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Para não dizer que não expliquei direito!

14 Jul

http://www.slideshare.net/MinSaude/maismdicos?ref=http://mariafro.com/2013/07/10/39059/

Uma reflexão rápida

19 Jun

Desde a semana passada eu tenho analisado com amigos o grande movimento social que tomou as ruas do país. Tenho participado pela rede, até porque, como estou recém operada e muito frágil na saúde, não me sinto em condições de estar nas ruas. Mas, o interessante é que tudo que eu comentei do movimento até agora com pessoas próximas aconteceu da forma como eu imaginei, ora bolas, porque a insatisfação das pessoas com o transporte é imensa: elas são tratadas com pouquíssima dignidade humana por horas para ir e vir do trabalho em um transporte de péssima qualidade. Em Sampa, o metrô está mais do que lotado, e transitar pela cidade é um caos total. Os trabalhadores sofrem demais. As manifestações viraram um Carnaval às avessas: vamos expor toda a frustração de anos de descaso total.
E desde o início eu lembro muito de Manuel Castells. Em O poder da identidade, ele descreve idéias e análises organizadas após 25 anos de estudos sobre movimentos sociais e processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a  sociedade da informação: a globalização e a identidade. A partir da sociedade em rede, e das novas tecnologias, ele pensa a  revolução tecnológica e informacional e a dita  nova economia, problematizando várias questões neste contexto: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a realidade midiatizada., o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Por outro lado, o autor destaca o despertar e fortalecimento  de uma onda poderosa de identidade coletiva que desafia a globalização e o cosmopolitismo em função da singularidade cultural e autocontrole individual. Fundamentando a discussão nos movimentos sociais e na política, como resultantes da interação entre a globalização induzida pela tecnologia, o poder da identidade e as instituições do Estado, Castells, faz uma lúcida análise dessa sociedade conectada pela convergência de telecomunicações, e redes sociais, demonstrando como pensar a contraditória pluralidade e a própria  organização da sociedade civil em movimentos sociais participantes como uma quarta ameaça à soberania do Estado.

Gostaria, portanto de partilhar algumas idéias de Castells com vcs!

Os movimentos sociais, segundo Castells, vivem entre a relação do poder   do Estado e do poder da informação, “uma vez que,as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado […] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações “[…] (CASTELLS, 2000, p. 348-349).

No sexto capítulo, A política informacional e a crise da democracia, o autor destaca a fragmentação do Estado, a imprevisibilidade do sistema político e a  singularização da política. Afirma que .as novas condições institucionais, culturais e tecnológicas do exercício democrático tornaram obsoletos o sistema partidário existente  e o atual regime de concorrência política […]. (CASTELLS, 2000, p. 408). Conclui expondo que é necessário estimular o surgimento de uma democracia informacional.

À crise de legitimidade do Estado-Nação acrescente-se a falta de credibilidade do sistema político, fundamentado na concorrência aberta entre partidos. Capturado na arena da mídia, reduzido a lideranças personalizadas, dependente de sofisticados recursos de manipulação tecnológica, induzido a práticas ilícitas para obtenção de fundos de campanha, conduzido pela política do escândalo, o sistema partidário vem perdendo seu apelo e confiabilidade e, para todos os efeitos, é considerado um resquício burocrático destituído da fé pública. (Castells, 2000, p. 402)

Ao lado desse processo de  surge também um outro, que Manuel Castells, denominou  a “política do escândalo” , segundo ele, inseparável da política mediática” (2009: 331). É por meio dos órgãos de comunicação social (em que se incluem os meios de comunicação de massa) que a sociedade fica a saber desses mesmos escândalos. Depois, acrescenta o autor, “as características da política mediática fazem do uso dos escândalos o instrumento mais eficaz da luta política” (331). A personalização da política – que Manuel Castells acredita ser cada vez mais forte – acarreta muitas vezes fragilidades, que os opositores se encarregam de revelar. Ele escreve:

Como as mensagens mais eficazes são as mais negativas e uma vez que a difamação é uma forma definitiva de negatividade, a destruição de um líder político através da filtração, invenção  apresentação e propagação de uma conduta dolosa que lhe é atribuída, de forma individual ou em associação, é objectivo último da política do escândalo. Por isso, tácticas como a “investigação da oposição” pretendem encontrar informação comprometedora que se possa utilizar para destruir a popularidade de um político ou de um partido. A prática da política do escândalo representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo. Sendo que a política mediática é a política da Era da Informação, a política do escândalo é o instrumento eleito para dirimir as batalhas políticas do nosso tempo (Castells, 2009: 331-332). Esses escândalos geram inquérito parlamentar ou judicial, dos quais juízes, promotores e inquisidores acabam se tornando heróis protegidos pela mídia, que ganha sua audiência. Eles também apoiam essa mídia, e juntos arrebatam o poder do processo político e disseminando na sociedade, formando uma espécie de relação de simbiose. “Na política de escândalos, como também em outros domínios da sociedade em rede, o poder dos fluxos supera os fluxos de poder.”

Os escândalos acabam gerando o desinteresse da população por política, e uma busca por novas lutas, que movimentos sociais como esses, de massa, podem acabar suprindo.

Das lamentáveis afirmações do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo

15 Jun

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sempre apreciei a trajetória do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tanto por sua integridade ética quanto por sua brilhante intelectualidade. Mas, ao contemplar sua atuação diante do evento das manifestações em São Paulo, renho que me manifestar: é impressionante como ele não apenas erra, mas como também insiste em permanecer em erro constate.

Sem dúvida seu equívoco vem de sua distância, quase oceânica, da luta dos movimentos populares: ele fala em Estado de Direito, sem saber que em SP, depois de décadas de PSDB o que os movimentos populares vivem, há muito é estado de exceção: são criminalizados, impedidos de se expressar, presos ao contestar ação governamental, perseguidos, espancados. Atos policiais serão analisados para ver se foram abusivos? Sim, eu já vi esta promessa vã, no caso de Pinheirinho.

Sinto, Cardoso, mas você perdeu uma importante chance de entender de fato, como funciona a dinâmica do nosso mundo tão complexo na paulicéia desvairada:  nós somos o que falamos e não somos ouvidos. Há tempos aqui que os movimentos são reprimidos: gays são mortos na Augusta e a PM não faz nada, mas se é pra bater em estudante, tudo bem. Neonazistas tem 32 grupos paralimitares por todo estado, e a PM não faz nada, mas se é pra meter bala de borracha em estudante é o Estado de Direito que se alega. Acorda, Cardoso.

O povo não aguenta mais a ditadura do PSDB, e vc se coloca a favor dela? Tire férias, e vai ler um pouco de Walter BenjamimGiorgio Agamben. 

Depois disso, veja a manifestação sem os olhos de elite, e com os olhos do povo. Um pouco de caminhada nas ruas não iria lhe fazer tão mal assim.

Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro

8 Dez
Português: O antropólogo brasileiro, Eduardo V...

Português: O antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro, faz a mediação da última conferência do dia no Seminário Internacional de Diversidade Cultural em Brasília. (Photo credit: Wikipedia)

É preciso insistir no fato de que é possível ser feliz sem o frenesi de consumo que a mídia nos impõe”, reafirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, à jornalista Júlia Magalhães. Para ele, assim como para Fernando Meirelles e Ricardo Abramovay – primeiros entrevistados da sério Outra Política – a felicidade pode ter outros caminhos. O novo diálogo é parte da série que o Instituto Ideafix produziu por encomenda do IDS(Instuto Democracia e Sustentabilidade), e que o site publica na seção especial “Outra Política“.

Pesquisador e professor de antropologia do Museu Nacional (UFRJ) e sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Viveiros insiste em que só pela educação avançaremos rumo a uma sociedade mais democrática. “A falta de educação é o nó cego responsável por esse conservadorismo reacionário de boa parte da população”, diz ele. Vai além: arrisca dizer que haveria uma conspiração para impedir os brasileiros de ter acesso a educação ou conexão de à internet de qualidade – conquistas que permitiriam ampliar o acesso a produtos e bens culturais.

Ainda como Meirelles e Abramovay, Viveiros insiste em políticas que reduzam adesigualdade e favoreçam novos padrões de consumo. “É um absurdo afirmar que produzir mais carros é sinal de pujança, utilizar esse dado como indicador de melhoria econômica.”

Para o antropólogo, a mobilização pelas causas ambientais é importante, mas ainda está longe de corresponder à gravidade do problema. É preciso ampliar o universo dos que se preocupam, lembrar “que saneamento básico, dengue e lixo são problemas ambientais”. Viveiros está alarmado: “as pessoas fingem não saber o que está acontecendo, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior”. O raciocínio é semelhante ao de Fernando Meirelles, diretor de Ensaio sobre a Cegueira: “Apenas cegos, cínicos ou oportunistas recusam-se a enxergar”.

Diferentemente de Abramovay – que vê germinar um trabalho sério nas empresas e acredita que a sociedade terá força e atitude para impor limites à iniciativa privada –, Viveiros de Castro considera que as corporações não são capazes de ir além do “capitalismo verde”, fingindo responsabilidade social e ambiental. Os dois se alinham, contudo, na esperança depositada nas redes sociais como canais de expressão, opinião, colaboração e mobilização.

Não existe um rumo Brasil”, alerta Viveiros de Castro, ao falar sobre a fratura que marca a sociedade brasileira contrapondo as forças vivas do autoritarismo e do racismo aos setores que buscam a inovação. “O Brasil é um país escravocrata, racista, que não fez reforma agrária, e precisa fazê-la”, diz.

Não por coincidência, dissse o mesmo, há pouco, Mano Brown, em vídeo gravado na Ocupação Mauá, centro de São Paulo. “O Brasil está em transição, não sabe se é um país moderno ou se está ainda em 1964. Tem uma geração de direita ainda viva – Kassab é de direita, Alckmin é de direita – que tem um modus operandi dos caras da antiga, de usar a força, o poder.” A seguir, a entrevista (Inês Castilho).

Qual é sua percepção sobre a participação política do brasileiro?

Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro. A ideia de que existe um Brasil, no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade, parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Existem no mínimo dois, e, a meu ver, bem mais Brasis. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo, mas prescritivo. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa; eles não integram necessariamente uma classe específica, embora as chamadas “classes médias”, ascendentes ou descendentes, estejam bem representadas ali. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria, infelizmente, temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário, sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país, ou mesmo uma certa medioria “progressista”, prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático, “cordial”, amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada, dividida, polarizada, uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc.). O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata, renitentemente racista, e moralmente covarde. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente, não iremos “para a frente”. Em outros momentos, é claro, soluços insurreicionais esporádicos, e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos, que se testemunha sobretudo entre os mais pobres, ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima, inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. Nós, em suma.

O que é preciso para mudar isso?

Falar, resistir, insistir, olhar por cima do imediato – e, evidentemente, educar. Mas não “educar o povo”, como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior; mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite, quem sabe até livrando-se dela. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada, um deserto. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho, se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando), não é de forma alguma a mesma coisa que educar.

Isto é só um pesadelo, decerto: não é assim, não pode ser assim, espero que não seja assim. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas, luxo quase impensável no Brasil), enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados, com seus professores recebendo uma miséria, com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. Em suma, é urgente uma reforma radical na educação brasileira.

“A floresta e a escola”, sonhava Oswald de Andrade. Infelizmente, parece que deixaremos de ter uma e ainda não teremos a outra. Pois sem escola, aí é que não sobrará floresta mesmo.

Por onde começaria a reforma na educação?

Começaria por baixo, é lógico, no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. O ensino público teria de ter uma política unificada, voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres, e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida, não vejo melhora na qualidade efetiva de vida, da vida cultural ou espiritual, se me permitem a palavra arcaica. Ao contrário. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas, naturais e culturais, do povo, ou melhor, dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido.

Nesse cenário, quais os temas capazes de mobilizar a sociedade brasileira, hoje?

Vejo a “sociedade brasileira” imantada, pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia, por um ufanismo oco, um orgulho besta, como se o mundo (desta vez, enfim) se curvasse ao Brasil. Copa, Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos, como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra, isto é, com aquilo que está por baixo do território. Natureza e Cultura, em suma, que hoje não apenas se acham mediadas, mediatizadas pelo Mercado, mas mediocrizadas por ele. O Estado se aliou ao Mercado, contra a Natureza e contra a Cultura.

Esses temas ainda não mobilizam?

Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental, um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar, pois as duas vão juntas. Mas tudo me parece “too little, too late”: muito pouco, e muito tarde. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. E pouca pressão sobre a grande imprensa, suspeitamente lacônica, distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas.

Não se vê a sociedade realmente mobilizada, por exemplo, por Belo Monte, uma monstruosidade provada e comprovada, mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste, para onde irá boa parte da energia que não for vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê, no baixo Amazonas, para o mercado asiático. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. É preciso sobretudo falar aos povos, chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental, dengue é problema ambiental, lixão é problema ambiental. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. Mas a esquerda tradicional, como se está comprovando, mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental. Quando suas cabeças mais pensantes falam, tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”, tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo, um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. Isso quando ela, a esquerda, não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo, revelando assim sua comum origem com este último, lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo.

Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século.

Não se diga, por suposto, que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio, rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos pára-brisas. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel, gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal…

É uma situação difícil: falta instrução básica, falta compromisso da midia, falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental, o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. Estes mostram, ao contrário e por exemplo, preocupação em formar jovens que dirijam com segurança, e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo, em que não cabe nem mais uma agulha. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso é uma proposta podre, uma visão tacanha, um projeto burro de país.

Você está dizendo que muitos apelos ao consumo vêm do próprio governo. Mas também há um apelo muito grande que vem do mercado. Como você avalia isso?

O Brasil é um país capitalista periférico. O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária, o modo incontornável de um sistema social sobreviver no mundo de hoje. Entendo, ao contrário de alguns companheiros de viagem, que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos, e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária, então logo nossa forma de vida biológica, isto é, a espécie humana, vai-se mostrar desnecessária. A Terra vai favorecer outras alternativas.

A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo.

Esse impasse, queiramos ou não, vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo, preferem não pensar no assunto, mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. E o Brasil, ao contrário, está sempre se preparando para o melhor. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso, e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua, se é que não é, quem sabe, desesperada.. O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamentehigh tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja, açúcar, carne, para os países industrializados – e são eles que dão as cartas, controlam o mercado. Estamos bem nesse momento, mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro, o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Sem falar, é claro, no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar; ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil, nesse momento da crise, está em uma espécie de contrafluxo do tsunami, mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. Essas coisas têm de ser ditas.

E como você avalia a relação dessa realidade macropolítica, macroeconômica, com as realidades do Brasil rural, dos ribeirinhos, dos indígenas?

O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasiacountry: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades. Por trás de tudo, uma certa ideia de Brasil que o vê, no início do século XXI, como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é, sob vários aspectos, aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro, muita autoestrada, muita geladeira, muita televisão, todo mundo feliz. Quem pagava por tudo isso éramos, entre outros, nós. (Quem nos pagará, agora? A África, mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo.

É isso que vejo, uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. Sarney é um capitão hereditário, como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar, ou seja, pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso,o congresso, eleito sabe-se como, breca, a imprensa derruba, o PMDB sabota.

Há uma série de impasses para os quais não vejo saída, não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional, com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. Este está desmobilizado; se não está, o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social, vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo, aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros, que não só nunca fez sua reforma agrária, como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la.

Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limite?

A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica, climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos, com epidemias, fomes, secas, desastres, guerras, invasões. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos, e é grande a possibilidade de catástrofes, de quebras de safras, de crises de alimentos. Por ora, hoje, isso está até beneficiando o Brasil. Mas um dia a conta vai chegar. Os climatologistas, os geofísicos, os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo, as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. Porque haveria eu de estar otimista?

Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de consumo que a mídia nos impõe. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil, não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. Não que isso não fosse uma boa ideia. Mas sou contra, isso sim, o crescimento da “economia” mundial, e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira, e, por que não, uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes.

E como você vê o jovem nesse contexto?

É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros, achávamos que podíamos mudar o mundo, e sabíamos que tipo de mundo queríamos. Acho que, no geral, os horizontes utópicos se retraíram enormemente.

Algum movimento recente no Brasil ou no mundo chamou sua atenção?

No Brasil, a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista, tanto à direita como à esquerda, pelo interior do país. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade, esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo, aliás.

E como você vê o surgimento das redes sociais, nesse contexto?

Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais, que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial, e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais, como a marcha contra a homofobia, o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis, os vários movimentos contra Belo Monte, a mobilização pelas florestas. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. São um fator de desestabilização, no melhor sentido da palavra, do arranjo de poder dominante. Se alguma grande mudança no cenário político brasileiro vier a acontecer, creio que vai passar por essa mobilização das redes.

Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos – isso no mundo inteiro. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos, como o “projeto” brasileiro de banda larga, que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular, equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Parece mesmo, às vezes, que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito, que é o aumento da inteligência social, algo que, pelo jeito, é preciso controlar com muito cuidado.

Você imagina um novo modelo político?

Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda, que tínhamos que tomar o poder, sim. Eu respondia que, se tínhamos de tomar o poder, era preciso saber manter o poder depois, e era aí que a coisa pegava. Não tenho um desenho político para o Brasil, não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. Só posso externar minhas preocupações e indignações, e palpitar, de verdade, apenas ali onde me sinto seguro.

Penso, de qualquer forma, que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou, a essa altura, teria – as condições ecológicas, geográficas, culturais de desenvolver um novo estilo de civilização, um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. Poderíamos começar a experimentar, timidamente que fosse, algum tipo de alternativa aos paradigmas tecno-econômicos desenvolvidos na Europa moderna. Mas imagino que, se algum país vai acabar fazendo isso no mundo, será a China. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua, e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio, deliberado ou não. Mesmo assim, é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira, pelo menos das suas elite políticas e intelectuais, que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram, e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. Temos de mudar completamente, para começar, a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza, com a base físico-biológica da própria nacionalidade. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo, menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. A felicidade tem muitos caminhos.

Para os raros do Brasil, com amor

24 Maio

Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Eu tenho uma doença rara. Quem não tem, quem não sabe o que é na carne, por favor, cale-se. Quem nunca perdeu um filho com doença rara, quem nunca foi num médico e ouviu um não tem tratamento ao embalar uma criança que linda parece perder o viço dos olhos ou o movimento da vida, fique quieto.

Eu tenho uma doença rara. Ela determinou que a minha vida, a minha luta, eu escolhi não me calar, eu escolhi não me vender, eu escolhi estar do lado de milhares de mães que sangram todos os dias as dores de seus filhos, estar do lado dos 13 milhões de pessoas com doenças raras deste país que estão há quarenta anos sem políticas públicas. E que quando ouvem o se preparem para o pior, ouvem depois um lacônico: morrem pessoas todos os dias.

Eu ouço centenas de mães todas as semanas do ano. Falo com elas todos os dias. Eu não recebo duzentas mensagens por dia. Recebo duzentas mensagens por hora. Eu soube hoje da Marta de Fortaleza que abandonada pelo poder público do Ceará, vive algo inimaginável para os que em Brasília vivem no conforto dos gabinetes pagos com dinheiro dos impostos do povo brasileiro. Ela vive FOP.

Há FOP em Rondônia, em Tupâ, São Paulo, eu já vi duas crianças morrerem de FOP.

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção

Essas são as pessoas que tem raras, as que tem Osteogenesis Imperfecta, como o filho de uma amiga que visitei hoje, que nasceu com quarenta fraturas só no externo. Ou da família que tenho acompanhado com síndrome de WIson, que já perdeu uma filha e está lutando por uma home care, antes que perca o outro filho também. Eu não tenho tempo para perder com que menospreza o trabalho que nós fazemos, reconhecido por que nos interessa: os raros deste país, que apelam a nós.

E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar

Por favor, nos ajude, eu não posso parar de ajudar meus raros.

Médicos reprovam acordo do Conselho Federal com indústria farmacêutica

23 Mar
Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/medicos-reprovam-acordo-do-cfm-com-a-industria-farmaceutica.html?awesm=fbshare.me_Agizs&utm_campaign=&utm_medium=fbshare.me-facebook-post&utm_source=facebook.com&utm_content=fbshare-js-large

por Conceição Lemes

É usual existir sobre a mesa de médicos vários “adereços”: caneta, bloco de anotações, agenda, relógio digital, calculadora…  Com um detalhe: frequentemente são adornados com marcas de medicamentos e nomes de laboratórios farmacêuticos.

Pois esses brindes – caneta e bloco de anotações são os mais básicos –, à vista geral, são apenas a ponta do volumoso e milionário iceberg que são os patrocínios da indústria farmacêutica aos profissionais de saúde. Há médicos que, se tivessem de exibir os nomes de todos os seus patrocinadores, ficariam com o jaleco tão abarrotado de anúncios quanto o uniforme de pilotos de Fórmula 1.

Para disciplinar a relação médico-indústria, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) assinaram recentemente um acordo com a Interfarma, estabelecendo algumas normas. A Interfarma, presidida atualmente pelo jornalista Antonio Brito,  é a associação de indústrias farmacêuticas que congrega as multinacionais do setor. Brito já foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Rio Grande do Sul.

O acordo CFM-Interfarma (a íntegra, aqui) libera presentes  cujo valor individual não ultrapasse um terço do salário mínimo, limitados a três ocorrências por ano para cada médico.

O acordo também autoriza o pagamento de despesas com transporte, refeições e hospedagem do médico convidado pelo laboratório para eventos e congressos. Mas  proíbe outra prática até então comum: “ É expressamente proibido o pagamento ou o reembolso de quaisquer despesas de familiares, acompanhantes ou pessoas convidadas pelo profissional médico”. O documento, porém, não especifica como serão feitos esse e outros controles.

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) reprova o acordo, como mostra carta enviada em 5 de março ao Conselho Federal de Medicina (CFM):

O Conselho  Regional  de Medicina do  Estado de São Paulo (Cremesp) discorda do protocolo assinado no dia 14 de fevereiro pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e  pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), que aborda o relacionamento entre os médicos e a indústria de medicamentos.

Conforme deliberação da Sessão Plenária de 23/02/2012, os conselheiros do Cremesp encaminharam ao CFM as seguintes considerações:

1. O acordo representa um retrocesso ao sedimentar  práticas que são eticamente inaceitáveis. Dentre outras distorções, o documento autoriza o recebimento pelos médicos de presentes e brindes oferecidos pelas empresas farmacêuticas, estipulando valores e periodicidade de difícil aferição; autoriza o patrocínio de viagens e participações em congressos e eventos sem apontar os critérios para escolha dos médicos beneficiados; submete os médicos a propagandistas de laboratórios visando, inclusive,  o registro de efeitos adversos de medicamentos, tema de relevância sanitária que requer  total autonomia profissional.

2. É inadequada a parceria entre um órgão federal julgador e disciplinador da classe médica e uma  entidade representativa de empresas privadas com interesses particulares nas áreas de Medicina e Saúde. Cabe ao CFM normatizar o exercício ético da profissão e cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regular as práticas das  empresas farmacêuticas na  promoção comercial de medicamentos.

3. O relacionamento entre médicos e farmacêuticas pode influenciar, de forma negativa ou desnecessária, as prescrições de medicamentos e as decisões de tratamento.  Os  gastos com ações dirigidas aos médicos  são repassados ao preço final dos medicamentos e têm impacto no bolso dos cidadãos e nos custos do sistema de saúde. Nenhum fator deve impedir que as prescrições sejam  decididas pelos médicos exclusivamente de acordo com as credenciais científicas dos medicamentos e as necessidades de saúde dos pacientes.

4. O Cremesp solicita ao CFM que seja reaberta a discussão sobre a necessidade de revisão e de aprimoramento das normas éticas que envolvam a relação entre médicos e indústria farmacêutica.

“O acordo estará em constante aperfeiçoamento”, justifica o CFM ao Viomundo. “As sugestões do Cremesp serão avaliadas  por  comissão do CFM que trata da relação entre médicos e indústria farmacêutica.”

A preocupação do Cremesp procede. Existem evidências científicas de que mesmo os médicos bem intencionados não conseguem resistir  à influência dos “incentivos” da indústria, como brindes, viagens.

“Como são muitos os interesses econômicos envolvidos, iniciativas de autorregulação tendem a ser ineficazes”, adverte o médico cardiologista Renato Azevedo Jr., presidente do Cremesp.  “Não existem práticas inofensivas. Todas tem um objetivo claro:  tornar os médicos mais propensos a prescrever o medicamento daquela empresa.”

Em 2010, o Cremesp fez uma pesquisa com os médicos dos Estado de São Paulo. Os resultados foram preocupantes:

* 93% dos médicos paulistas afirmaram ter recebido produtos e benefícios da indústria considerados de pequeno valor nos últimos 12 meses;

* 80% recebiam regularmente visita de propagandistas dos laboratórios;

* 33% souberam ou presenciaram recebimento de comissão por indicação de medicamento, órtese e prótese;

* 74% declararam que presenciaram ou receberam alguns benefícios da indústria ainda durante os seis anos do curso de Medicina.

“Hoje uma parte dos médicos não vê tantos problemas éticos na relação com a indústria, pois alegam a contribuição dessas empresas com a atualização científica. Isso vem desde a graduação”, observa Renato Azevedo. “É uma cultura que precisa ser mudada.”

Na prática, é um acordo que junta sob o mesmo teto lobos e ovelhas. São interessantes conflitantes.

“Um conselho de Medicina tem a função de fiscalizar o exercício profissional e, para julgar os médicos que cometem infrações éticas, precisa estar acima de qualquer conflito de interesses”, acrescenta Azevedo. “Logo, não é correta nem adequada uma parceria com entidade que representa um setor privado lucrativo, que congrega empresas cuja prática nem sempre é permeada por condutas éticas.”

O Cremesp  não está sozinho na condenação dessas práticas. Na pesquisa realizada pelo Conselho  em 2010 mais de 30% dos médicos achavam que há abusos e defendiam regulamentação ética mais rigorosa. Movimentos de médicos em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná também isso.

Troféu Rei de Copas – Edson Celulari!

26 Set

Olha que babaca: merece um troféu duplo a figura:

 

EDSON CELULARI USA VAGA EXCLUSIVA PARA DEFICIENTES FÍSICOS EM ESTACIONAMENTO DE SHOPPING

 

Foto: Alexandre Nolasco

 

 

Antes de visitar a nova namorada, o ator Edson Celulari deu uma passadinha em um shopping da Barra da Tijuca, na tarde de domingo, para comprar um aparelho de som. Ao entrar no shopping, o ator parou em uma vaga exclusiva para deficientes físicos.

 

Foto: Alexandre Nolasco