias

Manifestação em Brasília contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil. 

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Diz o velho ditado que política e futebol não se discute. Qualquer observador da imensa carga de ódio que toma conta das avenidas, digitais ou não, do Brasil, percebe a imensa semelhança existente no debate das duas questões. Verdadeiros grupos radicais, simulacros de torcida organizada fanática são mobilizados numa gritaria sem fim, em que todo mundo grita e quase ninguém ouve ninguém. Não é toa que manifestantes vestem camisas de futebol: há um embodiment (uma verdadeira materialização no corpo) do habitus futebolesco mais perigoso: uma torcida furiosa, disposta a quebrar com qualquer regra de civilidade e com tudo a sua volta se presenciar a derrota de seus ídolos.

Com isto fica difícil não lembrarmos a máxima tostines: somos o país de futebol porque temos alma de torcida, ou temos alma de torcida porque nos construímos o país do futebol? Há aspectos criativos e desafios nessa jornada.

Seja qual for a resposta é preciso que a grande imprensa pare de jogar pólvora e pavios curtíssimos no meio da arquibancada. Repito: embora a narrativa seja de capítulo de novela e os jornalistas da grande mídia pareçam narrar o último jogo do campeonato, não é isso que está acontecendo. Há verdadeira ameaça à democracia, e portanto, é preciso serenidade para conduzir o momento.