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Ela nasceu há exatos 92 anos.

4 Fev

Ela nasceu em 4 de fevereiro de 1913. No dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks se negou a ceder a um branco o seu assento num ônibus. O ato foi um marco no movimento antirracista nos Estados Unidos.

 

O que você faria se não tivesse medo?

Rosa Parks foi presa por recusar-se a ceder seu lugar no ônibus, na cidade de Montgomery, capital do Alabama, se recusou a sair das cadeira em que estava, reservada para passageiros brancos. Continuou sentada e, por isso, foi detida e levada para a prisão. O protesto silencioso de Rosa Parks propagou-se rapidamente. Varreram o país atos em apoio a ela, e contra a discriminação racial no país. Martin Luther King Jr. foi um dos que apoiaram a ação. O ativista e músico Harry Belafonte revelou que  King o chamou por telefone para que apoiasse à dessa grande mulher,  que ficou conhecida como a “mãe dos movimentos pelos direitos civis” nos EUA.“Ao dizer ‘não’, completamente desarmada, eu ficava em paz comigo mesma. Não tentava ser uma cidadã-modelo: eu, a quem a lei excluía do direito ao voto, assim como da liberdade de beber água em qualquer bebedouro, de me sentar num lugar mesmo que ele estivesse livre, de usar banheiros públicos, ou seja, de pertencer a um país cujos valores eu não compartilhava. Ao contrário dos humanos, os animais bebiam na mesma fonte, qualquer que fosse a cor de seu pelo”, escreveu Rosa Parks.

“A atitude de Rosa Parks nos permitiu reagir contra as pressões política e social que caracterizavam nossa sociedade. Quando King me telefonou, me chamando para um encontro, comecei, pela primeira vez, a lutar oficialmente por essa causa. Quando nós nos vimos e falamos sobre seus planos, percebi que a partir dali eu me engajaria no movimento liderado por ele e Rosa Parks. Foi um momento muito importante”, relatou  Belafonte.

 

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José Régio – POEMAS

3 Fev

Cântico negro

MaeAfricana

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

Política & Ideologia

20 Maio

Segundo a grande pensadora da política Hannah Arendt[1], a política se baseia na pluralidade da humanidade. E portanto, deve  tratar da convivência entre diferentes.  Se todos fossem iguais, o  mundo não seria apenas chato, monótono e um convite ao suicídio pelo falta de convite ao desafio, pela falta da divergência,  mas também seria apolítico, porque a política surge exatamente para negociar a convivência humana, estabelecer o contrato social, assegurar os direitos, os valores, as garantias dos diferentes agentes.

Arendt continua afirmando belissimamente: Exatamente  na garantia e concessão voluntária de uma reivindicação juridicamente equânime reconhece-se que a pluralidade dos homens, os quais devem a si mesmos sua pluralidade, atribui sua existência à criação do homem.

Ou seja: somos humanos, e cada vez mais humanos, exatamente na medida em que somos capazes de conviver com os mais diferentes de nós, quando garantimos por meio de uma concessão voluntária o direito ao outro de participar da vida pública, tanto quanto aceitamos o nosso direito de reivindicarmos este direito a esta participação.

O propósito essencial da política, portanto é criar, na visão de Arendt, um espaço humano, diverso, de discernimento, para a concessão ao outro e a reivindicação de si.

Discernimento é uma palavra fundamental aqui.  A construção da alteridade, da compreensão do outro, ( do francês Autre) só é possível com discernimento da relação entre eu e outro, da suas garantias, das minhas reivindicações. Política é um espaço, absolutamente relacional.

Outro aspecto fundamental da política está na na confiança, que Arendt abordou neste texto e também em Política e Verdade. Neste primeiro texto, ela fala:

A liberdade de externar opinião, {…} distingue-se da  liberdade característica do agir, do fazer um novo começo, porque numa medida muitíssimo maior não pode prescindir da presença de outros e do ser-confrontado com suas opiniões. É verdade que o agir também jamais pode realizar-se em isolamento, porquanto aquele que começa alguma coisa só pode levá-la a cabo se ganhar outros que o ajudem. Nesse sentido, todo agir é um agir in concert, como Burke costumava dizer: “é impossível agir sem amigos e companheiros dignos de confiança” (Platão, 7- Epístola 325d14){…}

Ou explicando, não se faz política sem confrontação, e muito menos no isolamento do Himalaia. No Himalaia se medita. Política se faz no debate. No mundo, com as pessoas, para as pessoas, entre as pessoas.

Também não se faz política sozinho.  Se faz política in concert, ao lado de quem se confia. Política depende de alianças. Esses vínculos devem ser profundos, verdadeiros, basear-se em valores, adivinhem? Políticos! Valores que busquem a garantia da diversidade humana. Que sejam motivados por política, pelos valores que garantam a perpetuação do in concert, da luta de todos por todos.

O contrário de tudo isso é ideologia.  Ideologia é a morte da política. A ideologia deseja  o fim da diversidade, a eliminação da convivência, a vitória da dominação, o poder, o império. A política debate, o império invade. A ideologia se dá não entre companheiros, mas entre ladrões. Entre mercenários, a ideologia move interesses e conluios, degradante, calunia, decompões e tenta destruir a política. A ideologia criou o fascismo, o nazismo, a bomba de Hiroshima. A ideologia é racista, machista, capacitista, alienante, odeia o diferente. A política quer acabar com a pobreza, a ideologia quer eliminar o pobre. A ideologia criminaliza a luta dos movimentos sociais, e tudo odeia, a não ser o lucro ganho com trabalho escravo do imigrante.

Política é cheiro de mato e crianças brincando, ideologia é cheiro de mofo e lixão com crianças catando comida para não morrer de fome.

Política é esperança, é céu azul, é pátria mãe gentil. Ideologia é medo, é céu poluído e filho com pais mortos e exilados pela ditadura. Política é saúde para todos, ideologia é plano de saúde para alguns e morte para o resto. Política é a primavera tendo filhos e flores, numa tarde de sol.  Ideologia é aborto com a morte da mãe e as flores do túmulo apodrecidas. Política é fé no amanhã. E no depois de amanhã, e no dia do aniversário do ano que vem. Ideologia é medo da morte. E de todos os dias que vem antes dela.

Política é luta. Ideologia é silenciar a luta.

Acredito que a ideologia está com os dias contados. E que o povo profundo, da luta,  vai pra luta defende a política, com fé, com diálogo, com discernimento e confrontação. Não vai ser fácil. A ideologia tem mídia, tv, jornal. Ela gosta de aparecer. Mas, a turma da política tem a Aparecida. Ela é da política. Como eu sei? Uma hora aparece índia, outra negra, sempre diversa. Em cada canto, do jeito do seu povo, disposta a dialogar. Santa Mãe, rezai por nós.

[1] O que é Política? Agosto de 1950

 

Os cartazes de Itajaí

23 Abr

O fato:   aparecimento de cartazes que homenageiam o aniversário de Adolf Hitler (20 de abril) em um poste no Centro de Itajaí, ao lado da praça da Igreja Matriz.

Um grande amigo, o Douglas, da Carta Capital, com quem tenho o prazer de dividir a amizade e o ativismo em Direitos humanos, há tempos,  citou minha pesquisa e uma entrevista acerca do tema, sobre a questão. Agradeço.

Com ele e com a Carta Capital, e com outros veículos de imprensa, muito selecionadamente ainda falo acerca do tema de minha pesquisa. Com outros não.

Primeiro, porque, na imensa demanda por excitação que parece tomar conta da economia dos bens de informação, a imprensa desse país parece-me de enlouquecida a completamente delirante, por vezes. E tenho visto coisas absurdas  sobre o tema: gente questionando o número de neonazistas, pelo número de líderes nazis presos.

Seria como questionar o número de usuários de drogas pelo número de traficantes em regime de detenção. Obviamente, os que baixam, estudam e se identificam com literatura neonazista, são muito mas numerosos, infelizmente, do que aqueles que podemos julgar pelo crime de neonazismo tipificado claramente pela lei denominada de Lei do Crime Racial (Lei 7716/89, de 5 de janeiro de 1989).

O neonazismo é algo muito complexo. No Brasil, ele tem um tom separatista no sul, caça gays em São Paulo, faz apologia ao estupro corretivo de lésbicas e persegue os nordestinos.  Odeia, como em todo mundo, imigrantes, negros, judeus. Acredita que a História da segunda Guerra precisa ser recontada, e Hitler ser reconfigurado como um herói.

Uma vez, andando na paulista reclamei com um guarda de um grupo que trazia uma imensa faixa de Brasil nazista. Com a suástica imensa da faixa, que devia ter uns 5 metros, o grupo não deixava muita dúvida, quatro carecas tatuados com 14 e 88, os números chaves/símbolos (o primeiro se refere a um slogam criado por David lane, acerca da preservação racial, as 14 palavras, e o segundo refere-se a oitava letra do alfabeto, o H, e simboliza o Heil Hitler), e outros rapazes e moças.

Os guardas disseram que não viam apologia ao nazismo. Fiquei esperando que eles começassem a cantar o hino de WEIMAR… Se aquilo não era apologia o que seria? O hino?

Os cartazes de Itajaí falam de que Hitler ainda é comemorado, por células  espalhadas no mundo, no Brasil. Células neonazistas, que sonham com a pátria branca. O que desejo não é dar entrevistas sobre isso, mas é falar, um dia sobre sua extinção e comemorar, enfim a diversidade humana, por todos aceita, com todos.  Paz na terra.

Lei do Crime Racial (Lei 7716/89, de 5 de janeiro de 1989). 

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

Pena: reclusão de um a três anos e multa.(Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.(Incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

§ 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

– o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo;(Incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

II – a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da publicação por qualquer meio; (Redação dada pela Lei nº 12.735, de 2012)

III – a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de computadores. (Incluído pela Lei nº 12.288, de 2010)

§ 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, após o trânsito em julgado da decisão, a destruição do material apreendido. (Incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

 

Da loucura do racismo 4.0

28 Ago

Hoje eu fiquei pasma. Usaram Castro Alves num perfil racista.  Eu cresci lendo Castro Alves. Minha mãe recitava

Auriverde pendão da minha terra,

 Que a brisa do Brasil beija e balança, 

Antes te houvessem roto na batalha, 

Que servires ao um povo de mortalha.”

E um perfil, localizado em https://www.facebook.com/oliveiralince, que tem como capa exatamente uma imagem do poeta máximo do condoreirismo, que representou  a escravidão como um problema social, e lutou pela justiça social de toda a América. Realmente, ele deve estar revirando no túmulo com a paulistinha incentivando o homicídio.

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Racismo de jaleco

27 Ago

O Brasil, esse país que nos delírios de Ali Kamel não necessita de cotas porque não abriga racistas, se comparado ao país das maravilhas perderia feio: o mundo de Lewis Carrol parece um mundo muito mais verossímil perto do que tenho lido na imprensa desde a esperada chegada dos médicos cubanos. Esperada pelas pessoas de bem, pelos municípios que precisam de médicos há anos, pelos patriotas  que anseiam por justiça social  e pelos milhões de  brasileiros que não tem acesso à saúde nas áreas mais  distantes do país. O Brasil não é para iniciantes, com certeza. É para corajosos, como Alexandre Padilha que enfrenta o problema, pelo âmago da questão: faltam, de fato, médicos! É também para quem , no mínimo, consegue perceber que o sistema colonial nunca foi de nós apartado, e que a elite não apenas se acha branca, e  que, quando usa jaleco branco, parece não dispor  este jaleco a serviço do pobre, do menos favorecido. A não ser como caridade, nunca como direito.

Quando defendi meu Mestrado acerca do racismo digital, na UNICAMP, escrevi: o discurso racista regula, seleciona, organiza, redistribui e articula poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro das discussões acerca dos poderes, quando se sente ameaçada de sua extinção. Agora, vemos isso se desenvolver: médicos gritam com colegas oriundos de Cuba, com medo, transmutado em ódio racial irracional. Não lhes interessa a formação dos cubanos, seu preparo. Interessa-lhes odiar, pura e simplesmente. Cospem em colegas,  denominam os recém chegados de escravos.

“Os mitos despertam nos homens pensamentos que  lhes são desconhecidos”.
Claude Lévi-Strauss (1983, p. 13)

O mito do médico branco, dono do poder, do saber e da autoridade se dissolve enquanto essa classe absolutamente corporativa solta como um dragão apenas ódio, racismo, preconceito e incentivo ao crime. Parece que não há mais racionalidade. Seu desejo é que se restaure uma espécie de ordem natural, aonde apenas os ricos tenham acesso ao médico, e que os pobres continuem abandonados. E que apenas eles, brancos, de brancos jalecos, decidam quando façam caridosamente uma visita a um lugar menos favorecido. Desde que tenha um shopping na volta.

Escravos são os racistas de jaleco. Escravos de seus modelos raciais racistas e alucinadores. Escravos de sua indecência e desumanidade, escravos de seu corporativismo. Que o modelo colonial imploda de uma vez. Bem-vindos, cubanos. Muito obrigada por tudo.

Libertando Auschwitz

27 Jan

Adriana Dias

               

             A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz, o maior campo de concentração estabelecido pelos regime nazista. Na verdade, o complexo que recebeu o nome de Auschwitz-Birkenau, incluiu centros de concentração, de trabalho forçado e extermínio, localizados a 37 km a oeste de Cracóvia, perto da fronteira pré-guerra entre a Polônia e a Alemanha. Escolhi com cuidado a palavra relembra, porque eu não ousaria escrever celebra ou comemora: mesmo a liberação de Auschwitz, implica na existência de Auschwitz, e, portanto, torna esta data (in)comemorável e (in)celebrável.

                Ao entrar no campo, naquele 27 de janeiro de 1945, os soldados soviéticos encontraram menos prisioneiros do que se esperava: os oficiais nacional-socialistas, precavidamente, obrigaram a imensa maioria dos prisioneiros, a marchar rumo ao oeste da Alemanha nas denominadas “marchas da morte”, a fim de eliminá-los, coerentemente com seu sadismo e perversidade, no caminho. Os milhares de prisioneiros esqueléticos, no entanto, eram a prova do extermínio em massa efetuado em Auschwitz. Centenas de milhares de ternos masculinos, cerca de 800.000 vestidos, e mais de 7.000 quilos de cabelo, não foram destruídos pelos militares, em sua fuga apressada. Eram provas reais do inconcebível, imagem farta do irrepresentável.

                Naquele campo em que as cores esqueceram os homens, as cinzas caem do céu e o cheiro da morte pairava no ar, os trens estavam parados, finalmente. Não havia mais nos trens os gritos, os desesperados, os condenados. Os trens que não paravam de chegar, de toda Europa ocupada pelo estado nazi que se tornou burocraticamente uma indústria de genocídio, agora estavam parados. Mas, os homens que vieram naqueles trens e que ainda estavam naquele campo, fracos demais para caminhar até morrer, eram os rostos quase mortos que os soviéticos viam: os sobreviventes, judeus, ciganos, pessoas com deficiência, refugiados, presos políticos, gays, lésbicas, testemunhas de Jeová, uma massa humana, que partilhou por anos a fome, os apitos de madrugada, o cheiro de carne queimada, o abandono dos pássaros, o silêncio da morte e o medo da vida.

                O crematório havia parado. Os trens haviam parado. Mas, a morte estava em cada canto de Auschwitz. A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz, para que Auschwitz jamais se repita. Para que jamais o crematório volte a funcionar. Para que jamais os trens carreguem os condenados para o crematório. Para que jamais se deporte os prisioneiros condenados para os trens. Para que jamais se façam as listas dos que devem ser deportados. Para que jamais se pense em deportar para a morte os que não consideramos cidadãos. Para que jamais seja possível legalizar um não cidadão como não humano. Para que jamais seja possível pensar, no seio da humanidade em classificar humanos e sub-humanos.

                A humanidade relembra hoje 68 anos da liberação de Auschwitz. Que a lembrança de Auschwitz nos liberte de toda intolerância e nos devolva a humanidade em plenitude. Que, um dia, Auschwitz seja a memória do que como humanidade, todos, escolhemos jamais ser.