Tag Archives: arte

Planner Blog para você!

11 Jan

Este ano, começo os presentes para download pensando em você que quer começar um blog ou organizar o seu.

Tem um Guia de Estilo e TODOS os formulários para você pensar, arrumar, planejar, organizar e otimizar a vida de blogueiro.

Junto com o pacote, duas cartelas de adesivos. Tudo, presente nosso. Só clicar e salvar!

Você vai ter que imprimir doze páginas da folha de planejamento mensal e 52 do planejamento semanal.

Clique na imagem e salve!

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Calendário 2016

21 Dez

Mais um presentinho de Natal do EspelhodeAlice4.0 para  você!

Calendário de 2016. Clique na figura e salve!

2016espelho

Um presente meu para você!

20 Dez

Olá, gente. Você pode baixar a figura abaixo, para fazer um quadrinho, para seu quarto, ou para usar de fundo pro seu micro (ou para o que você inventar!!). Clica na imagem e salva!

 

alicepresentim

Presentinho

20 Abr

Oi queridos, que acham de ter um jogo de cartas de Alice? Dá para jogar, usar em Scrap, enfeitar objetos, colar em cartas e cadernos.

Pegue o seu aqui.

Em tempos de rinocerontes…

21 Set

Ando sumidinha! Mas, olha o pequeno motivo aí!

Olá, queridos! O bicho aí de cima, exposto na Av. Paulista, 1313 (somos Petistas!), acaba de sair do MUBE e chegar as terras paulistanas. É o Rino, criado pelo artista plástico Marcelo Higa, meu digníssimo marido, e claro, imparcialíssima que sou, acho ele o mais bonito da amostra Rinomania. Curtam!

Atualizando: saíram notícias dos Rinos em milhares de lugares, muitos com o Rino do Marcelo na capa! Ele tá muito feliz. Mas, uma superou todas. Na França! http://www.rtl.be/loisirs/rtellesils/news/14629/bresil-des-rhinoceros-colores-occupent-les-rues-de-sao-paulo Très chic!

Beijos coloridos em todos!

REDE

5 Ago

de Susana Fuentes

O mímico atravessa a cena, deixa cair um lenço invisível, agacha sobre a água – invisível – atravessa o rio – invisível – e do outro lado do rio, apanha o lenço. O mais estranho: do outro lado as sapatilhas deixam pegadas.

A trapezista rouba a cena. No ar a mão sustenta o corpo, sobe o quadril, passa uma perna na corda. A cabeça despenca, o tornozelo gira, leve trava na barra. O corpo desliza, inverte lados, chama para cima o para baixo. As luzes se apagam. Vai-se a trapezista. Fica o trapézio, vazio – e o trapézio sobe, desce, ensaia o balanço solitário e livre.

Não me sai da cabeça que a mulher barbada tinha um queda pelo dono do circo. Um dia a peguei chorando porque o porco ou símio adiantado não lhe notara o penteado novo.

Perto da jaula, o menino jurava ter ouvido o crocodilo lhe dizer bom dia.

A pulga estava tão triste porque seu adestrador morrera na véspera de uma anemia profunda.

O malabarista deixa cair os pratos. O atirador de facas erra o alvo sobre a melancia. Entra aí o palhaço, de terno e gravata, triunfante, chama os dois para um piquenique.

O atirador nem percebe, mas falta uma faca. Só quando lê as manchetes no dia seguinte é que pensa: não é que notara o palhaço mais feliz que o de costume?

Fora da corda chora o equilibrista porque o caminho é tão cheio de encruzilhadas.

A engolidora de fogo na pausa arruma a trança e lembra, entre suspiros e lágrimas, de sua infância entre os dragões.

Na boca do leão, os olhos redondos do adestrador brilham. Na platéia, o sorriso absorto de sua esposa trai uma ambição duvidosa. Termina o número. Aplauso. A mulher trinca os dentes. A tempo, sem que a notem, amansa a cara, um leve resgate da língua recolhe a saliva e o desejo por sangue.

Rente à lona, a imobilidade dos galhos conduz as folhas a discreta sonolência. Mas antes que abandonem a vigília, generosas gotas já pousam sobre seus olhos – despertando-as em pequenos sustos – piscadelas trêmulas de alegria súbita.

Do livro Escola de gigantes
Rio: 7Letras, 2005.

mais?

aqui:

Análise do Filme “O Enigma de Kaspar Hauser”

18 Maio

Sob a ótica das teorias de Piaget e Vygotsky

“Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa.”   Vigotsky 

Sob a Luz de Piaget

Kaspar não falava quando foi encontrado;  pensa que o único lugar agradável no mundo é sua cama e que sua aparição no mundo foi “uma queda dura”. Seu comportamento de não falar é instintivo; ele nasceu como é, completo. Não pode construir a etapa da linguagem, e sua “mudez” uma defesa, enquanto o processo de assimilação e acomodação se estrutura, já que foi necessário uma nova adaptação, ao meio, quando foi encontrado. Seu comportamento, apesar de uma determinação genética, não encontrou no meio o material necessário à aprendizagem e ao desenvolvimento. Kaspar acha que seu quarto é maior do que a torre porque ele ao se virar para todos os lados em seu quarto, continua vendo sempre o quarto e no caso da torre não, ao se virar ele não mais a vê. Construir a etapa do operacional formal parece difícil, por sua dificuldade de abstrair. A capacidade de abstrair não encontrou, provavelmente, estímulos na vivência anterior de Kaspar.  As estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos intelectualmente organizam o meio, os esquemas, estão limitadas as possibilidades restritas de interação, mas aptas a generalizar os estímulos, porque ele compara seu quarto à torre.

A assimilação (o processo cognitivo de classificar novos eventos em esquemas pré-existentes), exige a incorporação de elementos do meio externo (torre, chama, cantos) a um esquema ou estrutura conhecidos (compara a torre com o quarto, a chama com a luz – segue com os olhos), os cantos à gritos. Poderíamos afirmar que o processo de assimilação em Kaspar é rápido, criativo, cognitivamente capta o ambiente e o organiza possibilitando, assim, a ampliação de seus esquemas, utilizando-se das as estruturas que já possui. modificação de um esquema ou de uma estrutura em função das particularidades do objeto a ser assimilado. Já a acomodação acontece de modo inusitado, quando, por exemplo, querem provar a Kaspar que uma maçã pararia diante de um obstáculo (o pé de uma pessoa) e Kaspar após ver o que aconteceu  (a maçã não parou) diz que ela foi mais esperta pois pulou o pé da pessoa, criando um novo esquema no qual se possa encaixar o novo estímulo, o novo desafio, ou mesmo modificando a idéia já existente, de que a maçã pararia, de modo que o estímulo possa ser incluído nele. Este momento também permite uma abordagem do conceito de equilíbrio,  pois se esperava que uma situação ocorresse de determinada maneira, e esta não acontece. E Kaspar explica isto a partir do que conhece, transpondo à maçã, um poder e um animismo.

Em Piaget, o pensamento é a maneira da inteligência manifestar-se, sendo que estes se constroem em etapas:

De zero a cerca de dois anos, ou até a aquisição da linguagem, estágio sensório-motor, quando a criança tem uma inteligência essencialmente prática. Uma amostra disto no filme, é o fato de Kaspar repetir as palavras que ouve várias vezes; como um bebê. Além disto, pode-se afirmar que, num primeiro momento, come, dorme não apresenta reações ao mexerem com ele, demonstra um comportamento apático, sem auto-propulsão. Por exemplo, sua sensibilidade aos estímulos sensoriais era tão intensa que podia identificar corretamente as cores na escuridão mais completa. Sob um pedaço de papel ele podia perceber perfeitamente objetos de metal e dizer o que eram e do que eram feitos. Durante o primeiro ano após sua chegada não sabia medir as distâncias nem avaliar a profundidade dos objetos.

De cerca de dois anos a aproximadamente sete anos, estágio pré-operatório. A criança faz leituras incompletas da realidade, prioriza alguns aspectos em detrimento de outros, não estabelece relações e é centrada em si mesma, como quando Kaspar Kaspar diante de uma enorme torre começa a deduzir que quem a construiu era uma pessoa muito grande; estabelescendo relações simples entre o tamanho do ambiente e de seus moradores/construtores, quando repete, provavelmente uma lembrança (?) repete o que viu ao balançar o berço do bebe quando ele chora. Kaspar segura o bebê nos braços e chora falando : mamãe, ninguém aceita Kaspar. Na escuridão da cela, seus sentidos foram aguçados e sua visão lhe permitia ler à noite, por exemplo. O seu sentido de olfato também era aguçadíssimo: chegou a desmaiar de embriaguez a primeira vez que colocaram um copo de cerveja no mesmo recinto em que ele se encontrava.

De cerca de sete anos a cerca de 12 anos, estágio das operações concretas. A criança demonstra sinais de lógica peculiar dos adultos e começa a pensar de forma mais organizada e sistemática. Sobre isto poderíamos citar:  “Kaspar Hauser não dispõe de estereótipos perceptuais, a sociedade de Nurembergue vai impor-lhe a língua como o grande instrumental cognitivo: sem passar pela práxis, Kaspar Hauser deverá conhecer o mundo através da língua. Apesar de explicado pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, enfim, a paisagem em que foi colocado Kaspar Hauser permanece turva e indecifrável. Conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não bastar para dissolver o permanente mistério e a perplexidade do olhar de Kaspar Hauser. Trata-se aqui de uma questão que relaciona língua, pensamento, conhecimento e realidade. Até que ponto o universo dos signos lingüísticos coincide com a realidade ‘extralingüística’ ? Como é possível conhecer tal realidade por meio de signos lingüísticos ? Qual o alcance da língua sobre o pensamento e a cognição ?[1]

De cerca de 12 anos a cerca de 15 anos, estágio das operações formais com pensamento hipotético-dedutivo. Quando a criança realiza tais operações, transita no universo abstrato em que se mostra como a realização material de uma entre as inúmeras possibilidades pensadas. A inteligência de Kaspar mostra dificuldades como estágio forma, e com a dificuldade de abstrair, mas em um dado momento, parece ser capaz, efetivamente de discutir questões abstratas:  não aceita a idéia de religião e questiona a inferioridade das mulheres na sociedade, mas tudo isso com uma ingenuidade de criança. Outro momento, quando se depara com um desafio de lógica: Confrontado com uma charada do encontro de um viajante com um nativo em uma encruzilhada que leva a duas diferentes aldeias. Em uma delas todos são mentirosos e, na outra, ninguém mente. Pergunta-se acerca de como descobrir quem é quem… A resposta de Kaspar Hause foi: existe outra solução. Eu pergunto: o senhor é uma rã verde? Se o nativo disser sim, sei que vem da aldeia dos mentirosos. Se disser não, vem da aldeia dos que falam a verdade. Fez progressos na música. Kaspar expressa melhor no piano o que vai à alma.

Sobre Kasper: De acordo com indicações da época e do conhecimento lingüístico e psicológico contemporâneos, é provável que Kaspar Hauser tenha vivido uma infância normal até a idade de 3 ou 4 anos, momento a partir do qual é submetido a viver em uma cela escura durante aproximadamente 13 anos. Nesta cela, não lhe foi permitido o contato com outros seres humanos e sua alimentação era composta apenas de pão e água que eram deixados na cela enquanto ele dormia. Às vezes, sentia um gosto estranho na água que, posteriormente, o fazia dormir profundamente. Quando acordava percebia que seu cabelo e suas unhas haviam sido cortados e suas roupas trocadas.

Para Piaget, o funcionamento da inteligência está condicionado pelas etapas de desenvolvimento da própria base neurônica do cérebro e pelas experiências com o meio ambiente, e em cada estágio as tentativas de compreensão serão diferentes face ao grau de desenvolvimento progressivo. Quando a deformidade do hemisfério esquerdoé descoberta, cerebelo é maior do que o normal, procura-se demonstrar uma base neurobiológica para explicar Kasper…

Sob a Luz de Vygotsky

Para Piaget, a fala egocêntrica não cumpre nenhuma função verdadeiramente útil; já Vigotsky, acredita que a fala egocêntrica assume um papel definido e importante. Outro ponto de discordância entre os autores refere-se ao desaparecimento ou transformação de fala egocêntrica, pois, Piaget descreve que a fala egocêntrica simplesmente desaparece. Ao contrário de Vigotsky afirma: “a fala egocêntrica não se atrofia simplesmente, mas ‘se esconde’, isto é, transforma-se em fala interior”. Quando apareceu em Nuremberg, Kaspar não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero ser cavaleiro” e sequer aprendera a andar direito. Um menino dentro de um corpo adolescente seria uma boa descrição para seu estado.

Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um “garoto selvagem,” apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima. Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa. Seu aprendizado foi rápido e já com seis meses de convivência social podia falar e escrever com certa habilidade. Seus questionamentos e seu modo de perceber a vida foram relatados de forma minuciosa e interessada por algumas das pessoas que gozavam da sua intimidade, e as análises que se faziam das suas ações refletem perfeitamente o espírito geral da época, o que demonstra como ele internalizou estes símbolos e signos da época, de maneira supreendente para quem teria sido tão afastado do contato social.

Sobre a relação de pensamento e linguagem, é interessante observar uma citação de Émile Benveniste: “A sociedade não é possível a não ser pela língua; e, pela língua, também o indivíduo. O despertar da consciência na criança coincide sempre com a aprendizagem da linguagem, que a introduz pouco a pouco como indivíduo na sociedade.” A partir desta afirmação de podemos iniciar o processo de reflexão sobre as questões vygotskyanas, presentes no filme de Werner Herzog, “O Enigma de Kaspar Hauser”. A aquisição da linguagem como pressuposto cognitivo para as relações inter-sociais (ou, principalmente, a maneira com que ela se dá) pode ser discutida a partir de situações levantadas pela própria obra. Faltava-lhe algo que desse condições para simbolizar, refletir e conhecer a si em relação ao outro. Assim, para ele tanto o caráter inanimado de uma maçã, por exemplo, como um prelúdio de Mozart seriam passíveis de personificações e construções interpretativas não inerentes às qualidades concretas do objeto, mostrando que o caráter reflexivo do personagem havia transgredido a visão simbólica da realidade. Com o uso da simbologia, outros conhecimentos não práticos poderiam ser dominados, levando-o ao exercício da reflexão e da compreensão: isto foi o que trouxe ao personagem o caráter perturbador daquela ordem social já instaurada, sua atitude crítico-reflexiva era inquietante e o desfecho da obra mostra exatamente que qualquer desvio de percepção do real não era bem aceito (assim como não o é hoje).

Ao chegar em Nuremberg Kaspar Hauser sabe apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase (“quero ser cavaleiro como meu pai”). A sociedade o vê com estranheza. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O filme de Werner Herzog mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.

Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. “Como pode ser isto?” pergunta. Nesse sentido, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro.

Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social, não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a linguagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais “modelam” a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.

Em virtude de não ter sido exposto a essa “modelagem” cultural, Kaspar Hauser era visto como um ser “incompleto,” como se estivesse sempre em “déficit” em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de W. Herzog: numa das cenas, K. Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: “Ninguém aceita Kaspar.” Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realidade, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado. Vygotsky diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo; porém, tendo vivido no isolamento, K. Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido.

Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas.

Em um dos diálogos no filme de Herzog, K. Hauser conta ao seu tutor que havia sonhado com uma caravana. O tutor fica animado e lhe diz: “que bom Kaspar! Você fez um grande progresso! Já sabe a diferença entre o sonho e a realidade! Até a semana passada você não fazia esta distinção, acreditava que as coisas sonhadas haviam acontecido realmente …”

A partir desse momento, Kaspar começa a se situar em relação ao mundo e às pessoas que o cercam. Parece tomar consciência de que era diferente dos outros e que, por isso, muitas vezes, era hostilizado. Uma análise, fundamentada no pensamento de Vygotsky permitiria elaborar um modelo interacionista, do sujeito social. Aqui é atribuído a Kaspar um papel ativo submetido por outro lado a diversos condicionamentos, em particular às determinações sociais, que introduzem no conhecimento uma visão da realidade socialmente transmitida. Este terceiro modelo propõe a troca do enquadramento de uma teoria do reflexo modificada, uma relação cognitiva na qual tanto o sujeito como o objeto mantém a sua existência objetiva e real, ao mesmo tempo em que atuam um sobre o outro, está em constante processo. Descoberto, Kaspar despertou a curiosidade de todos a ponto de ser exibido no mundo circense entre anões e mulheres barbadas.  Passado o estupor, Kaspar recebeu ensinamentos primários. Aprendeu a manter-se equilibrado, falar, ler e escrever. Despertado para o mundo, atormentaram-no com aprendizado complexo. Tocou piano. Fez filosofia. Conheceu a carne e o vinho. Distinguiu as cores, diferenciou o belo do feio, o verdadeiro do falso, o essencial do supérfluo, o ser vivo do ser inanimado, a mulher do homem, a criança do adulto.

Não havia dia sem aprendizado novo. Bombardeavam-no, literalmente. Tentaram, então, incutir no jovem as virtudes do homem de bem. Introduziram-no na religião. Kaspar Hauser resistiu. Apavorava-o a figura de Jesus crucificado. Não acreditava que fosse  inanimado e suplicava para que o tirassem da cruz. Também questionava a onipotência divina que, alheia aos anseios e necessidades pessoais, era incapaz de fazê-lo voltar no tempo e recuperar infância e juventude perdidas no cárcere. Mostrava-se infrutífero qualquer esforço dos preceptores no sentido de o tornarem permeável à imagen de Deus.

Não admitia que as relações familiares e atividades domésticas desenvolvidas pelas mulheres, no lar, tivessem valor menor que outras atividades mais complexas concretizadas pelo homem. Se por um lado alcançara pleno desenvolvimento a ponto de igualar-se ou até mesmo superar em conhecimento os jovens da sua idade, por outro lado mostrara-se estranhamente distante e diferente dos outros, a ponto de poder criticá-los. Os “óculos sociais” determinam a visão de mundo de cada um, e a “realidade” como entidade única e incontestável simplesmente não existe. E ele, parcialmente vestia-os, parcialmente os criticava, opondo-se à linguagem científica, sua sensibilidade pela música e pela poesia; contrariava  à lógica formal, opõe o pré-logicismo de Kaspar Hauser, tão peculiar ao pensar infantil.

Escrito em 2004, sem revisão posterior, apenas para partilhar.


[1] I. Blikstein, “Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade”, 1981