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As mães sem nome e o machismo disso

14 Fev

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Que eu saiba, na maioria das línguas contemporâneas incluindo o português, não há uma palavra para as mães e pais que perderam um filho. Por outro lado, há palavras para viúvas e órfãos. As viúvas, do latim vidua, deve ter tido origem no sânscrito vidhávā, vazio. A orfandade, fala da morte ou do abandono dos pais e parece vir, segundo a maior parte dos etimologistas do grego ὀρφανός, do qual herda um sentido de destituição. Tais palavras, portanto trazem uma forte presença do patriarcado: da força do macho que ao se perder faz do outro perdido: a mulher fica vazia, o filho, destituído. A força do machismo é tão forte que a mãe que perde um filho não tem nome. E nem precisa ter, segundo a lógica dos homens que deram os nomes das coisas.

Se as mulheres dessem nomes as coisas, a mulher que perde o parceiro com certeza não seria vazia, nem o filho que perde os pais seria destituído. As mulheres respeitam as forças humanas e sua imensa capacidade de se reinventar. Mas, o fato é que durante muito tempo quem criou os nomes foram aqueles que deixaram as mulheres que perdem os filhos sem nome. Talvez porque os pais que percam os filhos tenham mais dificuldade de elaborar e expressar sua dor, enquanto exigem das mulheres que elas sejam a mãe de plantão por toda a eternidade amém. E se a mulher nasceu para ser mãe na sociedade machista, a mãe que perde o filho parece ter falhado. E ela é punida da forma mais cruel: sequer pode ter um nome.

Acompanho mães que perderam filhos com doenças raras há muitos anos, e nas suas trajetórias sei o quanto o luto é extenso, pois são anos cuidando de alguém que ao partir leva quase tudo da mãe. E ela, perde a si. Ela é uma mãe de UTI, uma mãe com uma pasta de exames que só cresce, que só tem mais e mais sono e olheiras mais profundas. Uma mãe que sabe o que é perder noite numa escala imensurável. E ao perder o filho ela perde tudo. E não ganha sequer um nome. Ela sequer tem um nome para afirmar o que ela é para explicar a outra pessoa o que ela vive. Ela tem que explicar pela perda do filho. E sofrer de novo. Há uma palavra no sânscrito, “vilomah” que significa algo que acontece “contra uma ordem natural” e coloca o mundo em caos. Não gosto muito da ideia de que o mundo tem uma ordem natural, e por isso não gosto quando tentam dizer que vilomah, e tentaram, seria uma boa ideia para mães sem nome. Parece muito próximo de vilão, e eu não recebo bem.

Acho que as mães sem nome precisam se dar um nome, juntas. Mas, um nome que não tire delas mais do que já foi tirado. É preciso achar um nome que seja uma reinvenção da vida. Que traga plenitude. Que como canta Fátima Guedes, que anuncie, como uma flor de ir embora, que agora o mundo é nosso.

Flor de ir embora

É uma flor que se alimenta do que a gente chora

Rompe a terra decidida

Flor do meu desejo de correr o mundo afora

Flor de sentimento

Amadurecendo aos poucos a minha partida

Quando a flor abrir inteira

Muda a minha vida

Esperei o tempo certo

E lá vou eu

E lá vou eu

Flor de ir embora, eu vou

Agora esse mundo é meu

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Precisamos falar de Aleppo

16 Dez

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Esperaremos não restar civis em Aleppo, esperaremos mais e mais semanas de intenso bombardeio, esperaremos milhares de crianças mortas e refugiadas sem esperança ou futuro, para falar de Aleppo?

As Nações Unidas denominam neste momento Aleppo de “colapso completo da humanidade.” O que esperamos para falar de nossa indignação?

Quantas esperaremos morrer, tornarem-se com deficiência pela guerra, se suicidarem, para entender que precisamos falar de Aleppo?

Desde 2011, quando o presidente Bashar al-Assad se ensurdeceu para as demandas dos manifestantes pacíficos e iniciou uma imensa guerra (absurda, sob qualquer ponto de vista) contra o seu povo. Há mais de 400.000 sírios mortos e muitos milhões em fuga esperando refúgio na Europa, e no restante do mundo.

Obama e a Rússia de Putin trabalharam para remover a maior parte das armas químicas de Assad da Síria. Mas, nenhum acordo sobre paz surgiu. Nenhum controle do Estado Islâmico, que poderia ter surgido de uma aliança mútua. Estupro, morte e violência imperam na Síria em guerra. E nós, os “civilizados”, assistimos da janela.

O governo golpista de Temer fechou o Brasil aos refugiados. Estamos falando de milhões de pessoas, que precisam se deslocar ou escolher morrer. São pessoas, seres humanos. Cerca de 5 milhões de sírios deixaram a Síria, e pelo menos 3.370 refugiados – de maioria sírias – morreram afogados em 2015 ao tentar chegar à Europa pelo Mediterrâneo. Os dados são da Organização Internacional para a Migração.

Sim, é verdade que a violência no Brasil mata, e os números são assustadores. Mas, isso não nos redime do nosso silêncio acovardado e conivente com Aleppo. Precisamos chorar por Aleppo, precisamos falar de Aleppo, precisamos exigir que o Brasil receba refugiados da região e pare de agir como sua única relação internacional importante para este governo temeroso seja a que garanta a venda de todas nossas estatais. Não, não devemos vender nosso patrimônio, e sim, devemos receber refugiados.

A emergência existe. Não nos calemos: nem sobre o golpe, nem sobre Aleppo. Que a dor do povo humano nos doa sempre, seja a do refugiado sírio, seja a do negro de nossas periferias, seja a do trabalhador sem direitos e do canponês sem terra.

Precisamos falar de Aleppo para nos humanizar. Quem sabe, mais humanos, nossa luta encontrará a saída desconhecida que tanto tentamos alcançar.

Gritando por ela

16 Dez

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Ela entrou no ônibus. Seu perfume entrou antes. Um misto de jasmim e rosa branca, delicioso. Suave, como uma manhã de abril. Mas, era setembro. Seu cabelo estava ruivo. Antes, loiro, castanho, com luzes rosas. Gostava de variar. Vaidosa, adoraria pintar de roxo e entrar numa banda de rock, mas tinha que pagar a faculdade. Ela se controlava. Arrumou o cabelo, acertou a tiara.
Estava de bermuda jeans e de bata branca, bordada, presente de sua mãe. A bata. Sempre vestia algo para trazer sua mãe a memória. Havia apenas três meses que ela falecera. O luto apertava seu coração de uma forma intensa, ela queria gritar, no entanto não podia, num transporte público. Ela se controlava. Arrumara a bata, acertou o colar, com um pendente de coração, para o centro do decote.

Ela se sentara na segunda cadeira depois da porta, no corredor. Colocara a bengala tátil dobrada, fechada, no colo. Eu não disse antes? Ela é cega. Linda, inteligente, mulher e cega. A cegueira surgiu como consequência de uma doença crônica. Mas, não impediu de trabalhar, estudar, de seguir em frente. Arranjou muita força dentro de si, e foi à luta. Por vezes, em situações de preconceito, o desespero bate. Mas, ela se controlava. E reagia explicando, ensinando.

Mas, ela não estava preparada para aquilo. Para aquela mão que tocou seu braço, sem avisar, sem pedir licença. Ela pensou ser um conhecido, tentando iniciar contato. Perguntou quem era. Ninguém respondeu. No coletivo cheio, a mão procurou sua coxa, ela continuava a perguntar quem era, o silêncio passou a se tornar abusivo, assustador, ela empurrava a mão, a mão voltava, ninguém ajudava. A mão tocou seu seio, ela tocou o sinal para descer do ônibus, teve medo do desconhecido estar por perto, entrou na primeira loja que encontrou. Pediu para saber em que lugar estava. Perdeu o chão, a tiara, o cabelo arrumado, ela não mais se controlava. Uma mulher veio saber o que acontecera. Ela não teve coragem de contar, disse apenas que se perdera. Bebeu água. Esperou. Pegou um táxi.

Chegando em casa, chorou muito. Lembrou da mãe, pediu proteção. Como denunciar o que não viu, o que não sabe. Como se proteger de algo assim? Como lutar se ninguém ajuda? Teve mais medo ainda. Levou duas semanas para sair de casa de novo. Perdeu o trabalho. Quase teve que largar a faculdade. Por causa de uma mão. Da mão de um monstro. E do silêncio dos outros.

Levou quase um ano para contar para alguém. Quase dois para falar comigo.

Não pactue com isso. No lugar dela, poderiam ser milhões de elas.
Mulheres cegas e com deficiência física são duas vezes mais abusadas que mulheres sem deficiência. Mulheres surdas cinco vezes mais. Mulheres com deficiência intelectual nove vezes mais. Se elas gritarem, ajude. Se elas não puderem gritar, gritemos por elas.

* A história é verídica. Omiti o nome da minha amiga cega.

 

publicado originalmente em Think Olga.

Temer avança sobre o direito das pessoas com deficiência

28 Out

Temer avança sobre o direito das pessoas com deficiência

O governo Temer, ao publicar o Decreto Nº 8.805 de 07 de julho de 2016, não discutiu e pactuou o decreto na Comissão Intergestores Tripartite (CIT). DIsso faz do decreto um ato antidemocrático e antirepublicano, que desconsiderou as instâncias de pactuação e deliberação que compõem o Sistema Único de Assistência Social – SUAS. Por isso o CONGEMAS repudiou o decreto citado

Por Adriana Dias*

Minimanual do Jornalismo Humanizado

16 Set

Direto do Thin Olga: estamos muito felizes em anunciar hoje o tão esperado lançamento da Parte 2 do nosso Minimanual do Jornalismo Humanizado. Dessa vez, reunimos dicas e exemplos práticos para jornalistas que vão escrever sobre pessoas com deficiência. Ainda em tempos de paralimpíadas, essas informações valem ouro!

Você sabia que mais de um bilhão de pessoas no mundo possuem algum tipo de deficiência? Os dados são de 2011 (http://bit.ly/2cgJY1W) e já refletem a importância de um entendimento mais profundo sobre essa significativa parte da população.

Nosso objetivo é fornecer ferramentas que ajudem de forma prática aos profissionais dos meios de comunicação a se livrarem de abordagens e termos preconceituosos que somente contribuem com as limitações enfrentadas por grupos minorizados na sociedade. Segundamente, queremos educar o público em geral a identificar e apontar os erros cometidos pela mídia.

Para cumprir essa missão, convidamos a antropóloga Adriana Dias para desenvolver o conteúdo desta segunda parte do minimanual. Adriana é coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG Essas Mulheres (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência).

É pra ler, aprender e compartilhar com todo mundo! 🙂

http://thinkolga.com/minimanual-do-jornalismo-humanizado/pt-2-pessoas-com-deficiencia/

Além do ableism. Com #hashtag e sem medo, precisamos falar de Sagamihara.

5 Ago

Em26 de julho último, no Japão, um jovem de 26 anos de idade, Satoshi Uematsu, esfaqueou 19 pessoas à morte, e feriu outras 26 na pacata cidade de Sagamihara. Uma cidade de pouco menos que 700 mil habitantes. O ataque foi às pessoas com deficiência em uma casa de cuidados residenciais. Uematsu havia trabalhado ali anteriormente. Após o perverso abate, o Uematsu twittou: “Espero a paz mundial Beautiful Japan !!!!!!”.

Ele, então, entregou-se à polícia. O jornal The Guardian relatou que ele disse à polícia a seguir: “É melhor que as pessoas com deficiência desapareçam.”

O massacre se deu no 26º aniversário do Americans with Disabilities Act, que iniciou o grande debate de direitos para essas pessoas no mundo, levando a Convenção da ONU de Direitos das Pessoas com Deficiência.

O dia foi escolhido, obviamente. Ele trabalhou lá, como dito, conhecia o movimento das pessoas com deficiência.

Conhecia os funcionários, os residentes, seus familiares.

Acreditava ser capaz de matar 470 pessoas, em duas instituições, antes de se entregar. Ele disse que faria isso pela felicidade do mundo, sem prejudicar a equipe. Disse isso, por escrito, a parlamentares, antes. Fez por ódio. Apenas por ódio. Muito além do ableism[1] , um crime de ódio que deixa a todos os seres humanos, verdadeiramente humanos estarrecidos.

texto integral no MEDIUM. https://medium.com/@dias_adriana/al%C3%A9m-do-ableism-com-hashtag-e-sem-medo-precisamos-falar-de-sagamihara-410b0e0bfbc9#.n870ojdc3Meu medium se dedicará exclusivamente aos Desability Studies. Abraços. 

Reflexão _ Mauro Lopes

1 Jan

Para superar o capitalismo, sistema de morte (I)

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Novos ensaios em “Outras Palavras”: informado pela Teologia da Libertação e pensamento do papa Francisco, colunista escreve sobre grandes impasses contemporâneos. No primeiro texto, o papel dos bancos e da aristocracia financeira

Por Mauro Lopes | Imagem: Emil Nolde, Máscaras (1911)

Escrevo hoje e nos próximos dias uma breve série de meditações sobre o capitalismo a partir do ensinamento da Igreja e do Papa Francisco, que no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, qualificou o sistema de “ditadura sutil”. Para o Papa, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” Antes, em abril, um dos líderes da reforma da Igreja, o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas mundial e coordenador do grupo encarregado da reforma da Cúria romana, havia afirmado que o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Não são ensaios nem artigos, apenas breves meditações que buscam colocar-se a serviço da Igreja, que busca retomar o caminho original dos ensinamentos de Jesus.

I – Os bancos

Minha nova atividade profissional fez-me frequentar um ambiente no qual não pisava há quase vinte anos: as filas de agências bancárias. O que tenho testemunhado é um verdadeiro massacre. Toda vez que alguém chega para fazer um pagamento ou retirar dinheiro ou qualquer outra operação nos caixas dos grandes bancos e seu cartão é inserido nas maquininhas, abre-se uma tela para o funcionário do banco com as informações necessárias para espoliar a pessoa. Os velhos e velhas aposentados são as vítimas preferenciais. Os bancos tentam arrancar seu dinheiro sem dó nem piedade, aproveitando-se do fato de estes aposentados terem uma renda mensal garantida. Nos caixas, jovens bem falantes, articulados e obrigados à “venda”, sob o risco de não “atingirem as metas” e, no limite, serem demitidos por isso. É um sistema infernal. Outro dia minha mulher testemunhou um velhinho quase aceitando um crédito de 40 mil reais diante da insistência do caixa: “O senhor não está precisando trocar de carro? Tem aqui 40 mil, podemos fazer já. O senhor usa e paga um pouquinho por mês”. Ela quase se meteu para impedir o assalto, mas a ultima hora o senhor recusou.

Outro dia vi uma cena semelhante, com uma senhora que visivelmente não estava entendendo a oferta criminosa da caixa do banco. Ao ver que eu estava ao lado olhando, a funcionária do banco recuou e desconversou. Imagine quantas milhares de vezes ao dia a cena se repete. E quantas vezes o assalto é bem sucedido. Agora, os bancos inventaram um jeito de poderem praticar o crime de maneira mais discreta, reduzindo o risco da indignação pública nas filas. Meteram umas divisórias de vidro que impedem aqueles que estão na fila vejam ou escutem o que acontece na boca dos caixas. A desculpa chega a ser ridícula. Dizem os gerentes de duas agências em que perguntei a razão da medida que é “para segurança dos clientes” – teoricamente para evitar assaltos à saída das agências. Conversa fiada. É para facilitar o assalto que acontece dentro das agências, para garantir privacidade à ação criminosa dos caixas. Não, em sua imensa maioria eles não são criminosos, são igualmente vítimas da engrenagem. Em minha família há duas pessoas que são funcionários de grandes bancos e estão gravemente adoentadas emocionalmente por isso.

É claro que os lucros dos grandes bancos não são feitos exclusivamente sobre o roubo aos velhos aposentados. Mas eles funcionam como os assaltantes de farol: evitam os mais fortes, preferem os mais frágeis — é mais fácil e seguro.

As fontes de lucros dos bancos são diversas e todas elas assentadas sobre práticas comparáveis aos saques feitos nas guerras.


1. Juros dos crediário
s: há uma “pegadinha” malandra dos bancos, que é a de apresentar as taxas apenas referentes ao período mensal e esconder o número anualizado. Facilita engambelar as vítimas. Com base em números oficiais da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) – dados de junho 2014 –, Dowbor informa que os juros praticados no mercado para a compra de uma TV eram de 6,87% ao mês, um juro real ao ano de 122% – “literalmente, um assalto”, escreveu o professor.Há um artigo memorável e atualíssimo do professor Ladislau Dowbor publicado no site Outras Palavras em outubro de 2014, “Bancos: o peso morto da economia brasileira”. Leia, é de fato imperdível. Nele, Dowbor detalha as fontes dos lucros do sistema financeiro no Brasil. Os números são referentes a 2014, mas são ainda mais escorchantes em 2015.

2. Juros para pessoa física: “Tomando os dados de junho 2014, constatamos que os intermediários financeiros cobram juros de 238,67% no cartão de crédito, 159,76% no cheque especial, 234,58% na compra de automóveis. Os empréstimos pessoais custam na média 50,23% nos bancos e 134,22% nas financeiras. Estamos deixando aqui de lado a agiotagem de rua, que ultrapassa os 300%.” Dowbor não escreveu, mas a agiotagem de rua é, em boa medida, controlada pelos grandes bancos. Mas esclareceu que os números para o cartão de crédito – juros de 238%, segundo a Anefac – eram estimados em 280%pela Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs)! Achou pouco? Em setembro de2015 o Banco Central informou que os juros do cartão de crédito haviam ultrapassado 400% ao ano – muito mais que a “agiotagem de rua” de 2014.

3. Juros para empresas: Escreveu Dowbor que “as taxas de juros para pessoa jurídica não ficam atrás. O estudo da Anefac apresenta uma taxa praticada média de 50,06% ao ano, sendo 24,16% para capital de giro, 34,80% para desconto de duplicatas, e 100,76% para conta garantida. Ninguém em sã consciência consegue desenvolver atividades produtivas, criar uma empresa, enfrentar o tempo de entrada no mercado e de equilíbrio de contas, pagando este tipo de juros. Aqui, é o investimento privado que é diretamente atingido.”

4. Juros sobre a dívida pública: Os bancos são os maiores detentores de títulos da divida pública. Ganham uma fortuna. Mais uma vez, o texto do professor Ladislau: “Quando gastamos 5% do PIB para pagar os juros da dívida pública, significa que estamos transferindo, essencialmente para os bancos donos da dívida e um pequeno grupo de afortunados, cerca de 250 bilhões de reais ao ano, que deveriam financiar investimentos públicos, políticas sociais e semelhantes. Para os bancos, é muito cômodo, pois em vez de terem de identificar bons empresários e fomentar investimentos, tendo de avaliar os projetos – enfim, fazer a lição de casa – aplicam em títulos públicos, com rentabilidade elevada, liquidez total, segurança absoluta. É dinheiro em caixa, por assim dizer, e rendendo muito.”

“Nesse caso, além do efeito macroeconômico, há outro: a chantagem política e a ameaça constante contra o governo. Este é um processo não apenas brasileiro, mas global, como bem tem anotado o Papa. Outro professor, François Morin, da Universidade de Toulouse e membro do conselho do Banco Central francês, lanço em maio o livro “L’Hydre Mondial [A Hidra mundial], sobre os 28 bancos que dominam a economia mundial. Numa entrevista em setembro de 2015, também publicada noOutras Palavras, ele adverte sobre a situação-limite das dívidas públicas e de como os Estados estão nas mãos dos bancos: ”Todas as condições estão maduras para um novo terremoto financeiro ocorrer, quando os Estados estão exangues. Ele será ainda mais grave do que o precedente. Ninguém pode desejá-lo, porque seus efeitos econômicos e financeiros serão desastrosos e suas consequências políticas e sociais podem ser dramáticas. Podemos vê-los na Grécia. Urgência democrática e lucidez política tornaram-se indispensáveis e urgentes”.

2015 foi um ano duro, a crise foi forte no Brasil não foi? Pessoas perderam empregos, empresas fecharam ou tiveram prejuízos, o setor público entrou em crise em todas as esferas, nacional, estadual e municipal. Mas para os bancos o céu continuou de brigadeiro.

Parece inacreditável, mas é verdadeiro. A cada trimestre, este ano, assistimos – alguns abismados — os bancos continuarem a bater recordes em seus lucros. Recordes sobre 2015, 2014, 2013, 2012. Recordes sobre anos difíceis para a economia e anos de crescimento acelerado. Para os bancos, só boas notícias.

O ano nem acabou mas os números são maravilhosos – para os banqueiros, é claro. Até agora, sabemos o que os bancos lucraram até o fim de setembro. Não trema. Fiquemos apenas no “trio de ferro”, os três grandes bancos de rede do país.

O Itaú lucrou até setembro R$ 17,6 bilhões; o Bradesco, R$ 12,7 bilhões; o Santander, R$ 6,6 bilhões. Não trema. Até setembro de 2015 os três bancos arrancaram de aposentados, de pessoas e empresas que precisaram de créditos, de incautos (nós todos) que pagamos tarifas e do Estado dinheiro suficiente para terem um lucro de $ 36,9 bilhões. Não é que eles arrancaram isso da sociedade. Não. Eles arrancaram muito mais. Isso é apenas o lucro. Mantido o desempenho dos trimestres anteriores, Itaú, Bradesco e Santander terão um lucro de ao redor de R$ 50 bilhões em 2015!

Apenas três instituições financeiras terão drenado da sociedade para seus cofres, em ações que numa sociedade marcada pelo respeito ao próximo seriam criminalizadas, R$ 50 bilhões em um ano! Para os mortais comuns, um número como este é tão estapafúrdio que perdemos o senso de grandeza. São números macroeconômicos. A direita brasileira quer o golpe contra Dilma por causa das tais “pedaladas fiscais”. Segundo os números do Tribunal de Contas da União (TCU) e outros disponíveis na imprensa, elas estariam entre R$ 40 bilhões e R$ 57 bilhões. Os roubos mensurados na Petrobrás até agora alcançam R$ 19 bilhões. Mas veja que os números referentes às tais pedaladas e à corrupção na Petrobrás são a soma total de anos a fio: no caso dos bancos, é o butim de apenas um ano!

Mas não há uma linha sobre este assalto ao povo brasileiro nos jornais, revistas, TVs. A velha mídia cala. Há uma operação complexa e torpe na sociedade. Alguns dos elementos desta operação de legitimação do assalto ao país são:

1. A velha mídia tem parte expressiva de suas receitas oriunda das verbas publicitárias dos grandes bancos. Só em 2015, o Itaú entregou R$ 225 milhões para o patrocínio do futebol na Globo! Lembre o que o lucro do ano do Itaú não embute este valor. O banco terá lucrado algo como R$ 24 bilhões já descontada a grana para o futebol da Globo (só para o futebol, sem contar o resto). O quadro repete-se em relação aos outros dois bancos do “trio de ferro” e em relação a todos os veículos da velha mídia, em suas diversas expressões. Dá pra imaginar a Globo ou a Folha ou a Veja dando manchetes ou entrando em campanha contra os lucros obscenos dos bancos?

2. Os chamados “jornalistas econômicos” buscam suas informações sobre os bancos… nos próprios bancos ou nas entidades patrocinadas por eles!

3. Os bancos agem mais ou menos como os traficantes nas favelas. Tentam comprar a opinião da sociedade com obras de alto valor percebido pelas comunidades ou sociedade. Os traficantes de drogas bancam campinhos de futebol, piscinas, transportes para as comunidades. Assim, o Itaú tornou-se algo como um mecenas da pós-modernidade. Itaú Cultural, MAM e tantos outros investimentos culturais. Você acha que é o Itaú que paga. Mas é você! É do dinheiro arrancado dos aposentados, do governo, das pessoas e empresas endividadas que eles “fazem bonito”. Mais uma vez: o lucro dos bancos exclui o que investem nestas ações.

Esta ação perversa dos bancos, pois travestem de bondade e consciência o que é cortina de fumaça para legitimar os lucros arrancados com o suor do país todo, estende-se evidentemente ao cenário político. Os bancos, direta ou indiretamente, financiam partidos e candidatos e, se o vento sopra pra esquerda, lá vão eles para a esquerda; se sopram para a direita, lá vão eles. Acabamos de ter um ministro da Fazenda que era funcionário do Bradesco até chegar ao cargo – o que foi revelador dos descaminhos do segundo governo Dilma logo ao seu início! Dá pra imaginar o ex-funcionário de um dos três bancos do “trio de ferro” defendendo o país da ação nefasta das instituições financeiras?

Como diz o Papa, a ditadura do capitalismo é “sutil”. Os grandes bancos são um dos principais protagonistas da construção deste sistema ditatorial. É sutil, mas, como acrescentou o Papa, é crescentemente insuportável: “não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…”.

Encerro esta primeira meditação com o fim da entrevista de François Morin: “A hidra bancária nasceu há cerca de dez anos, e já tomou conta de todo o planeta. O confronto de poderes, entre bancos avassaladores e poderes políticos enfraquecidos, parece agora inevitável. Um resultado positivo desta luta – a priori desigual – só pode ocorrer por meio mobilização de cidadãos que estejam plenamente conscientes do que está em jogo.”