Tag Archives: Direitos Humanos

Democracia de exceção, a nova política de Marina Silva

2 Set

“O estado de exceção apresenta-se, nessa perspectiva, como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo.” Giorgio Agamben

A banalização do mal, início do processo totalitário, semente do estado de exceção, caracteriza-se pela ausência (intencional) do pensamento, da escolha, da intenção. O objetivo desta ausência é ocasionar uma privação de responsabilidade: pode-se afirmar que o desejo em questão não é seu, que a ordem não é sua, que a vontade não foi por sua escolha. O mal maior é o que reduz as chances dos sem escolha, proferindo uma observação como: eu fiz tudo por conta de uma ordem ou desejo alheio, ou um erro imaterial, mecânico, ou externo.

Quando Marina volta atrás no processo de escolha de programa de governo e indefere os direitos da comunidade LGBT, por conta de 4 ou cinco twitters de pastor evangélico, a quem não citarei o nome aqui, propositadamente, atribuindo este retrocesso a erro externo, ela banaliza o mal causado ao segmento, e mais ainda, banaliza a oposição que ela ajuda estruturar entre orientação sexual e fundamentalismo religioso. Banaliza o perigo desta oposição, banaliza os violados, mortos e agredidos por esta oposição, banaliza os crimes de ódio cometidos em nome dela.

Quem banaliza o mal, a história denuncia, escolhe a lógica de culpar ou responsabilizar uma lógica externa para não necessitar assumir sua responsabilidade nos atos que pratica.Considera-se mera engrenagem, não disputa lado, não defende postura, acha-se conciliador… É o mal que não se coloca frio ou quente, eternamente morno, defendendo a todos, porque todos não tem rosto de ninguém. Marina acusa Dilma de não assumir seus erros, parece haver aí um deslocamento infantil, porque é Marina que não assume os seus: é ela que culpa o erro “material de digitação”, pela sua homofóbica postura ao segmento LGBT, é ela que responsabiliza a “providência divina” pela morte de 7 pessoas (cabalistacamente sete, ela deve ter pensado), para q ela seja indicada candidata. Nesse mundo infanto-messiânico de Marina Silva, em que todos são elite (inclusive Chico Mendes), e todas da elite são educadoras (como a Neca do Itaú), pobres e professores não terão vez, visto os parâmetros que ela impões para sua elite e educadoras: Natura e Itaú, foram quem substituíram a visão ambientalista de Chico Mendes e Paulo Freire, respectivamente.  Tremamos e temamos, pois este mundo, que inclui todos,  excluirá profundamente.

Marina diz não ter preconceito com elites. Nunca, historicamente, Marina, ninguém teve. Teve-se é com pobres, negros, gays, lésbicas, travestis, transsexuais (os LGBT que você acabou de abandonar, aliás), pessoas com deficiência e doenças raras. A elite sempre teve o bom e o melhor. Marina não é a nova política, é a democracia da exceção. A de sempre.

É possível, ainda, que o mal se esconda evitando narrar ou averiguar o verdadeiro sentido de sua ação ou dos acontecimentos ao seu redor. Entender o sentido não se resume em manter-se informado acerca de um tema, ou determinar as causas ou o que foi eficaz. Banalizar o mal é contar pela metade, é se esconder atrás de outros. Numa democracia, submeter as minorias a desejos de plebiscito é contra toda forma de republicanismo, e direitos humanos: a democracia sempre deve se basear também na manifestação da vontade das minorias e no salvaguardar de seus direitos humanos fundamentais. Determinar pena de morte, casamento gay por plebiscito é escolher lavar as mãos como Pilatos. Quem morrerá será o negro, o pobre, quem não casará será quem não concorda com ela. Afinal, minorias são chamadas assim exatamente porque não representam o imaginário narrativo do coletivo. A democracia que não as respeita, vira ditadura da maioria, estado de exceção, pura e simplesmente.

Imagina se o voto das mulheres passasse hoje por um voto popular. Será que ele venceria. Temo, que não, tamanho retrocesso fundamentalista reinante… Hoje, agora?

Marina é a escolha de uma democracia de exceção. Um totalitarismo que eu não quero nem pra mim, nem para meu país.

Adriana Dias

Anúncios

Compromisso, impessoalidade, trajetória

20 Abr

Todos que acompanham a minha trajetória acadêmica sabem da relação dela com Direitos Humanos. Pesquisar neonazismo nunca foi fácil, especialmente porque é um tema que exige certa complexificação teórica, grande extensão de conteúdos disciplinares e muita proteção pessoal. Pouca exposição, evito ao máximo fotos no face, e se surge alguma, é desfocada, e amigos tiram rápido, ou pedem a retirada dela. Algumas pessoas, mesmo sabendo disso, insistira em colocar fotos minhas, como no evento de mulheres, mesmo sabendo que eu correria risco, para aparecer comigo, mesmo indo para lá sem serem convidadas, achando que estar comigo as legitimarias de alguma forma.

Dei muito menos entrevistas do que aparecem na mídia. Pra UNISINOS, pra Galileu, pra Folha, pro Estadão, pra alguns portais, pro Correio Brasiliense. Para outros jornalistas, para a Carta Capital. Mas, volta e meia aparecem entrevistas que eu nunca dei. No começo eu me irritava demais, hoje eu seleciono, MUITO, com quem falo. Porque, na economia da produção das entrevistas e matérias, percebe-se que a grande mídia materializou a profecia de Joseph Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.” Enfim…

Pesquisar neonazismo e ser pessoa com deficiência é se deparar com um universo simbólico duro, aterrorizador, pesado, agonizante. É ser mais forte que tudo isso, e manter a ternura, e continuar lutando. E ter diante de si, compromissos claros. Meu compromisso é com uma vida não fascista. Toda busca de perfeição é fascista. Então, a última coisa que eu quero é ser perfeita. E quero é ser humana, muito humana. Eu nunca gostei dos lordes que não manifestam sensibilidade, que não são capazes de manifestar sentimentos, abalos, inalteráveis como um psicopata diante do próximo projeto de ascensão social ou de assassinato em massa. Para mim, quem cientista social nasceu para ser MUITO crítico, se não é vá ser outra coisa. Nós temos a obrigação de denunciar o mundo, senão, quem o fará?

E por isso sou extremamente exigente quando a questão são direitos. Acredito-os inegociáveis. Por isso, jamais elegeria uma pessoa que aceitasse negociar direitos, jamais votaria em alguém que flexibilizasse qualquer regra que garantisse direitos humanos, em troca de crescer no partido ou de receber cargos.

Em segundo lugar, não sou deslumbrada com cargos. Passo em concursos públicos. Acho que o ocupante de um cargo de comissão deve em primeiro lugar servir ao povo. Claro, que ele deve ter um salário decente, não absurdo, milionário, de modo que ele se distancie da realidade do segmento. Claro que ele não deve ficar deslumbrado com o cargo, e usar dele, apenas para pensar no próximo cargo, e novamente, fazer acordos, porque a ele interessa apenas as vantagens pessoais. O governante deve servir o povo. Não ao sistema aristocrata.

Em terceiro lugar, qualquer político deve ter LADO. Democracia se faz com lados. Há os que acham a fome natural, há os que acham ela aberração. Há os progressistas e os reacionários. Há os machistas e os homofóbicos e os libertários.  Há os acham a exclusão das pessoas com deficiência uma aberração, como eu, e você, que me lêem, aos que usam esta exclusão para garantir um cargo e uma cadeira de rodas de quase trinta mil reais, enquanto as crianças em cadeiras de rodas na prefeitura de São Paulo não conseguem acessibilidade nas escolas da prefeitura. E lógico, que ele não move um centímetro da cadeira caríssima para ajudar nisso. Como eu disse, democracia tem LADO, desconfie, muito, se alguém parece imparcial demais, tirando fotos com todos os partidos possíveis. Quer dizer apenas, que ele espera ganhar sempre.

Isto posto, respondendo ao que me perguntaram sobre uma determinada foto, eu NUNCA apoiaria alguém como TUCA MUNHOZ a candidato nem para síndico de prédio.