Tag Archives: lindezas

Presentinho

20 Abr

Oi queridos, que acham de ter um jogo de cartas de Alice? Dá para jogar, usar em Scrap, enfeitar objetos, colar em cartas e cadernos.

Pegue o seu aqui.

Grande dia de Guimarães: as rosas

27 Jun

“Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam – o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim.”
Grande Sertão: veredas
Guimarães Rosa

O sertão está em toda parte, escreveu o grande Rosa, e quem já viveu no sertão traz aridez na alma, solidão nas entranhas. assim sou, a Alice. Hoje, 27 de junho, faz 104 anos do nascimento de Guimarães Rosa. Um dos grandes autores brasileiros, desses que a gente lê com a carne, com a alma em paixão, quem nunca amou, quem nuca sentiu a perda do juízo, o medo, não entende Guimarães, nem se atreva. Todos os textos destacados são do grande Guimarães…

Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta  a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, — se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…  

Minha mãe era do Nordeste, do Sertão, eu trago a seca de perto nesta certeza de que a felicidade é efêmera, de que a tragédia está perto, que o mundo vai faltar sob os pés…

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

Uma maneira  nordestina de rever Sócrates.

O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, e às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.   

Mire e veja talvez seja o que há de mais bonito na nossa língua…

Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! Só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?  

Mire  veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre pôr arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?  O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte pôr demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Pôr gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo mundo carece disso. Eu acho, que.  No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar pôr exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…  

Isso, mas totalmente as vezes. Ao que, digo ao senhor, pergunto: em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo, as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram — pelo pulo fino de sem ver se dar — a sorte momenteira, pôr cabelo pôr um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. As vezes essa idéia me põe susto.

Eu custava muito para me levantar; não pôr fraca saúde, mas pôr preguiça mal corrigida. A bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância narrável.  O senhor sabe?: não acerto no contar, porque estou remexendo o vivido longe alto, com pouco caroço, querendo esquentar, demear, de feito, meu coração, naquelas lembranças. Ou quero enfiar a idéia, achar o rumozinho forte das coisas, caminho do que houve e do que não houve. As vezes não é fácil. Fé que não é.  

Antes o que me atanazava, a mor — disso crio razoável lembrança — era o significado que eu não achava lá, no meio onde eu estava obrigado, naquele grau de gente.  Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas — de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.  Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados… Como é que posso com este mundo?

A vida é ingrata no macio de si, mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que este mundo é muito misturado…  Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Êh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo.    

Beijos coloridos em todos!