Tag Archives: PcD

Diversidade, definições: por Houaiss

2 Jun

lagarta

DataçãosXIV cf. IVPM

Acepções

■ substantivo feminino

1    qualidade daquilo que é diverso, diferente, variado; variedade
2    conjunto variado; multiplicidade
3    desacordo, contradição, oposição
4    Rubrica: ecologia.
índice que leva em conta a abundância e a equitabilidade de uma comunidade
5    Rubrica: ecologia.
m.q. biodiversidade

Etimologia

lat. diversìtas,átis ‘diversidade, variedade, diferença’; ver ver(t/s)-; f.hist. sXIV diuersidade, sXV diversidade, sXV deversydade

Fonte: bliblioteca UOL. http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=diversidade&stype=k

Gestão da Diversidade

2 Jun

por Adriana Dias

O que é?

Gestão da diversidade é o nome que se dá a gestão corporativa, inclusiva, que respeita identidades de diferentes trajetórias, incluindo origens étnicas e religiosas diversas, respeitando diferenças geracionais, de gênero, de orientação sexual, e a presença de deficiências e de doenças raras.

Por que abraçar?

Existem dois motivos cruciais para que as organizações abracem o modelo de gestão de diversidade, em sua vida corporativa: e, primeiro lugar, num mundo globalizado, esta é a única forma de espelhar as o ambiente diverso do mundo, em sua própria força de trabalho, contemplando pessoas de origens étnicas e religiosas diversas, respeitando diferenças geracionais, de gênero, de orientação sexual, a presença de deficiências e de doenças raras, apreendendo melhor a imensidão de sentidos em que todos estamos imersos. Em segundo lugar, uma organização que se fundamenta na gestão da diversidade, como alicerce de sua vida corporativa, se direciona para uma crescente melhora de clima organizacional, por desenvolver uma cultura inclusiva, melhorando a satisfação dos funcionários, e, portanto, sua produtividade. No caso das organizações públicas, a isto se soma um terceiro elemento, importantíssimo: o exemplo estatal, que sempre de fortalecer a inclusão social e a cidadania.

Outras definições

Christa L. Walck, dentro da perspectiva culturalista definiu a gestão da diversidade como “a negociação e a interação entre grupos culturalmente diversos, para conviver em um ambiente caracterizado pela diversidade cultural”. A idéia é a permanente negociação fundada no respeito às diferenças e na aceitação da fragilidade dos grupos menos numerosos.

Em um artigo de jornal intitulado A organização multicultural, Taylor Cox Jr., fala sobre três tipos organização, levando em conta sua absorção da diversidade: a organização monolítica, a organização plural, e a organização multicultural.

Na organização monolítica, a quantidade de integração estrutural (a presença de pessoas de diferentes grupos culturais em uma única organização) é mínima. No Brasil, são as instituições conservadoras, com presença marcante de integrantes do sexo masculino, poucos representantes afrodescendentes (pela baixa escolarização, ainda fruto da dívida social), ou de pessoas com deficiência e pessoas com doenças raras. Não inclusivas, essas organizações costumam ver estas pessoas como “problemas” e as necessidades de acessibilidade dos dois últimos grupos citados, como um custo, não como investimento. Não cumprem leis e a própria Convenção das Pessoas com Deficiência, embora com status de Emenda Constitucional, é absolutamente ignorada, ou não totalmente respeitada.

A organização plural tem uma composição mais heterogênea do que a organização monolítica e adota medidas para ser mais inclusiva de pessoas de origens culturais que diferem do grupo dominante. São as organizações que, até por força de lei – a exemplo da denominada lei de cotas, estão organizando uma força de trabalho mais diversa.

A organização multicultural não só contém muitos diferentes grupos culturais, mas os valores dessa diversidade. Elas espelham realmente a sociedade em que estão inseridas, respeitando as pessoas e seus colaboradores em seus valores humanos. Além disso, a empresa se torna socialmente mais responsável, contribuindo para uma cultura de paz, auxiliando no combate de estereótipos e discriminações.

O que se ganha?

Diversidade desenvolve maior criatividade e inovação, o que leva ao incremento de produtos aprimorados e de marketing mais bem-sucedido para diferentes tipos de clientes. Simplesmente reconhecer a diversidade auxilia a conectar a multiplicidade de talentos dentro da organização. A diversidade também oferece às organizações a capacidade de competir nos mercados globais.

Outros benefícios

Além dos benefícios citados, a gestão da diversidade, gera menorturn-over; melhor produtividade; diminuição do número de ações trabalhistas; melhora da imagem e reputação corporativa; promovendo o reconhecimento adequado por parte da sociedade.

Referências Bibliográficas

Walck, C. L. (1995). Editor’s Introduction: Diverse Approaches to Managing Diversity.Journal of Applied Behavioral Science, vol. 31, 119-123.

Cox, Jr., Taylor (1991). The Multicultural Organization. Academy of Management Executive, 5(2), 34-47.

A vaia, a pseudo defesa e o indefensável

8 Dez

Em 5 de dezembro passado, aquele que se pretende famoso e indispensável, o na verdade indefensável e medíocre Reinaldo Azevedo dá um exemplo de sua incapacidade de escrever com lucidez acerca de temas que envolvem Direitos Humanos ao opinar acerca da dita vaia recebida pela presidenta Dilma ao se dirigir aos participantes da Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência.

Ele o faz, não por solidariedade ou por razão, mas por  duas razões, ambas absurdas: em primeiro lugar, para posteriormente poder afirmar que em algum momento defendeu a presidenta, de preferência, num momento em que atacá-la por algo extremamente sórdido. Aí ele usará a questão como exemplo de sua IMPARCIALIDADE: vocês sabem que eu já defendi aqui, como no caso da vaia que ela sofreu…

Em segundo lugar o fato é absurdo porque ele nega o direito de uma minoria, a saber a minoria das pessoas com deficiência, de se organizarem num movimento social, e num ato contínuo, terem chegado a, num ato da ONU, a um TRATADO INTERNACIONAL, que define não apenas nomenclaturas, que não existem por caprichos, mas por terem sentidos, significados históricos, e lutas contra modelos eugênicos, nazistas, médicos, que nos eliminavam aos milhares… mas direitos, deveres estatais, e punições para os Estados que não os cumprem.

Obviamente, como tudo que se refere aos Direitos Humanos ele é contra. Mas, não porque ele é imparcial ou racional, mas porque ele desconhece o que seja direito de minoria, direito social, igualdade, solidariedade, justiça.

Pensemos nisto. A presidente se corrigiu em seguida. Ele, jamais se corrigirá. Bjs em todos.

Fechando o mês das crianças

20 Out

Crop Day pelas Crianças Raras

Organização Instituto Baresi e Blog Espelho de Alice

Coloque o coração nestes scraps!

Regras:
Serão selecionados 8 scrapers, preferencialmente de São Paulo capital, (se você for de outro lugar pode se inscrever, sabendo que o Instituto, nem o Blog não se responsabilizam pelo custo de passagens ou estadia).
Cada um dos scrappers receberá, pelo menos, 4 fotos de 2 crianças distintas (pelo menos duas por criança), além de um resumo da história da criança. Ele poderá usar uma ou mais fotos, mas deverá construir pelo menos uma página para cada criança, concorrendo, portanto com 2 páginas. O crop Day acontecerá dia 30 de outubro, domingo, de 14.30 às 17h.
Todo material e ferramentas serão fornecidos pelo Instituto Baresi e pelo Blog Espelho de Alice, com apoio de Patrocinadores.

As páginas pertencerão ao Instituto Baresi e não poderão ser reclamadas posteriormente. Todas as páginas serão fotografadas e disponibilizadas na Internet para votação por, pelo menos, 45 dias. Os scrappers concordam que divulgarão em seus blogs, sites, facebook, twitter, Orkut, ou outras redes sociais que façam parte, e da forma que puderem seu trabalho, sem nenhum custo pra os promotores para ter direito à premiação. Ao divulgar, obrigatoriamente, colocarão a arte do evento, e a chamada do mesmo. Todos concordam em ceder uso da imagem da página e sua imagem, no dia do Crop Day, para divulgação do evento. As páginas ainda serão divulgadas na feira Reatech, expondo o trabalho das scrappers para mais de 20 mil pessoas.

A página mais votada ganhará um super kit de Scrap (veja abaixo a foto do prêmio!).
A segunda e terceira colocada ganharão minikits da Loja Espelho de Alice Scrap’s.

Para se inscrever, deixe até o dia 27 de outubro um comentário em https://espelhodealice.wordpress.com/ no post do evento, faça um post no seu blog/site ou facebook sobre o evento com link para este post  e mande um e-mail para instituto.baresi@gmail.com

Patrocínio: Armazém Criativo e Blog Espelho de Alice. Apoio: Oficina do Papel e Loja Ana Banana

Olhe a foto do Primeiro Prêmio (apenas para as scrappers que apriciparem do crop day presencial!):

Atendendo a pedidos: moradores de fora do Estado de São Paulo, das Comunidades CraftBook e Amigas DSM podem participar a distância, mas precisam fazer a postagem no blog e seguir as outras regras. Vamos lá? Vamos abrir outro concurso paralelo para kit digitais! participem. É a chance de colocar seu coração nos scraps! As scrappers que participarem à distância concorrem com o mesmo prêmio! Como no trabalho à distãncia o materia é por conta das scrappers, basta fazer uma página (com uma ou as duas das fotos q vão receber) e devolver a página pra gente. Mas, tem de

1. Fazer um comentário em https://espelhodealice.wordpress.com/ no post do evento, (se não a gente enlouquece aqui sem saber pra quem enviar as fotos!) 2. faça um post no seu blog/site  ou facebook sobre o evento com link para este post   e 3. mande um e-mail para instituto.baresi@gmail.com!

Mais atualização!

Regras Digital

O que devo fazer?

Um LO com tema: – Para uma criança rara, com amor
A scrapper receberá duas fotos e um texto sobre a criança para servir de inspiração. poderá usar uma ou duas fotos, na composição que preferir. As fotos serão mandadas no dia 30/10.
Podem usar os kits que quiserem, desde que transmitam doçura, superação e esperança.
– Deve ter título caprichado e journaling.

Onde postar?

Em link a ser indicado no blog Espelho de Alice, depois do dia 03 de novembro. As páginas serão expostas para votação. A primeira colocada além de ajudar nossas crianças, ganha um VALE PRESENTE DO ARMAZÉM CRIATIVO de R$ 30,00 e um mimo do Blog Espelho de Alice!

Até o dia 29/10, faça sua inscrição!:
1. Fazer um comentário em https://espelhodealice.wordpress.com/ no post do evento, (se não a gente enlouquece aqui sem saber pra quem enviar as fotos!) 2. faça um post no seu blog/site ou facebook sobre o evento com link para este post e 3. mande um e-mail para instituto.baresi@gmail.com!

O CENSO 2010 e as pessoas com deficiência

2 Jun

Segundo o último Censo do IBGE, haveria no Brasil uma população total de  190 755 799 pessoas. Destas, 23,92 % teriam pelo menos uma das deficiências investigadas. O número assusta, pois o Censo 2000 apontara apenas 14,5% da população brasileira como afetada por uma das deficiências investigadas. Como alguns grupos já se levantam para interrogar a respeito do porque do aumento, é preciso frisar dois aspectos importantíssimos: o primeiro, é que, obviamente, com os avanços sociais das políticas de inclusão social implantadas pelo governo do presidente LULA é absolutamente impossível que o número de pessoas com deficiência no Brasil, em termos relativos (em porcentagem) possa ter crescido, porque isso representaria uma perda imensa social.

 

Isto posto, como explicar a mudança dos números? Isto se deve ao segundo aspecto: é a primeira vez que o Brasil utiliza uma nova metodologia para pesquisar as deficiências, que foi empregada neste Censo do IBGE 2010, que se valeu de parte do método do Método do Washington Group. (http://www.cdc.gov/nchs/washington_group) metodologia mundial que articula vários países para integrar a forma internacional para organizar e sistematizar dados acerca da deficiência no mundo. O Censo IBGE se valeu desta nova metodologia na aplicação dos formulários da amostra, em que constavam dados a respeito da deficiência e, como foi a primeira vez que esta metodologia foi usada alguns problemas podem ser vislumbrados a um olhar atento:

 

Segundo os dados, entre as pessoas que afirmaram possuir deficiência visual, 0,28% dos brasileiros disseram ter deficiência visual total, ou seja, cegos, 3,18 % possuírem grande dificuldade (a denominada baixa visão) e 15,31 %, relataram “alguma dificuldade”. Aqui, como no Censo anterior aconteceu, obviamente, uma hipervalorização do que seria alguma dificuldade visual. Provavelmente, pessoas com grande grau de miopia ou com outras dificuldades oftalmológicas podem ter feito afirmações que não puderam ser peneiradas pelos recenseadores, inclusive porque se utilizavam, repetimos pela primeira vez da metodologia.

 

Na deficiência auditiva, se afirmaram surdos, 0,18% dos brasileiros (vale lembrar que entre estes uma parte é oralizada e implantada ou implantável, outra é usuária de LIBRAS). Possuem grande dificuldade auditiva, 0,94% dos brasileiros, e “alguma dificuldade” 3,97%.

 

Na deficiência motora, não possuem nenhum movimento, 039% dos brasileiros, enquanto 1,94 se relatam com grande dificuldade motora e 4,63 % com “alguma dificuldade” motora.

 

O Censo registrou a presença de deficiência mental em 1,37% dos brasileiros.

 

Note-se que os números das pessoas com alguma dificuldade motora e auditiva são próximos, ultrapassados em 10% pelos de alguma dificuldade visual, o que, de fato apenas confirma a hipervalorização deste segmento, demonstrando, mais uma vez,  equívoco na aplicação da metodologia.

 

Infelizmente, ainda, a implantação da metodologia não foi suficiente para determinar números essenciais para o segmento e para implantação de políticas públicas específicas, não determinando o número de pessoas com deficiência mental leve e severa, surdos-cegos, pessoas com deficiência múltipla e pessoas com deficiência causadas por doenças raras. Estas permanecem como estimativas baseadas em padrões internacionais.

 

Adriana Dias

Coordenadora do Comitê Permanente de Deficiência e Acessibilidade da Associação Brasileira de Antropologia

Mestre e doutoranda em Antropologia Social/UNICAMP

 

Aos seis anos

24 Maio

Ontem, quando eu defendia no Twitter, mais uma vez  a escola inclusiva, destacando um príncipio fundamental da declaração de Salamanca, o principio de que, na escola inclusiva, todas as crianças devem aprender juntas, um professor me respondeu que eu tentasse  explicar isso para uma criança de seis anos. Pensei na hora na única resposta que acho possível, mas não respondi por considerar que poderia ser tido apenas como uma respsota agressiva. Na verdade, acredito que quem não se acha capaz disso nem devia TENTAR ensinar.

A idéia da escola inclusiva é por fim, de uma vez por todas, nas organizações que absorvem verbas públicas, aos milhões, longe da lógica da escola pública, e portanto, longe do controle estatal. Pensar uma escola segregada, fundamentando isto numa necessidade especial de educação, quer validada pela experiência da surdez, ou por qualquer outra é uma verdadeira afronta ao modelo de sociedade, solidário, que desejo para as futuras gerações.

É verdade que a LIBRAS é determinante na apreensão do mundo do surdo, permitindo uma tradução muito específica da realidade. Sim, é. Mas, isto não cria a Surdolândia, nem a LIBRASlandia. Pois a paralisia cerebral também é determinante neste sentido, o autismo e a síndrome de down, com seus aspectos cognitivos específicos também. Isso, apenas para dar mais três exemplos. Se justificarmos pelo aspecto culturalista, teremos que criar escolas específicas para cada modelo de apreensão de mundo. Ganhariam apenas os surdos, por estarem mais mobilizados, neste sentido, tendo como aliados os partidos neo-liberais?

Na verdade, para além do debate se há ou não cultura surda, e como esta não dá conta, e não dá mesmo, dos recortes de classe, gênero, étnicos e de orientação sexual, está o que desejamos para a sociedade brasileira. Porque esta deve ser a diretriz definitiva para pensarmos a escola que necessitamos. Não há homogeneidade no mundo, nem no mundo surdo, nem nos mundos possíveis pelas escolas que fragmentam seu público-alvo.

Quando decidimos aparelhar a escola pública com salas bilíngües, com salas de recurso (e eu tenho algumas críticas à forma que esta implantação tem se dado), com melhores recursos audio-visuais, não organizamos uma escola melhor para esta ou aquela dificuldade. Possibilitamos, na verdade, uma escola melhor para todos.  Ao permitimos que a diversidade humana  esteja presente na vida escolar, e realizamos, paralelamente a isto um trabalho educacional verdadeiramente inclusivo, aprenderemos tudo o que é necessário para viver em sociedade, aos seis anos de idade.

O aprendizado, então,  se dará de modo que a escola se torne o que Vygotsky denominou  zona de aproximação proximal, um espaço no qual a relação com o outro é determinante no aprendizado como facilitador. Claro que isto exigirá tempo recursos e treinamento. Por isto mesmo, não há como dividir recursos desta proposta para outras diferentes. O dinheiro público só pode ser investido nesta proposta.

Se há outros desejos, que se busquem outros caminhos. Precisamos escolher o que é importante para nós, e deixamos toda possibilidade de formação de guetos no passado.

Sobre o modelo social da surdez

20 Maio
por Anahi Guedes de Mello, sexta, 20 de maio de 2011 às 16:27

“[…] Em relação aos expostos sobre o universo da surdez, o capítulo sobre O Impacto do Conceito de Cultura no Conceito de Homem (GEERTZ, 1989) pode ser usado para trabalhar o conceito de cultura na perspectiva da surdez, e entender de que maneira se pode interpretar esta idéia de “Cultura Surda” desde um ponto de vista antropológico e, por outro lado, até que ponto esta idéia por parte do coletivo de pessoas surdas pode ser tomada desta maneira. Como podemos pensar a noção do biológico, do psicológico, do social e do cultural no caso da surdez? Afinal, como brilhantemente escreve Geertz:

Whitehead uma vez ofereceu às ciências naturais a máxima “Procure a simplicidade, mas desconfie dela”; para as ciências sociais ele poderia ter oferecido “Procure a complexidade e ordene-a.”  O estudo da cultura se tem desenvolvido, sem dúvida, como se essa máxima fosse seguida. A ascensão de uma concepção científica da cultura significava, ou pelo menos estava ligada a, a derrubada da visão da natureza humana dominante no iluminismo. […] A  perspectiva iluminista do homem era, naturalmente, a de que ele constituía uma só peça com a natureza e partilhava da uniformidade geral de composição que a ciência natural havia descoberto sob o incitamento de Bacon e a orientação de Newton. […] Meu ponto de vista, que deve ser claro e, espero logo se tornará ainda mais claro, não é que não existam generalizações que possam ser feitas sobre o homem como homem, além de que ele é um animal muito variado, ou de que o estudo da cultura nada tem a contribuir para a descoberta de tais generalizações. (GEERTZ, 1989: 45-46; 52)

Com base nesses argumentos de Geertz, todas as concepções que justificaram a existência de uma cultura surda, centrando-se na existência de uma língua materna dos surdos, a língua de sinais, não serve. Não serve porque esse conceito de cultura surda leva implícita a idéia de exclusão, de gueto. Em outras palavras, a sociedade em seu conjunto deve reconhecer e aceitar a existência de uma cultura dentro da cultura sem que esse esforço tenha uma contrapartida. Quer dizer, os ouvintes devem compreender, aceitar e adaptar-se às necessidades lingüísticas dos surdos, mas não vice-versa. Neste sentido, mesmo que o modelo social da deficiência surja como uma contrapartida ao modelo médico, assinalando que a deficiência é um fenômeno social e faz dela o foco da defesa de direitos humanos, o “Orgulho Surdo” me parece incômodo porque a teoria antropológico-cultural da surdez se reivindica como a mais extrema do modelo social da deficiência, já que parece partir de um “estado de natureza”, em que a condição física da surdez implica, por si só, um status social irredutível. Outrossim, concordo com alguém quando me disse que a surdez desvia o indivíduo surdo da cultura generalizada e o induz a um comportamento que tem, por conseqüência, uma característica cultural própria. Mas daí a dizer que a surdez é um fenômeno cultural existe uma distância intransponível. É querer admitir que o surdo traga dentro de si a semente da cultura surda. Para que isso fosse verdade, todos os surdos deveriam nascer sem o aparelho auditivo, nem os lobos temporais, não sendo, portanto, biologicamente programados para ouvir.

O modelo social tem cumprido seu rol de despertar a consciência de uma sociedade que leve em conta as diferenças desde a perspectiva da deficiência, mas, por outro lado, também não se pode cair no extremo oposto do modelo médico ao se negar o corpo e a base biológica de uma realidade que faz das pessoas com deficiência diferentes. Assim, no caso dos surdos, um ouvido que não escuta é um sentido que falta. Isso é claramente uma deficiência, ainda que a pessoa tenha outras formas de escutar ou compensar a falta de audição. Se antes falávamos do surdo ideal – aquele que fala, hoje pensamos ainda no modelo ideal – aquele surdo que se comunica pela língua de sinais. Dizer que é somente uma diferença não é um eufemismo? Admitir que temos uma deficiência auditiva, ou qualquer outra, não importa, não significa admitir que somos menos nem que não nos sentimos completos. A essência de sermos seres humanos, nossa dignidade, não se vê diminuída se temos menos membros, órgãos ou funções biológicas, ou ainda se nosso corpo funciona de maneira deficiente. Não devemos confundir o ser com o ter porque o corpo e o biológico estão no campo do ter, não do ser, e certamente interage com os planos psicológico, sociológico e cultural. Não há lógica na vida humana. E se há, é sempre retrospectiva, nunca prospectiva. Até mesmo porque a condição de ser pessoa com deficiência, como acontece com os demais grupos minoritários, é a de quem clama por superar-se.”

In.: MELLO, Anahi G. O modelo social da surdez: um caminho para a surdolândia? Mosaico Social – Revista do Curso de Graduação em Ciências Sociais da UFSC, Florianópolis: Fundação Boiteux, nº 3, ano 3, dez. 2006. p. 55-75.