Arquivo | Romance RSS feed for this section

Dos muitos Joaquins.

23 Jun

UPDATE AO POST ANTERIOR: Um amigo me contou que um morador em situação de rua em SAMPA, está lendo A Montanha Magica, de Thomas Mann, no meio do frio. Ele emprestou numa biblioteca. . Não consegui parar de chorar desde então.

Vai ver q é daí q eu gosto tanto de Joachim. Joachim Ziemssen. VaI VER QUE O SUICÍDIO É COMO UMA TURBECULOSE.

 

O Cortiço, parte I

28 Maio

Uma amiga me pediu uma ajuda para filha que fará vestibular. Quer entender um livro. Eu amo o bendito. Então, resolvi, escrever aqui e tornar público, pra todo mundo. Aproveitem!

alice3

Entendendo a obra:

O Cortiço, romance de  Aluísio Azevedo,publicado em 1890.

Ficheiro:Aluisio Azevedo.jpg

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. (Capítulo II, pg. 17)

Aluísio problematizou no romance ‘O Cortiço’ as relações sociais entre as classes mais pobres e a burguesia carioca, denunciando as explorações impostas às lavadoras, aos  ferreiros e operários: estão evidentes no livro as imensas  modificações enfrentadas na sociedade pelo  fim do tráfico negreiro (1850) e pelo fim da escravatura (1888), pelo declínio da economia açucareira, e pelo vertiginoso crescimento da industrialização e crescimento das cidades. Analisando estes elementos, ainda, sob a ótica do  determinismo social  (discutindo como o meio, o lugar, e o momento influenciam o ser humano) e do darwinismo social ( evocando um constante evolucionismo), Azevedo retrata como a vida social é imposta às pessoas e nelas operacionalizadas.

A estética naturalista, utilizada com mão larga pelo autor,  caracteriza-se por uma visão do homem, do mundo, da vida, da sociedade, da religião e da própria literatura vinculada a posturas filosóficas da segunda metade do século XIX: cientificismo, darwinismo, determinismo, materialismo e patologismo. O Brasil, mais -permeável à influência francesa, apresenta um naturalismo caracterizado principalmente pelo patologismo, pelo determinismo hereditário e mesológico (que vincula o homem e seu meio natural), em que o tropicalismo desempenha um papel especial. Por isto na obra, o cortiço influenciará as pessoas que nele moram, a cidade litorânea corromperá a todos que nela vivem. Note-se, por exemplo, a presença da certeza de que o mundo é governado pela violência. O homem é, no limite natural, um ser primitivo e brutal, que, corrompido pelo meio natural, que o afasta do processo civilizatório, descamba em uma vida cada vez mais violenta. . A violência se acha presente em todo 0 Cortiço. Não apenas entre pessoas, mas, o próprio cortiço surge como um elemento alimentador dessa violência.

E as palavras “galego” e “cabra” cruzaram-se de todos os pontos, como bofetadas. Houve um vavau rápido e surdo, e logo em seguida um formidável rolo, um rolo a valer, não mais de duas mulheres, mas de uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As cercas e os jiraus desapareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, estalando em descarga; ao passo que numa berraria infernal, num fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquela onda viva ia arrastando o que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de planta, tudo rolava entre aquela centena de pernas confundidas e doidas. Das janelas do Miranda apitava-se com fúria; da rua, em todo o quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela frente surgia povo e mais povo. O pátio estava quase cheio; ninguém mais se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças berravam. (pg. 127)

Neste retrato, relatado por um narrador onisciente, de terceira pessoa, que descreve um processo naturalizado, em que o coletivo, apontando para a animalização, desenvolve uma natureza zoomorfista:

O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea  naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (pg. 18)

alice1

Para dar conta do tema, Aluísio Azevedo se vale de vários elementos: o primeiro que discutiremos é o uso do espaço:

Há dois espaços explorados por Azevedo, que servirão para contrastar as classes sociais, os dramas, as questões, os mundos:

O cortiço e o sobrado.

O cortiço é o conjunto de casebres, o todo orgânico, no qual vivem os pobres, os operários, amontoados ao lado da pedreira e da taverna do português João Romão. Na segunda metade do século XIX, os cortiços do Rio eram objeto de atenção das autoridades públicas. Médicos higienistas, autoridades policiais, vereadores, fiscais da municipalidade, tinham que dar conta do fenômeno crescente dos cortiços, por representarem ao mesmo tempo problema de saúde pública e de segurança. As conhecidas moradias coletivas,  de pobres e operários, das quais o proprietário era geralmente português, dono de armazém próximo, que explorava os moradores, era uma questão para as autoridades, que nem sempre estava do lado dos mais desfavorecidos: O Conde D’Eu, marido da princesa Isabel, foi dono de um imenso cortiço, o “Cabeça-de-porco”, onde viviam mais de 4 mil pessoas.

A ocorrência freqüente de epidemias de varíola e febre amarela levava à suspeita de que a aglomeração de pessoas em habitações coletivas piorava sobremaneira o quadro da saúde pública na Corte.

Cortiços eram também assunto de polícia. Numa conjuntura em que pobreza e disposição à criminalidade surgiam juntas no imaginário de autoridades e proprietários, os habitantes dos cortiços tornaram-se membros das ditas “classes perigosas”.

O sobrado, em que vivem Miranda e sua família símbolo da aristocracia  burguesa ascendente do século XIX se situa ficcionalmente no do bairro de Botafogo, explorando a exuberante natureza local como meio determinante.

A natureza próxima, marcada pela cidade litorânea, funcionará como um elemento  corruptor de ambos.

Grande dia de Guimarães: as rosas

27 Jun

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim.”
Grande Sertão: veredas
Guimarães Rosa

O sertão está em toda parte, escreveu o grande Rosa, e quem já viveu no sertão traz aridez na alma, solidão nas entranhas. assim sou, a Alice. Hoje, 27 de junho, faz 104 anos do nascimento de Guimarães Rosa. Um dos grandes autores brasileiros, desses que a gente lê com a carne, com a alma em paixão, quem nunca amou, quem nuca sentiu a perda do juízo, o medo, não entende Guimarães, nem se atreva. Todos os textos destacados são do grande Guimarães…

Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta  a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, — se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…  

Minha mãe era do Nordeste, do Sertão, eu trago a seca de perto nesta certeza de que a felicidade é efêmera, de que a tragédia está perto, que o mundo vai faltar sob os pés…

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Uma maneira  nordestina de rever Sócrates.

O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, e às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.   

Mire e veja talvez seja o que há de mais bonito na nossa língua…

Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! Só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?  

Mire  veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre pôr arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?  O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte pôr demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Pôr gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo mundo carece disso. Eu acho, que.  No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar pôr exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…  

Isso, mas totalmente as vezes. Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram — pelo pulo fino de sem ver se dar — a sorte momenteira, pôr cabelo pôr um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. As vezes essa idéia me põe susto.

Eu custava muito para me levantar; não pôr fraca saúde, mas pôr preguiça mal corrigida. A bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância narrável.  O senhor sabe?: não acerto no contar, porque estou remexendo o vivido longe alto, com pouco caroço, querendo esquentar, demear, de feito, meu coração, naquelas lembranças. Ou quero enfiar a idéia, achar o rumozinho forte das coisas, caminho do que houve e do que não houve. As vezes não é fácil. Fé que não é.  

Antes o que me atanazava, a mor — disso crio razoável lembrança — era o significado que eu não achava lá, no meio onde eu estava obrigado, naquele grau de gente.  Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas — de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.  Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados… Como é que posso com este mundo?

A vida é ingrata no macio de si, mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que este mundo é muito misturado…  Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Êh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo.    

Beijos coloridos em todos!