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Tem sempre um Joaquim

23 Jun

Hoje eu estréio uma nova forma de falar de literatura aqui no blog. Vou fazer a literatura falar conosco, enquanto falo com ela, enquanto ela fala entre si. Começo uma nova arte aliciana, e a categoria se chama perguntas da Alice. Ela vai interrogar personagens, de livros, poesias, teatro, cinema, em busca de suas respostas, para questões nosense, e ao mesmo tempo absolutamente essenciais. Porque sentido é antes, de tudo, um viés pessoal. Tem quem veja sentindo em bombas, ela prefere ver sentido em chapeleiros malucos. E eu continuo com ela. Sempre.

A primeira pergunta é antiga, quanto eu sou antiga. Vem de um poema que me impressionou sempre, desde pequena. Quadrilha de Drummond. Impressiona-me quanto tem nesse pequeno poema sobre o desamor do mundo. E sobre a busca que o próprio poeta afirmou ser a nossa única ávida esperança:a de mais e mais amor. Vamos a ele.

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Há quatro homens. Três mulheres. Na primeira parte, o amor está em pretérito imperfeito. O tempo adequado aos amores frustados, sem troca, imaginários, platônicos. O tempo adequado aos amores que foram interrompidos, abortados, surtados, alucinados, temidos, discutidos, destratados, descuidados, desmerecidos, infudados, lacrimegados, desesperados, analisados, terapeutizados, medicalizados, deprimidos, sufocados, abatidos enquanto ainda selvagens, ignorados. O tempo adequado aos amores de João, de Teresa, de Raimundo, de Maria, de Joaquim.

Apenas Lili não conhece a dor do amor. Não ama ninguém.

Apenas João não é amado por ninguém. Vai pros Estados Unidos.

Teresa, seu objeto amado vai pro convento, quando perde a ambos, João e Raimundo. João porque vai embora e Raimundo porque morre.

Maria perde quem a amou num desastre, e na falta de Joaquim que não tira os olhos do desamor, ou de seu nome feito mulher, Lili, fica para titia.

Joaquim se suicida.

Lili casa, enfim, ou antes, com J. Pinto Fernandes ( a nobre elite, ah a nobre elite), que não tinha entrado na história dos seis anteriormente. Na segunda parte, os verbos no pretérito perfeito do indicativo, quase batendo na nossa cara que as ações são sem volta. Que o tempo, esse não volta, nem para, nem teme, nem perdoa. Nessa hora, Mia Couto grita com Alice ( e com Drummond) o bom do caminho é que tem volta! Quem não tem volta é o tempo. Teresa pode sair do convento. Hoje os tempos são outros. Mesmo lá. Maria, pode achar um novo amor, esquecer Joaquim e deixar de ser só titia. Ah, mas pode mesmo, Maria! Lili pode cansar da vida de J.Pinto Fenrandes e procurar a vida de N. Car(v)alho Alburqueque. Para as mulheres, o tempo de Drummond parece ser não o fim, mas um presente, da qual se livrariam, com dor e/ou empenho, mas se livrariam.

Mas, os homens da quadrilha!!!??? ❤ Um foi pros EUA. Migrante. Talvez tenha trabalhado 12 horas por dia, e sustente alguma família por lá, o João, que nunca foi amado. Ou virou o capitalista da hora, para voltar como um futuro J. Pinto Fernandes… e ter a sua Lili garantida…

Raimundo morreu. Esse só volta se tiver volta. Na incerteza, esqueçamos Raimundo.

Sobra a entender Joaquim. Tem sempre um Joaquim.

O homem disposto a morrer de amor. Pela Lili, lembrem-se, mulheres, a que não ama ninguém. Ele nunca vai lembrar da Maria. Ele morre de amores é pela falta. Pelo vazio que Lili lhe dá, pelo desafio, pelo desespero. Joaquim é o mistério da literatura drummondiana. E da vida humana.

Um poeta, talvez tão desesperado em enteder a quadrilha, como eu, escreveu um texto belíssimo. Chama-se os três mal-mados, em que ele se coloca nas vozes de João, Raimundo e Joaquim. João Cabral de Melo Neto utiliza de toda sua perfeição poética para descrever o que motivava esses homens. Ao falar de João e Raiumundo ele cita as outras moças. João fala de Tereza. Raimundo de Maria. Joaquim não fala mais de Lili. Ele fala do amor. Do amor que antropófago comeu a ele, com tudo que ele tinha. Do amor que o comeu de amor sem volta.

Raimundo fala de Tereza: Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado – presenças precisas e inalteráveis, opostas a minha fuga.

Mas, nada dói mais que ler o texto de Joaquim. Partes como: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. […] O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. 

Essas partes, eu sublinho, risco, rasgo, diminuo, negrito, itálico, aumento, sofro junto.  Quero bater em Joaquim para ver se ele acorda antes do suicídio. Quero acreditar que o suicídio de Joaquim é uma metáfora do poeta. Tem sempre um Joaquim.

Tem o Paulo Autran recitando:


Uma interpretação belíssima da fala de Joaquim, por Cordel de Fogo Encantado, apaixonou a Alice:

 

 

Os Três Mal-Amados (1943) João Cabral de Melo Neto vc encontra inteiro, aqui, no blog. E no antigo, aqui. 

Tem é tempo que eu quero perguntar isso sobre o Joaquim.  Porque Joaquim, amar quem não ama ninguém? Porque tanto ódio de si, do amor, porque desviver assim? João tem suas dúvidas, vai embora, Raimundo suas certezas, morre. Joaquim não tem nada. O social, a elite, os J.P.F. que nunca entram em nenhuma história é que levam sempre tudo. Joaquim é o amor morto, sem RG e exame de urina, sem poesia e sem nome. Porque o impossível, Joaquim? É, tem sempre um Joaquim.

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Para pesquisadores do livro de Carrol

20 Set

Aprofundando o tema.

Baixe aqui.

#006 Ela tem versões e versões e mais versões em cine!

21 Jul

Uma história, se é fascinante, será filmada.

Uma história, se é fascinante, será filmada. Se é incrivelmente fascinate, adoravelmente inquietante, e se fala com pessoas de todas as idade, sem uso de moral de forma idiota, e descortina perguntas verdadeiramente interessantes, vai ser filmada, filmada e filmada. Essa é Alice.

Vamos olhar um pouco da filmografia? Já falei um pouco de alguns filmes aqui. Mas, hj falo mais.

Dirigido por W.W. Young e estrelado por Viola Savoy no papel de Alice é o meu preferido. É de 1915, e está inteirinho online.

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Este tem mais de cem anos (de 1903), foi dirigido por Cecil Hepworth, e é interessante. É baseado nas ilustrações originais.

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Este é muito legal. Dirigido, em 1933 por Norman Leod.

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E para terminar, o meu queridinho em francês: Alice au pays des merveilles. Com fantoches. Muito lindo! Por  Marc Maurette, Bower Dallas e Louis Bunin

#005 O mundo dela tem um mapa colorido e ilustrado

19 Jul

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Sem mais demora, baixa ele aí!

#004 Ela tem milhares de versões, ilustradores e eu amo isso!

17 Jul

Alice e suas histórias é um dos livros mais traduzidos do mundo. E um dos mais bem ilustrados. Muitos ilustradores fantásticos já encheram meus olhos de felicidade com suas fantásticas interpretações dos personagens que eu mais amo.

Aqui coloco para vocês alguns das capas que mais amooooo, de Alice nas maravilhas.

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A capa número 1, eu procuro um bocado. A número 2, 3, 4, 5 são de livros que eu tenho. A dois é muito linda, a árvore cheia de corações, como se ela demarcasse o reino da rainha de Copas, a três é um livrinho de Disney, tenho a versão em português. A 4, em quadrinhos, de 1950, tb tenho em portugu~es, e foi dureza conseguir, ams achei. e não empresto, nem cedo, nem cesso, nem vendo, nem alugo, nem nenhuma outra coisa. A seis, que é a capa de The Nursey Alice, cuja história vc pode ler clicando aqui, tenho na forma de pdf, e no meu planner life, tipo um caderno. Um dia explico isso.

Os outros tenho em pdf. O único que não tenho de jeito nenhum é o 1. Alicemaníaca, eu? que nada.  Uma hora posto as capas de Alice através do espelho.

#003 Ela tem uma explicação cabalística!

16 Jul

Vocês conhecem o comentário do Dr. Marc Edmund Jones, fundador da Assembleia Sabian, para Alice?

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Cabala, esoterismo e Alice!

“Sabian” vem do hebraico “Sabaoth”, o plural de “exército” como encontrado na frase bíblica “Senhor dos Exércitos” (Romanos 9:29), e os estudos de Marc Edmund Jones juntaram um pouco de tudo isso. Ele é muito conhecido por astrológos que se valem da metodologia de Dane Rudhyar, para interpretar símbolos para graus do mapa astral, para astrologia dita esotérica e médica. O que pouca gente sabe é que o moço amava a Alice também, e interpretou os livros!

Basta clicar aqui para acessar. para ler especificamente o comentário de alice no país das maravilhas, use este link. Para ler os comentários de através do espelho, use este.

#002 Ela foi minha primeira amiga de infância.

14 Jul

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A primeira vez que a gente senta ao lado da irmã da Alice, de sua gatinha Diná, e sonha com ela a queda na toca do Coelho Branco, a primeira vez a gente não esquece.

Eu tinha quatro anos, e meu pai olhou para mim e disse, hoje vou contar para você um dos contos favoritos da sua mãe. Soou como se ele fosse me dar uma sacola cheia de doces, ou me contar um grande segredo de família. o livro chegou assim, como um cumplíce da felicidade materna. Ele pegou um exemplar do livro com grandes figuras, em inglês, todas figuras preto e branco. Aquilo parecia um enigma, um pacto, entre ele e eu.

Ele me mostrou o desenho da garota e disse, Adriana essa é Alice. Muito prazer, Alice, eu disse, quem é você, como se pudesse prever a pergunta da Lagarta…

Meu pai começou a  dizer que um dia, ao lado da irmã, Alice avistou um coelho de colete. Eu ri, imediatamente. Um coelho correndo de coletes. Aquilo me pareceu absolutamente provável, como todo mundo imaginário deve parecer provável às crianças. O coelho retirou do colete um relógio e gritou: Estou muito atrasado.

Tive pena dele, preso no relógio, tal como meu pai e minha mãe. Porque um coelho, ora bolas, estaria atrasado? – perguntou meu pai. E eu respondi: para ir ao jantar de cenouras com a coelha, lembrando das chamadas de minha mãe, na hora do jantar…

Não, respondeu meu pai, solenemente, ele estava atrasado, e a Rainha de Copas poderia castigá-lo. Eu perguntei qual seria o castigo, e meu pai, riscando a garganta com o dedo disse em tom lento e silábico: Cortem a cabeça, gritaria a Rainha. Eu lembrei de Mary Stuart, que sempre povoava a vida em casa, minha mãe e seu mundo britânico, histórias, livros, teatro, tudo ela exigia que a gente soubesse e lesse. A Rainha de Copas é a Lisabeta? – eu perguntei, e meu pai falou, que era parente: uma parente mais antiga, ou mais nova talvez, que eu fosse perguntar a minha mãe, que lógico, a cronologia da coroa inglesa era a paixão dela, não a dele. Mas, uma parente mais brava, mais dura e completamente louca. Olhando sério pro meu pai eu perguntei: porque colocam uma louca no trono da Inglaterra? Era costume da política, ele me respondeu, dando-me a melhor informação sobre Ciência Política de toda minha vida. Os loucos reinam, eu pensei. Nunca vou querer reinar, porque eu não sou louca.

Meu pai ficou em pé, como um valete de copas, ou como o gato na árvore, colocou as mãos na cintura, apontou para um lado e afirmou: lá mora uma Lebre de Março maluca. E mudando de direção, disse e lá vive um chapeleiro louco. Eu sou louco, você é louca. Somos todos loucos aqui. Eu olhei para o meu pai bem séria (eu era dessas crianças muito sérias, mas muito piadistas também, que já tinha operado tanto o corpo e sentido tanta dor, que entendia muito bem o que era uma vida louca) e disse, tá bom, somos loucos todos, uns pelos outros.

Meu pai parou a história, me abraçou e  disse à minha mãe, que preparava bolinhos de chuva  para chover canela neles depois: a Mé (sim, eu era a Mé, meu irmão me chamava assim, e todos copiaram) a Mé é doida por todos nós. Minha mãe chegou com um prato de bolinhos e chuva e groselha gelada. Comemos, rimos, até meu irmão acordar e vir participar também. Todos os quatros, rindo, da nossa loucura. Confortados por bolinhos de chuva com canela e groselha coloridíssima, que enchia de cor as ilustrações em preto e branco do livro, que depois eu devoraria (eu lia desde um ano e meio de idade).

Nunca mais eu pude esquecer Alice.  Ela foi minha primeira amiga de infância.