Tag Archives: PcD

Sobre o modelo social da surdez

20 Maio
por Anahi Guedes de Mello, sexta, 20 de maio de 2011 às 16:27

“[…] Em relação aos expostos sobre o universo da surdez, o capítulo sobre O Impacto do Conceito de Cultura no Conceito de Homem (GEERTZ, 1989) pode ser usado para trabalhar o conceito de cultura na perspectiva da surdez, e entender de que maneira se pode interpretar esta idéia de “Cultura Surda” desde um ponto de vista antropológico e, por outro lado, até que ponto esta idéia por parte do coletivo de pessoas surdas pode ser tomada desta maneira. Como podemos pensar a noção do biológico, do psicológico, do social e do cultural no caso da surdez? Afinal, como brilhantemente escreve Geertz:

Whitehead uma vez ofereceu às ciências naturais a máxima “Procure a simplicidade, mas desconfie dela”; para as ciências sociais ele poderia ter oferecido “Procure a complexidade e ordene-a.”  O estudo da cultura se tem desenvolvido, sem dúvida, como se essa máxima fosse seguida. A ascensão de uma concepção científica da cultura significava, ou pelo menos estava ligada a, a derrubada da visão da natureza humana dominante no iluminismo. […] A  perspectiva iluminista do homem era, naturalmente, a de que ele constituía uma só peça com a natureza e partilhava da uniformidade geral de composição que a ciência natural havia descoberto sob o incitamento de Bacon e a orientação de Newton. […] Meu ponto de vista, que deve ser claro e, espero logo se tornará ainda mais claro, não é que não existam generalizações que possam ser feitas sobre o homem como homem, além de que ele é um animal muito variado, ou de que o estudo da cultura nada tem a contribuir para a descoberta de tais generalizações. (GEERTZ, 1989: 45-46; 52)

Com base nesses argumentos de Geertz, todas as concepções que justificaram a existência de uma cultura surda, centrando-se na existência de uma língua materna dos surdos, a língua de sinais, não serve. Não serve porque esse conceito de cultura surda leva implícita a idéia de exclusão, de gueto. Em outras palavras, a sociedade em seu conjunto deve reconhecer e aceitar a existência de uma cultura dentro da cultura sem que esse esforço tenha uma contrapartida. Quer dizer, os ouvintes devem compreender, aceitar e adaptar-se às necessidades lingüísticas dos surdos, mas não vice-versa. Neste sentido, mesmo que o modelo social da deficiência surja como uma contrapartida ao modelo médico, assinalando que a deficiência é um fenômeno social e faz dela o foco da defesa de direitos humanos, o “Orgulho Surdo” me parece incômodo porque a teoria antropológico-cultural da surdez se reivindica como a mais extrema do modelo social da deficiência, já que parece partir de um “estado de natureza”, em que a condição física da surdez implica, por si só, um status social irredutível. Outrossim, concordo com alguém quando me disse que a surdez desvia o indivíduo surdo da cultura generalizada e o induz a um comportamento que tem, por conseqüência, uma característica cultural própria. Mas daí a dizer que a surdez é um fenômeno cultural existe uma distância intransponível. É querer admitir que o surdo traga dentro de si a semente da cultura surda. Para que isso fosse verdade, todos os surdos deveriam nascer sem o aparelho auditivo, nem os lobos temporais, não sendo, portanto, biologicamente programados para ouvir.

O modelo social tem cumprido seu rol de despertar a consciência de uma sociedade que leve em conta as diferenças desde a perspectiva da deficiência, mas, por outro lado, também não se pode cair no extremo oposto do modelo médico ao se negar o corpo e a base biológica de uma realidade que faz das pessoas com deficiência diferentes. Assim, no caso dos surdos, um ouvido que não escuta é um sentido que falta. Isso é claramente uma deficiência, ainda que a pessoa tenha outras formas de escutar ou compensar a falta de audição. Se antes falávamos do surdo ideal – aquele que fala, hoje pensamos ainda no modelo ideal – aquele surdo que se comunica pela língua de sinais. Dizer que é somente uma diferença não é um eufemismo? Admitir que temos uma deficiência auditiva, ou qualquer outra, não importa, não significa admitir que somos menos nem que não nos sentimos completos. A essência de sermos seres humanos, nossa dignidade, não se vê diminuída se temos menos membros, órgãos ou funções biológicas, ou ainda se nosso corpo funciona de maneira deficiente. Não devemos confundir o ser com o ter porque o corpo e o biológico estão no campo do ter, não do ser, e certamente interage com os planos psicológico, sociológico e cultural. Não há lógica na vida humana. E se há, é sempre retrospectiva, nunca prospectiva. Até mesmo porque a condição de ser pessoa com deficiência, como acontece com os demais grupos minoritários, é a de quem clama por superar-se.”

In.: MELLO, Anahi G. O modelo social da surdez: um caminho para a surdolândia? Mosaico Social – Revista do Curso de Graduação em Ciências Sociais da UFSC, Florianópolis: Fundação Boiteux, nº 3, ano 3, dez. 2006. p. 55-75.

O que é a concepção antropológico-cultural da surdez?

20 Maio

A concepção antropológico-cultural da surdez é uma corrente que prega não ser a surdez uma deficiência, constituindo-se numa variação natural do ser humano como ser loiro, alto, baixo, mulher ou homem. É a negação de norma em seu sentido mais amplo. Todos os aspectos que caracterizam o ser humano como tal podem constituir-se em deficiência, quando, pelo excesso ou pela falta alteram as funções básicas de um ser humano “normal”. Em outras palavras, se temos olhos, é para ver, se temos ouvidos, é para escutar, se temos pernas, é para caminhar. Assim, a cegueira, a paraplegia, a paralisia cerebral e a surdez são claras deficiências e devem ser prevenidas e suas funções restituídas, sempre que possível e, principalmente, sempre que for viável. O excesso de altura pode ser uma deficiência, da mesma forma que a falta dela é conhecida como nanismo. A coisa é tão complexa que a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidades, Incapacidades e Saúde), da OMS (Organização Mundial de Saúde) teve que catalogar, característica a característica, as funções normais de um ser humano para poder definir o que se considera como deficiência.

Meu medo é que, via proselitismo entre as pessoas com deficiência, essa torpeza de pensamento atinja as instituições que lidam com as demais deficiências, influenciando educadores, pais e profissionais da reabilitação como os fonoaudiólogos, psicólogos, médicos, etc. Essas pessoas não compreendem que excluir é muito mais fácil que incluir e que é muito mais barato para a sociedade como um todo comprar um território e mandar todos os surdos para lá, fundando a Surdolândia. Eles estão, no fundo, querendo que se volte aos lazaretos.

A visão antropológico-cultural da surdez, ao contrário, coloca os ouvintes e os surdos em posição antagônica, exaltando os surdos a rebelarem-se e constituírem sociedade própria, com valores próprios, saindo, como eles mesmos dizem, “do julgo dos ouvintes e do ouvintismo”. Como se não bastasse, essas pessoas praticam proselitismo declarado, num nanismo às avessas, com teses que em nada deixam a desejar ao autor de Mein Kampf, Adolf Hitler. Leiam, pois, com muito cuidado o que os seguidores dessa corrente pregam e façam uma discussão universal a respeito. Façam-no, porém, com espírito crítico.

Análise do Filme “O Enigma de Kaspar Hauser”

18 Maio

Sob a ótica das teorias de Piaget e Vygotsky

“Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa.”   Vigotsky 

Sob a Luz de Piaget

Kaspar não falava quando foi encontrado;  pensa que o único lugar agradável no mundo é sua cama e que sua aparição no mundo foi “uma queda dura”. Seu comportamento de não falar é instintivo; ele nasceu como é, completo. Não pode construir a etapa da linguagem, e sua “mudez” uma defesa, enquanto o processo de assimilação e acomodação se estrutura, já que foi necessário uma nova adaptação, ao meio, quando foi encontrado. Seu comportamento, apesar de uma determinação genética, não encontrou no meio o material necessário à aprendizagem e ao desenvolvimento. Kaspar acha que seu quarto é maior do que a torre porque ele ao se virar para todos os lados em seu quarto, continua vendo sempre o quarto e no caso da torre não, ao se virar ele não mais a vê. Construir a etapa do operacional formal parece difícil, por sua dificuldade de abstrair. A capacidade de abstrair não encontrou, provavelmente, estímulos na vivência anterior de Kaspar.  As estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos intelectualmente organizam o meio, os esquemas, estão limitadas as possibilidades restritas de interação, mas aptas a generalizar os estímulos, porque ele compara seu quarto à torre.

A assimilação (o processo cognitivo de classificar novos eventos em esquemas pré-existentes), exige a incorporação de elementos do meio externo (torre, chama, cantos) a um esquema ou estrutura conhecidos (compara a torre com o quarto, a chama com a luz – segue com os olhos), os cantos à gritos. Poderíamos afirmar que o processo de assimilação em Kaspar é rápido, criativo, cognitivamente capta o ambiente e o organiza possibilitando, assim, a ampliação de seus esquemas, utilizando-se das as estruturas que já possui. modificação de um esquema ou de uma estrutura em função das particularidades do objeto a ser assimilado. Já a acomodação acontece de modo inusitado, quando, por exemplo, querem provar a Kaspar que uma maçã pararia diante de um obstáculo (o pé de uma pessoa) e Kaspar após ver o que aconteceu  (a maçã não parou) diz que ela foi mais esperta pois pulou o pé da pessoa, criando um novo esquema no qual se possa encaixar o novo estímulo, o novo desafio, ou mesmo modificando a idéia já existente, de que a maçã pararia, de modo que o estímulo possa ser incluído nele. Este momento também permite uma abordagem do conceito de equilíbrio,  pois se esperava que uma situação ocorresse de determinada maneira, e esta não acontece. E Kaspar explica isto a partir do que conhece, transpondo à maçã, um poder e um animismo.

Em Piaget, o pensamento é a maneira da inteligência manifestar-se, sendo que estes se constroem em etapas:

De zero a cerca de dois anos, ou até a aquisição da linguagem, estágio sensório-motor, quando a criança tem uma inteligência essencialmente prática. Uma amostra disto no filme, é o fato de Kaspar repetir as palavras que ouve várias vezes; como um bebê. Além disto, pode-se afirmar que, num primeiro momento, come, dorme não apresenta reações ao mexerem com ele, demonstra um comportamento apático, sem auto-propulsão. Por exemplo, sua sensibilidade aos estímulos sensoriais era tão intensa que podia identificar corretamente as cores na escuridão mais completa. Sob um pedaço de papel ele podia perceber perfeitamente objetos de metal e dizer o que eram e do que eram feitos. Durante o primeiro ano após sua chegada não sabia medir as distâncias nem avaliar a profundidade dos objetos.

De cerca de dois anos a aproximadamente sete anos, estágio pré-operatório. A criança faz leituras incompletas da realidade, prioriza alguns aspectos em detrimento de outros, não estabelece relações e é centrada em si mesma, como quando Kaspar Kaspar diante de uma enorme torre começa a deduzir que quem a construiu era uma pessoa muito grande; estabelescendo relações simples entre o tamanho do ambiente e de seus moradores/construtores, quando repete, provavelmente uma lembrança (?) repete o que viu ao balançar o berço do bebe quando ele chora. Kaspar segura o bebê nos braços e chora falando : mamãe, ninguém aceita Kaspar. Na escuridão da cela, seus sentidos foram aguçados e sua visão lhe permitia ler à noite, por exemplo. O seu sentido de olfato também era aguçadíssimo: chegou a desmaiar de embriaguez a primeira vez que colocaram um copo de cerveja no mesmo recinto em que ele se encontrava.

De cerca de sete anos a cerca de 12 anos, estágio das operações concretas. A criança demonstra sinais de lógica peculiar dos adultos e começa a pensar de forma mais organizada e sistemática. Sobre isto poderíamos citar:  “Kaspar Hauser não dispõe de estereótipos perceptuais, a sociedade de Nurembergue vai impor-lhe a língua como o grande instrumental cognitivo: sem passar pela práxis, Kaspar Hauser deverá conhecer o mundo através da língua. Apesar de explicado pela linguagem, pelas palavras, por signos lingüísticos, enfim, a paisagem em que foi colocado Kaspar Hauser permanece turva e indecifrável. Conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não bastar para dissolver o permanente mistério e a perplexidade do olhar de Kaspar Hauser. Trata-se aqui de uma questão que relaciona língua, pensamento, conhecimento e realidade. Até que ponto o universo dos signos lingüísticos coincide com a realidade ‘extralingüística’ ? Como é possível conhecer tal realidade por meio de signos lingüísticos ? Qual o alcance da língua sobre o pensamento e a cognição ?[1]

De cerca de 12 anos a cerca de 15 anos, estágio das operações formais com pensamento hipotético-dedutivo. Quando a criança realiza tais operações, transita no universo abstrato em que se mostra como a realização material de uma entre as inúmeras possibilidades pensadas. A inteligência de Kaspar mostra dificuldades como estágio forma, e com a dificuldade de abstrair, mas em um dado momento, parece ser capaz, efetivamente de discutir questões abstratas:  não aceita a idéia de religião e questiona a inferioridade das mulheres na sociedade, mas tudo isso com uma ingenuidade de criança. Outro momento, quando se depara com um desafio de lógica: Confrontado com uma charada do encontro de um viajante com um nativo em uma encruzilhada que leva a duas diferentes aldeias. Em uma delas todos são mentirosos e, na outra, ninguém mente. Pergunta-se acerca de como descobrir quem é quem… A resposta de Kaspar Hause foi: existe outra solução. Eu pergunto: o senhor é uma rã verde? Se o nativo disser sim, sei que vem da aldeia dos mentirosos. Se disser não, vem da aldeia dos que falam a verdade. Fez progressos na música. Kaspar expressa melhor no piano o que vai à alma.

Sobre Kasper: De acordo com indicações da época e do conhecimento lingüístico e psicológico contemporâneos, é provável que Kaspar Hauser tenha vivido uma infância normal até a idade de 3 ou 4 anos, momento a partir do qual é submetido a viver em uma cela escura durante aproximadamente 13 anos. Nesta cela, não lhe foi permitido o contato com outros seres humanos e sua alimentação era composta apenas de pão e água que eram deixados na cela enquanto ele dormia. Às vezes, sentia um gosto estranho na água que, posteriormente, o fazia dormir profundamente. Quando acordava percebia que seu cabelo e suas unhas haviam sido cortados e suas roupas trocadas.

Para Piaget, o funcionamento da inteligência está condicionado pelas etapas de desenvolvimento da própria base neurônica do cérebro e pelas experiências com o meio ambiente, e em cada estágio as tentativas de compreensão serão diferentes face ao grau de desenvolvimento progressivo. Quando a deformidade do hemisfério esquerdoé descoberta, cerebelo é maior do que o normal, procura-se demonstrar uma base neurobiológica para explicar Kasper…

Sob a Luz de Vygotsky

Para Piaget, a fala egocêntrica não cumpre nenhuma função verdadeiramente útil; já Vigotsky, acredita que a fala egocêntrica assume um papel definido e importante. Outro ponto de discordância entre os autores refere-se ao desaparecimento ou transformação de fala egocêntrica, pois, Piaget descreve que a fala egocêntrica simplesmente desaparece. Ao contrário de Vigotsky afirma: “a fala egocêntrica não se atrofia simplesmente, mas ‘se esconde’, isto é, transforma-se em fala interior”. Quando apareceu em Nuremberg, Kaspar não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero ser cavaleiro” e sequer aprendera a andar direito. Um menino dentro de um corpo adolescente seria uma boa descrição para seu estado.

Seu comportamento estranho para os padrões sócio-culturais estabelecidos, causava um misto de espanto e interesse. Era visto como um “garoto selvagem,” apesar de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades peculiares interessantes: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os animais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela, colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima. Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas muito depressa. Seu aprendizado foi rápido e já com seis meses de convivência social podia falar e escrever com certa habilidade. Seus questionamentos e seu modo de perceber a vida foram relatados de forma minuciosa e interessada por algumas das pessoas que gozavam da sua intimidade, e as análises que se faziam das suas ações refletem perfeitamente o espírito geral da época, o que demonstra como ele internalizou estes símbolos e signos da época, de maneira supreendente para quem teria sido tão afastado do contato social.

Sobre a relação de pensamento e linguagem, é interessante observar uma citação de Émile Benveniste: “A sociedade não é possível a não ser pela língua; e, pela língua, também o indivíduo. O despertar da consciência na criança coincide sempre com a aprendizagem da linguagem, que a introduz pouco a pouco como indivíduo na sociedade.” A partir desta afirmação de podemos iniciar o processo de reflexão sobre as questões vygotskyanas, presentes no filme de Werner Herzog, “O Enigma de Kaspar Hauser”. A aquisição da linguagem como pressuposto cognitivo para as relações inter-sociais (ou, principalmente, a maneira com que ela se dá) pode ser discutida a partir de situações levantadas pela própria obra. Faltava-lhe algo que desse condições para simbolizar, refletir e conhecer a si em relação ao outro. Assim, para ele tanto o caráter inanimado de uma maçã, por exemplo, como um prelúdio de Mozart seriam passíveis de personificações e construções interpretativas não inerentes às qualidades concretas do objeto, mostrando que o caráter reflexivo do personagem havia transgredido a visão simbólica da realidade. Com o uso da simbologia, outros conhecimentos não práticos poderiam ser dominados, levando-o ao exercício da reflexão e da compreensão: isto foi o que trouxe ao personagem o caráter perturbador daquela ordem social já instaurada, sua atitude crítico-reflexiva era inquietante e o desfecho da obra mostra exatamente que qualquer desvio de percepção do real não era bem aceito (assim como não o é hoje).

Ao chegar em Nuremberg Kaspar Hauser sabe apenas repetir, com dificuldade, a mesma frase (“quero ser cavaleiro como meu pai”). A sociedade o vê com estranheza. Ele próprio se vê, de repente, num mundo estranho. O filme de Werner Herzog mostra Kaspar Hauser na praça de Nuremberg com um olhar assustado. Na verdade tudo lhe é estranho: as dimensões, os movimentos, a perspectiva, o pensamento, a fala.

Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Numa das passagens do filme Kaspar Hauser olha, do campo, a torre em que fica seu quarto e observa que ela é muito menor do que ele próprio. “Como pode ser isto?” pergunta. Nesse sentido, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro.

Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um processo de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social, não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a linguagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais “modelam” a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.

Em virtude de não ter sido exposto a essa “modelagem” cultural, Kaspar Hauser era visto como um ser “incompleto,” como se estivesse sempre em “déficit” em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar uma inverossimilhança no filme de W. Herzog: numa das cenas, K. Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: “Ninguém aceita Kaspar.” Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realidade, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem instrumental de reflexão internalizado. Vygotsky diz que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo; porém, tendo vivido no isolamento, K. Hauser não aprendeu nem internalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido.

Somente depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de representatividade entre os signos e as coisas concretas.

Em um dos diálogos no filme de Herzog, K. Hauser conta ao seu tutor que havia sonhado com uma caravana. O tutor fica animado e lhe diz: “que bom Kaspar! Você fez um grande progresso! Já sabe a diferença entre o sonho e a realidade! Até a semana passada você não fazia esta distinção, acreditava que as coisas sonhadas haviam acontecido realmente …”

A partir desse momento, Kaspar começa a se situar em relação ao mundo e às pessoas que o cercam. Parece tomar consciência de que era diferente dos outros e que, por isso, muitas vezes, era hostilizado. Uma análise, fundamentada no pensamento de Vygotsky permitiria elaborar um modelo interacionista, do sujeito social. Aqui é atribuído a Kaspar um papel ativo submetido por outro lado a diversos condicionamentos, em particular às determinações sociais, que introduzem no conhecimento uma visão da realidade socialmente transmitida. Este terceiro modelo propõe a troca do enquadramento de uma teoria do reflexo modificada, uma relação cognitiva na qual tanto o sujeito como o objeto mantém a sua existência objetiva e real, ao mesmo tempo em que atuam um sobre o outro, está em constante processo. Descoberto, Kaspar despertou a curiosidade de todos a ponto de ser exibido no mundo circense entre anões e mulheres barbadas.  Passado o estupor, Kaspar recebeu ensinamentos primários. Aprendeu a manter-se equilibrado, falar, ler e escrever. Despertado para o mundo, atormentaram-no com aprendizado complexo. Tocou piano. Fez filosofia. Conheceu a carne e o vinho. Distinguiu as cores, diferenciou o belo do feio, o verdadeiro do falso, o essencial do supérfluo, o ser vivo do ser inanimado, a mulher do homem, a criança do adulto.

Não havia dia sem aprendizado novo. Bombardeavam-no, literalmente. Tentaram, então, incutir no jovem as virtudes do homem de bem. Introduziram-no na religião. Kaspar Hauser resistiu. Apavorava-o a figura de Jesus crucificado. Não acreditava que fosse  inanimado e suplicava para que o tirassem da cruz. Também questionava a onipotência divina que, alheia aos anseios e necessidades pessoais, era incapaz de fazê-lo voltar no tempo e recuperar infância e juventude perdidas no cárcere. Mostrava-se infrutífero qualquer esforço dos preceptores no sentido de o tornarem permeável à imagen de Deus.

Não admitia que as relações familiares e atividades domésticas desenvolvidas pelas mulheres, no lar, tivessem valor menor que outras atividades mais complexas concretizadas pelo homem. Se por um lado alcançara pleno desenvolvimento a ponto de igualar-se ou até mesmo superar em conhecimento os jovens da sua idade, por outro lado mostrara-se estranhamente distante e diferente dos outros, a ponto de poder criticá-los. Os “óculos sociais” determinam a visão de mundo de cada um, e a “realidade” como entidade única e incontestável simplesmente não existe. E ele, parcialmente vestia-os, parcialmente os criticava, opondo-se à linguagem científica, sua sensibilidade pela música e pela poesia; contrariava  à lógica formal, opõe o pré-logicismo de Kaspar Hauser, tão peculiar ao pensar infantil.

Escrito em 2004, sem revisão posterior, apenas para partilhar.


[1] I. Blikstein, “Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade”, 1981

Reatech

18 Abr

As muitas feiras que me perdoem, mas a Reatech é fundamental. Fundamental para as empresas que vendem, vendem, vendem. Fundamental para a administradora do estacionamento. Fundamental para os palestrantes e suas ideologias. E deveria ser FUNDAMENTAL para o movimento da pessoa com deficiência. Deveria? Será que eu quero demais?

Adoro aquele lugar, porque como nela a imersão na diversidade permite que nossas feridas de exclusão sejam aliviadas: lá somos nós, inteiros; expressando-nos. Lá a turma paquera… se diverte e como disse meu marido monge lindo, a feira um dia estará lá e a Reatech será em todos os lugares e poderemos viver isso nas praças da vida, que serão acessíveis e inclusivas.

No entanto, é preciso que algumas coisas sejam ditas: é preciso impedir que a feira se torne um espetáculo de exclusão, como disse o amigo Isaías Dias, uma televisão de cachorro. Picolé de frutas a sete reais é demais! Eu quase entreguei a bolsa de mãos levantadas… Algumas coisas precisam ser revistas, se não a feira excluirá…

Além dos preços abusivos, muito abusivos mesmo na praça de alimentação, o que permitiu que uma amiga da Anahi pudesse afirmar que tinha restaurante de cadeirantes e lanchonete de surdos, é preciso rever o espaço: as filas para entrar estavam endoidecer gente sã, no melhor estilo Renato Russo… Era fila pra entrar de carro, pra estacionar, pra credenciar, pra entrar na fila, pra ir no banheiro. Alô, alô, chamem o eterno síndico Tim Maia e peçam um espaço maior! Somos milhares! Vamos aos milhares. A feira deu certo. Já deu certo há dez edições atrás!

Bem, era isso. Alice tinha que falar. Para que a Reatech possa continuar sendo um lugar lindo, de encontrar pessoas que a gente ama, de partilha e de saudade: ano que vem tem mais!

Beijos coloridos em todos!

Pessoas com deficiência inovam em Israel

7 Fev

A notícia abaixo fala de uma inclusão maravilhosa! Complexo que inclui café, restaurante e teatro vira sucesso de público no porto de Jaffa; garçons e atores têm deficiência visual ou auditiva
Veja outras imagens em http://www.reuters.com/article/2008/02/05/us-israel-theatre-disability-idUSL1624388720080205

Em meio às ruas pouco iluminadas do antigo porto de Jaffa, em Israel, acontece uma revolução silenciosa. Ali, às margens do Mar Mediterrâneo, pessoas com deficiência visual e auditiva oferecem uma opção de entretenimento diferente àqueles que acreditavam já ter visto de tudo: um café agradável, uma ampla sala de teatro com 350 lugares e um restaurante disputadíssimo reunidos num armazém reformado, no subúrbio de Tel-Aviv, onde funciona desde 2007 o centro Nalaga”at (Toque, por favor, em hebraico).

O lugar oferece uma experiência única. No Café Kapish, os garçons têm deficiência auditiva. No restaurante BlackOut, que funciona em uma sala escura, trabalham apenas garçons com deficiência visual. Já os protagonistas da peça de teatro possuem os dois tipos de deficiência.Engana-se, no entanto, quem pensa que visitar o centro é caridade. Para desfrutar das atrações do Nalaga”at é preciso agendar a visita com antecedência. Os espetáculos costumam ficar lotados e para conseguir um lugar no restaurante é preciso entrar na lista de espera de um mês.

“No começo as pessoas compravam ingressos para o teatro porque consideravam ser uma boa ação. Mas, quando chegam aqui, ficam surpresas e até com raiva por estarem se divertindo”, conta ao Estado a diretora teatral e fundadora do centro, Adinal Tal, que teve o primeiro contato com pessoas com deficiência visual e auditiva em 1999, quando deu um workshop de teatro para 12 surdocegos.

Em três anos, a montagem Não Só de Pão – a única peça teatral no mundo encenada por atores surdocegos – foi assistida por mais de 170 mil espectadores em Israel e no exterior. O espetáculo retrata com bom humor os sonhos e as aspirações de quem vive no silêncio e na escuridão.

Em julho de 2010, o grupo fez 12 apresentações em Londres e foi aclamado pela crítica local. Graças ao sucesso das atividades do centro, 75% dos gastos são cobertos com a renda arrecadada. A produção de Não só de Pão custou 1 milhão de shekels, o equivalente a R$ 600 mil.

Dificuldades. Até mesmo sair em turnê é mais complicado quando se trata de um grupo com deficiências visuais e auditivas. “Ao chegar no aeroporto, um dos atores foi questionado pela segurança se tinha arrumado as malas sozinho. Ele disse que não. E aí já virou suspeito de terrorismo.”

As dificuldades, no entanto, só fortalecem o grupo. “Exijo nada menos que a perfeição. A comunicação entre pessoas com deficiência auditiva e visual é complicada, mas aprendemos a nos entender. O segredo é não subestimar a inteligência do grupo ou do público”, diz Adinal.

Cada um dos 11 atores tem um intérprete, que se movimenta no palco para orientá-lo. Eles dão ritmo à montagem usando a vibração de tambores ou o simples toque para marcar os atos ou indicar a formação de uma fila. As falas são traduzidas em um telão para o inglês, o árabe e o hebraico. Além disso, um intérprete faz a linguagem dos sinais no palco.

Na peça, os atores mostram as semelhanças entre o mundo de quem ouve e enxerga e aquele em que vivem. Durante uma hora e meia de espetáculo, tempo que leva para preparar o pão que, ao final, é servido à plateia, os atores remontam seus sonhos: ir ao cinema, dançar.

“Aqui acontece uma verdadeira revolução entre os que enxergam e escutam, que não acreditavam que poderiam receber esses presentes de pessoas com deficiências”, diz Tal, de 58 anos, nascida na Suíça, mas que vive em Israel desde os 20 anos de idade.


Que estes bons ventos cheguem por aqui!

Beijos coloridos em todos!