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Porque vou continuar petista.

27 Abr

Eu sou petista. E sei que o PT errou. Muito. Mas, sei que seus acertos foram enormes. Não que os acertos justifiquem os erros, de jeito nenhum. Mas, seus erros não justificam nem sua eliminação, nem sua derrubada. Seus erros exigem reparação, e esta será realizada, tenho certeza, o PT, como a classe trabalhadora, sua gônada, tem uma capacidade profunda de transformação: ovula, se recria. A arte de produzir, de criar, da classe operária não se esgota, e nem vai se esgotar. Vamos vencer os nossos problemas internos, e apesar de tudo, amanhã será outro dia. Os erros não serão esquecidos, serão corregidos, os acertos serão nosso moto, e nossa trajetória será retomada, nosso caminho, cada manhã, renascerá.

Renascerá porque nós vencemos a fome deste país. Nós vencemos a sede deste país de justiça social. Vencemos o medo deste pais do pobre. E quem não tem fome, nem sede, nem medo luta por dias melhore com coragem. E nós venceremos agora o ódio. Venceremos a narrativa que tenta, dia a dia fazer com que nossos erros destruam todos os nossos acertos, nossas vitórias, nossas lutas. Mas, nossas lutas são maiores que o ódio. muito maiores.

Hoje, dizem, vivemos outros tempos. Hoje, eu repito digo, vivemos outras lutas. Lutas maiores, que exigem mulheres e homens mais centrados, mais atentos. A imprensa não é censurada, como em outros tempos, é cínica. O regime não é de exceção, é de exclusão. As pessoas não são presas, são caluniadas. A verdade parece ser temida até nos gabinetes judiciais, nos corredores do Congresso, nas imprensas dos jornais. Alguns acham que é melhor eliminar parte de nós: os pretos, os pobres, os gays, os inadequados, sobram tipos no topo da lista de uma direita que cheira mais a 1935 que 2015.

O Lacerdismo da direita também impregna com seu cheiro de enxofre bancadas que recebem o nome de bala, bíblia e boi, escondendo na verdade que se trata de gente que defende a violência policial sobre os pobres, a intolerância religiosa sobre a liberdade de crença e a violência do agronegócio sobre o indígena e o campesinato. Os nossos direitos civis, e de milhares de pessoas com deficiência, doenças raras, LGBTTs, indígenas, quilombolas, idosos, populações ribeirinhas e camponesas, entre outras dezenas de minorias, são constantemente violentados. Não duvidaria se o presidente da Câmara propusesse uma noite de São Bartolomeu às avessas.

Desculpe, Brasil, erramos. Mas, eles erram muito mais. Porque além de querer destruir todas as nossas vitórias, além de querer produzir uma recessão que traga a fome de volta com suas notícias diárias, além de querer acabar com os direitos trabalhistas, e aniquilar toda a justiça social recém adquirida, além de de espalhar o medo sobre o nosso solo, eles querem mais. Não querem apenas voltar no tempo antes de nós. Querem retroceder ainda mais. Querem escravizar os pobres em trabalho terceirizado, querem eliminar quem luta por eles. Não satisfeitos em tentar nos eliminar, e tentar eliminar nossas conquistas, tentaram eliminar todos que em nós acreditaram. É hora de reagir.

Quero o PT vivo, quero o PT lutando, quero o PT reagindo. VIVA A CLASSE TRABALHADORA. VIVA O BRASIL. VIVA O PT.

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Por um mundo com lasagna e ceviche

12 Dez

Lendo o texto do Rogério Fasano hoje na Folha, fiquei me perguntando de que lugar poderia vir tanta amargura, tanta inveja e tanta incapacidade de reconhecer o valor do outro ( que em antropologia, Fasano, chama-se alteridade, do francês autrê, outro). Claro, que no momento que Alex Atala ganha holofotes por defender um projeto que coloca gastronomia (comida feliz, com cultura) no campo da cultura  no centro da discussão cultural e política, no Ministério da Cultura, e sob às vistas da presidente Dilma, o reduto gastronômico da direita da Moóca, escreve um texto no reduto jornalistico da direita da Moóca, sobre o que é um restaurante que mereça estar entre os melhores do mundo.

Rogério começa criticando o ceviche. Coitado do ceviche. O prato peruano, latino americano de origem, provavelmente, bolivariano demais, por certo, para a fina classe miamecircence da turma da Moóca, que na verdade é de frutos do mar (em especial peixe branco) em limão, para ser cozido nesse cítrico ácido, se resumiu em cebola crua. Eu poderia resumir uma lasagna em fatias de massa com queijo e molho de carne? Nunca, meus antepassados de Brescia voltaria à noite par a me assustar. Prefiro dar ao ceviche e à lasagna o lugar devido.E também ao acarajé, a mandioca, e à feijoada. Simples, porque todos são patrimônio cultural, e alguns deles, muito merecidamente, patrimônio da HUMANIDADE.

Atala tem uma carreira maravilhosa. Aguente isso Fasano. Não por causa dos reality shows, ou por conta das era das celebridades de minutos. Mas, porque além de um excelente chef, e maravilhosos escritor, ele é uma pessoa humana incrível, antenada com o mundo, com seu tempo, com as necessidades dele.

Talvez a turma da Moóca não tenha sido hábil em explicar, entre um Barolo e um Brunello, mas a divisão de esquerda e direita, herança da Guerra Fria, não da conta de explicar o mundo em que vivemos, Rogério. Ele é bem mais complexo que uma guerra entre ceviches e lasagnas. O mundo abarca feijoadas, falafels, hot-dogs de carne de cabrito, verenikes, küguels de Batata, muita salada sem queijo ou creme para agradar os vegans, filet au poivre vert, e bulgogi. O mundo é muito mais que sotaque, que dialetos, o mundo exige compreensão.

Atala abre páginas na rede em nome de pequenos produtores e projetos sociais. Talvez estes dois grupos causem medo grande à turma da Moóca. Talvez seu nome estivesse, ainda mais entre os grandes, sei que você está, se suas massas namorassem o pirarucu, talvez não.

Mas, se há norovírus em restaurantes estrelados? Há, há em grandes cruzeiros. Ninguém deixa de viajar, por isso. Há. E podem ser inclusive ser  plantados. Ele fez o que devia fazer: fechou por sete dias. Resolveu o problema. E continuou a vida. O que você esperava? Cuidado quando acusa alguém assim, Fasano.

Atala é o melhor chef brasileiro. Sabe porque? Porque ao pensar a cima de seu (umbigo) restaurante, comida, ceviche, lasagna, e lançar a campanha EU COMO CULTURA, apesar dos dos muitos fasanóides da Moóca que me perdoem, Atala me prova: é fundamental.

Eu Como Cultura é um movimento pela aprovação do projeto de lei que visa reconhecer oficialmente a gastronomia brasileira como manifestação cultural. http://eucomocultura.com.br/

** o texto do Fasano: http://www1.folha.uol.com.br/comida/2014/12/1560953-rogerio-fasano-o-que-e-ser-o-melhor-restaurante-do-mundo.shtml

*** Alex Atala escreveu os seguintes livros:

  • Por uma Gastronomia Brasileira” – Alex Atala – Editora Bei, 2003
  • Com Unhas, Dentes & Cuca” – Alex Atala – Editora Senac, 2008
  • Escoffianas Brasileiras” – Alex Atala – Editora Larousse Brasil, 2008 esse é maravilhosoooooooooooooooooooooooooo
  • “D.O.M. Redescobrindo Ingredientes Brasileiros” – Alex Atala – Editora Melhoramentos, 2013

13 motivos porque eu votarei em Alexandre Padilha para governador em SP!

30 Jul

1. EU sou pessoa com deficiência, como 23% dos paulistas, e como tal devo a Padilha a maior revolução de todos os tempos no SUS no atendimento ao meu segmento: ele criou protocolos e diretrizes terapêuticos para grupos que nunca tinham sido contemplados: amputados, pessoas com deficiência intelectual e pessoas com síndrome de Down passaram a ser consideradas, de fatos, sujeitos de direitos no SUS.

2. Eu sou pessoa com doença rara, como 8% dos paulistas, e Padilha criou a Política de Atenção Integral à Pessoa Rara no SUS, incluindo exames diagnósticos e tratamento de reabilitação. Com isso, milhões de crianças com doenças genéticas serão atendidas no SUS, e outras doenças raras de outras etiologias terão o tratamento adequado.

3. Eu acredito em igualdade de direitos. Padilha, com o Programa Mais Médicos desafiou o sistema estabelecido de que populações distantes e pobres, pouco favorecidas não tem direito a atendimento médico. Precisamos de um governante de coragem, que enfrente, como ele, todo e qualquer problema, por maior que seja, escolhendo as diretrizes que resolvam de fato os problemas.

4. Eu acredito no SUS. Todos somos beneficiados pelos programas de vacinação do SUS, e temos no SUS o segundo maior programa de transplante de órgãos do mundo. Com Padilha, o SUS conseguiu mais eficiência e agilidade, e um gestor que exigia ética e boa administração.

5. Eu acredito em prevenção, em quem planeja. Padilha é o gestor que mais cuidou de programas importantes para PREVENIR DOENÇAS: sob sua administração o Programa Farmácia Popular atingiu seu melhor momento: criou o remédio de graça para diabete, hipertensão e asma, doenças crônicas, cuidando das pessoas para EVITAR internações e mais sofrimento humanos.

6. Eu AMO crianças. Ele acredita em diagnóstico precoce, e em cuidar dos recém-nascidos. Sob sua gestão, a mortalidade infantil caiu de tal forma que o mundo inteiro reconheceu, e a Unicef premiou o Brasil como o país que mais reduziu a mortalidade infantil nas Américas.

7. Eu amo quem cuida de pessoas doentes, de verdade: Padilha deu atenção ao tratamento de doenças como tuberculose, malária, doença de Chagas, hanseníase e ao manejo do HIV em adultos, permitindo que o Brasil se destaque no combate a estas epidemias.

8. Eu amo quem é de verdade, gente como a gente. Padilha trata as pessoas olhando-as nos olhos, ele é gentil, educado, bom filho, bom irmão, bom amigo, é muito bem-humorado. É divertido conversar com ele e ele encara as adversidades como oportunidade de mudança. Não tem medo de desafios. Ele é de verdade.

9. Eu amo quem estudou, mesmo, sem enrolação. Padilha tem uma formação sólida: fez UNICAMP, e como médico, residência em infectologia. E ele escolheu trabalhar em comunidades indígenas. Ele escolheu sempre as origens, do povo, da terra, do Brasil.

10. Eu amo São Paulo. Eu quero o melhor pro meu estado, para minha gente. Cansei dos políticos que só querem o poder, e se esquecem do povo, das pessoas da periferia, das gentes todas coloridas que iluminam os caminhos das bandeiras, de luz, horizontes e esperança. Padilha quer governar para cada pessoa de São Paulo, para cada paulista.

11. Eu acredito em educação pública. Padilha é o único capaz de recuperar, de fato, nossas escolas, seu ensino, a auto-estima de nossos professores, a vontade de aprender dos nossos jovens. E ele quer realizar isso.

12. Eu acredito em trabalho. São Paulo, essa terra linda, de treze listras na Bandeira tem um a gente acolhedora e trabalhadora. Padilha quer gerar trabalho e renda para os paulistas, permitindo que São Paulo volte a crescer, de forma vigorosa, orgulhando todo o país.

13. Eu acredito na vida, e na sua fonte: a água. O governo atual nos deixou esfomeados de justiça, com medo do futuro e sedentos da água dos mananciais. Padilha é o único, verdadeiramente capacitado para, junto com o povo, sovar novamente o pão da vida que sacia a fome, o trabalho das nossas mãos. Ele é o único que tem coragem para transpor para o nosso futuro a esperança que reanima, e o único que se preocupa de fato, com a água que jamais poderá nos faltar. Por tudo isso, EU VOU PADILHAR EM SÃO PAULO.

A nazificação da direita – algumas notas

6 Jul

 

Nas manifestações em São Paulo, que eu analisei rapidamente aqui,  percebi a presença, em especial no dia de 20 de junho, de grupos nazifascistas destacados na manifestação. Moro muito perto da Avenida Paulista, e vi que nesse dia a manifestação se dividiu em blocos, e o grupo dos neonazistas, muitos com suásticas, tatuagens white powers – que eu reconheço por estudar – estavam lá. Agrediam manifestantes de esquerdas, queimavam bandeiras do movimento negro, pediam a expulsão dos bolivianos, dos nordestinos. A nazificação da direita paulista chegava ao máximo, no meio de uma manifestação que tinha tudo para ser libertária e pacífica. Escrevo o presente texto para acrescentar ao debate que surge após a publicação da minha entrevista na Carta Capital, que pode ser lido em: http://www.cartacapital.com.br/politica/a-explosao-do-odio-7327.html/view

Em primeiro lugar a expansão dos grupos neonazistas não é nova, estudo isso há onze anos. A nazificação da direita também não é.  É complexo. Quero colocar algumas notas para permitir um chão comum:

1. A pesquisa surgiu da minha perplexidade, em 2002, diante do crescimento assustador destes grupos. Que não são skinheads. Skinheads não são nazifascistas por definição, a origem do movimento skinhead é completamente diferente e operária, eu sei,  mas muitos grupos neonazistas usam o termo skinhead para se definir, e como antropóloga tenho que entender como eles se definem: skinhead, brancos, arianos, alemães. Um mote entre eles é: minha nação é minha raça.

2. A eles interessa odiar: odiar e criar inimigos, por uma construção simbólica coletiva, no laço social, que denomino paranóia construída socialmente, de um outro animalizado e diabolizado: o judeu, o negro, o migrante, o nordestino, o gay, a lésbica. Todos eles devem ser eliminados.

3. Suas estratégias são criadas num limbo entre um léxico genômico complicadíssimo de se explicar (mitocôndrias negras, poe exemplo) e de símbolos religiosos, pagãos e protestantes. Não tenho nada, absolutamente nada contra os protestantes, mas é FATO que LUTERO escreveu OS JUDEUS E SUAS MENTIRAS e que isso foi determinante na história do antissemitismo e do nazismo alemão. È fato que a KKK  surgiu entre os fundamentalistas protestantes estadunidenses, e que a teologia da prosperidade fomentou ódio aos gays nos EUA. Eu não tenho nada contra as igrejas evangélicas, mas tenho que apontar os fatos que ampliaram os discursos de ódio no mundo. Leia sobre um laudo que fiz a respeito de um livro, para entender um pouco acerca disto em http://etnografianovirtual.blogspot.com.br/2012/09/mpf-abre-inquerito-civil-sobre-livro.html

4. A direita tem se apropriado deste discurso e de muitos destes elementos simbólicos, inclusive, usando atores neonazistas. Exemplo: Durante a campanha eleitoral para a Presidência da República, em 2010, vivemos neste país um dos mais horrendos processos de calúnias já vistos em uma batalha política: e-mails anônimos, circulavam pela internet, com mentiras contra a candidata Dilma Roussef. As mentiras eram tão absurdas que resolvi empregar a mesma metodologia que usara em minha pesquisa de mestrado para tentar identificar vínculos na rede entre as mensagens transmitidas, sites, blogs, e registros. Outras pessoas fizeram o mesmo, sem usar uma metodologia e cibermetria. Uma dessas pessoas, Tony Chastinet, comentou a respeito de um site mencionado em uma mensagem por ele recebida na época da grande boataria, que eu também recebi, que era intitulada: “Candidatos de esquerda”. Na mensagem se recomenda a leitura do sitewww.tribunanacional.com.br. Na página, há uma montagem, grosseira, de Dilma ao lado de um fuzil. Uma verdadeira central de calúnias como se pode amostrar emhttp://www.tribunanacional.com.br/v2/editorial/a-terrorista/.
O site na época estava registrado em nome de “Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares”, cujo CNPJ (026.990.366/0001-49), está localizada na SCRN, 706-707, Bloco B, Sala 125, na Asa Norte, em Brasília. O responsável pelo site é Nei Mohn. Ele foi presidente da “Juventude Nazista” em 1968.

5. Quando o movimento chegou às ruas, eu pensei a imensidão dele à luz de Castells, imaginei, que era evidente seu crescimento, oras, porque a insatisfação das pessoas com o transporte é imensa: elas são tratadas com pouquíssima dignidade humana por horas para ir e vir do trabalho em um transporte de péssima qualidade. Em Sampa, o metrô está mais do que lotado, e transitar pela cidade é um caos total. Os trabalhadores sofrem demais. As manifestações viraram um Carnaval às avessas: vamos expor toda a frustração de anos de descaso total.

E desde o início eu sempre  lembrei muito de Manuel Castells. Bem no início, antes da pancadaria geral da PM paulista, que ao se calar, abriu espaço pra tudo, até para os nazis.

Em O poder da identidade, ele descreve idéias e análises organizadas após 25 anos de estudos sobre movimentos sociais e processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a sociedade da informação: a globalização e a identidade.

Alguém teve coragem de me dizer que a rede não teve nada importância nas manifestações. realmente, 150 mil pessoas  que não se conhecem apareceram na frente da minha casa e marcaram como? pelo telefone, por telepatia, o por sinal de fumaça? Depois não querem que antropólogos falem em pensamento mágico!!!!!

Os movimentos sociais, segundo Castells, vivem entre a relação do poder do Estado e do poder da informação, “uma vez que,as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado […] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações “[…] (CASTELLS, 2000, p. 348-349).

A personalização da política – que Manuel Castells acredita ser cada vez mais forte – acarreta muitas vezes fragilidades, que os opositores se encarregam de revelar. Ele escreve:

Como as mensagens mais eficazes são as mais negativas e uma vez que a difamação é uma forma definitiva de negatividade, a destruição de um líder político através da filtração, invenção apresentação e propagação de uma conduta dolosa que lhe é atribuída, de forma individual ou em associação, é objectivo último da política do escândalo. Por isso, tácticas como a “investigação da oposição” pretendem encontrar informação comprometedora que se possa utilizar para destruir a popularidade de um político ou de um partido. A prática da política do escândalo representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo. Sendo que a política mediática é a política da Era da Informação, a política do escândalo é o instrumento eleito para dirimir as batalhas políticas do nosso tempo (Castells, 2009: 331-332). Esses escândalos geram inquérito parlamentar ou judicial, dos quais juízes, promotores e inquisidores acabam se tornando heróis protegidos pela mídia, que ganha sua audiência. Eles também apoiam essa mídia, e juntos arrebatam o poder do processo político e disseminando na sociedade, formando uma espécie de relação de simbiose. ”Na política de escândalos, como também em outros domínios da sociedade em rede, o poder dos fluxos supera os fluxos de poder.”

Os escândalos acabam gerando o desinteresse da população por política, e uma busca por novas lutas, que movimentos sociais como esses, de massa, podem acabar suprindo. Os neonazistas se aproveitaram disto, repetindo Mussolini e gritando SEM PARTIDO: lembro que o ditador italiano defendia que os partidos enfraquecem a nação. Desculpem, direitistas loucos, mas a democracia precisa de partidos fortes. E lutaremos por ela.

Uma reflexão rápida

19 Jun

Desde a semana passada eu tenho analisado com amigos o grande movimento social que tomou as ruas do país. Tenho participado pela rede, até porque, como estou recém operada e muito frágil na saúde, não me sinto em condições de estar nas ruas. Mas, o interessante é que tudo que eu comentei do movimento até agora com pessoas próximas aconteceu da forma como eu imaginei, ora bolas, porque a insatisfação das pessoas com o transporte é imensa: elas são tratadas com pouquíssima dignidade humana por horas para ir e vir do trabalho em um transporte de péssima qualidade. Em Sampa, o metrô está mais do que lotado, e transitar pela cidade é um caos total. Os trabalhadores sofrem demais. As manifestações viraram um Carnaval às avessas: vamos expor toda a frustração de anos de descaso total.
E desde o início eu lembro muito de Manuel Castells. Em O poder da identidade, ele descreve idéias e análises organizadas após 25 anos de estudos sobre movimentos sociais e processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a  sociedade da informação: a globalização e a identidade. A partir da sociedade em rede, e das novas tecnologias, ele pensa a  revolução tecnológica e informacional e a dita  nova economia, problematizando várias questões neste contexto: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a realidade midiatizada., o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Por outro lado, o autor destaca o despertar e fortalecimento  de uma onda poderosa de identidade coletiva que desafia a globalização e o cosmopolitismo em função da singularidade cultural e autocontrole individual. Fundamentando a discussão nos movimentos sociais e na política, como resultantes da interação entre a globalização induzida pela tecnologia, o poder da identidade e as instituições do Estado, Castells, faz uma lúcida análise dessa sociedade conectada pela convergência de telecomunicações, e redes sociais, demonstrando como pensar a contraditória pluralidade e a própria  organização da sociedade civil em movimentos sociais participantes como uma quarta ameaça à soberania do Estado.

Gostaria, portanto de partilhar algumas idéias de Castells com vcs!

Os movimentos sociais, segundo Castells, vivem entre a relação do poder   do Estado e do poder da informação, “uma vez que,as novas e poderosas tecnologias da informação podem ser colocadas a serviço da vigilância, controle e repressão por parte dos aparatos do Estado […] Do mesmo modo [que], podem ser empregadas pelos cidadãos para que estes aprimorem seus controles sobre o Estado, mediante o exercício do direito a informações “[…] (CASTELLS, 2000, p. 348-349).

No sexto capítulo, A política informacional e a crise da democracia, o autor destaca a fragmentação do Estado, a imprevisibilidade do sistema político e a  singularização da política. Afirma que .as novas condições institucionais, culturais e tecnológicas do exercício democrático tornaram obsoletos o sistema partidário existente  e o atual regime de concorrência política […]. (CASTELLS, 2000, p. 408). Conclui expondo que é necessário estimular o surgimento de uma democracia informacional.

À crise de legitimidade do Estado-Nação acrescente-se a falta de credibilidade do sistema político, fundamentado na concorrência aberta entre partidos. Capturado na arena da mídia, reduzido a lideranças personalizadas, dependente de sofisticados recursos de manipulação tecnológica, induzido a práticas ilícitas para obtenção de fundos de campanha, conduzido pela política do escândalo, o sistema partidário vem perdendo seu apelo e confiabilidade e, para todos os efeitos, é considerado um resquício burocrático destituído da fé pública. (Castells, 2000, p. 402)

Ao lado desse processo de  surge também um outro, que Manuel Castells, denominou  a “política do escândalo” , segundo ele, inseparável da política mediática” (2009: 331). É por meio dos órgãos de comunicação social (em que se incluem os meios de comunicação de massa) que a sociedade fica a saber desses mesmos escândalos. Depois, acrescenta o autor, “as características da política mediática fazem do uso dos escândalos o instrumento mais eficaz da luta política” (331). A personalização da política – que Manuel Castells acredita ser cada vez mais forte – acarreta muitas vezes fragilidades, que os opositores se encarregam de revelar. Ele escreve:

Como as mensagens mais eficazes são as mais negativas e uma vez que a difamação é uma forma definitiva de negatividade, a destruição de um líder político através da filtração, invenção  apresentação e propagação de uma conduta dolosa que lhe é atribuída, de forma individual ou em associação, é objectivo último da política do escândalo. Por isso, tácticas como a “investigação da oposição” pretendem encontrar informação comprometedora que se possa utilizar para destruir a popularidade de um político ou de um partido. A prática da política do escândalo representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo. Sendo que a política mediática é a política da Era da Informação, a política do escândalo é o instrumento eleito para dirimir as batalhas políticas do nosso tempo (Castells, 2009: 331-332). Esses escândalos geram inquérito parlamentar ou judicial, dos quais juízes, promotores e inquisidores acabam se tornando heróis protegidos pela mídia, que ganha sua audiência. Eles também apoiam essa mídia, e juntos arrebatam o poder do processo político e disseminando na sociedade, formando uma espécie de relação de simbiose. “Na política de escândalos, como também em outros domínios da sociedade em rede, o poder dos fluxos supera os fluxos de poder.”

Os escândalos acabam gerando o desinteresse da população por política, e uma busca por novas lutas, que movimentos sociais como esses, de massa, podem acabar suprindo.

Das lamentáveis afirmações do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo

15 Jun

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sempre apreciei a trajetória do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tanto por sua integridade ética quanto por sua brilhante intelectualidade. Mas, ao contemplar sua atuação diante do evento das manifestações em São Paulo, renho que me manifestar: é impressionante como ele não apenas erra, mas como também insiste em permanecer em erro constate.

Sem dúvida seu equívoco vem de sua distância, quase oceânica, da luta dos movimentos populares: ele fala em Estado de Direito, sem saber que em SP, depois de décadas de PSDB o que os movimentos populares vivem, há muito é estado de exceção: são criminalizados, impedidos de se expressar, presos ao contestar ação governamental, perseguidos, espancados. Atos policiais serão analisados para ver se foram abusivos? Sim, eu já vi esta promessa vã, no caso de Pinheirinho.

Sinto, Cardoso, mas você perdeu uma importante chance de entender de fato, como funciona a dinâmica do nosso mundo tão complexo na paulicéia desvairada:  nós somos o que falamos e não somos ouvidos. Há tempos aqui que os movimentos são reprimidos: gays são mortos na Augusta e a PM não faz nada, mas se é pra bater em estudante, tudo bem. Neonazistas tem 32 grupos paralimitares por todo estado, e a PM não faz nada, mas se é pra meter bala de borracha em estudante é o Estado de Direito que se alega. Acorda, Cardoso.

O povo não aguenta mais a ditadura do PSDB, e vc se coloca a favor dela? Tire férias, e vai ler um pouco de Walter BenjamimGiorgio Agamben. 

Depois disso, veja a manifestação sem os olhos de elite, e com os olhos do povo. Um pouco de caminhada nas ruas não iria lhe fazer tão mal assim.

A respeito da manifestação em São Paulo

14 Jun

Ao nos reunirmos em solidariedade para expressar um sentimento de injustiça massiva, não devemos perder de vista aquilo que nos reuniu. Esta é a máxima que linka os movimentos populares durante os séculos.

No entanto, quando os movimentos populares vão para a rua são sempre tido como “pequenos”, “políticos”, “vândalos”, “abusivos”. E repressão massiva, velha forma do poder mofado e que cheira putrefato  diante  do suor sagrado dos tão jovens que tomam as ruas.

Escrevo para que todas as pessoas que se sentem atingidas pelas forças que criminalizam os movimentos sociais em São paulo, nestes últimos anos:  saibam que somos suas aliadas. Há tempos são os jovens que não apenas adoecem, mas que levam chumbo, balas de borracha, bombas de gás lacrimogênio, de efeito (i)moral.

Se o valor da passagem pode ou não ser reavaliado, que as autoridades se abrissem para o diálogo pacífico: enviar tropas contra os jovens e reprime manifestações, inibe o Estado de Direito, e torna a desobediência civil um atalho para estes que gritam ser ouvidos.

Estou chocada com as prisões em massa: só na ditadura militar se soube de algo semelhante: claro, são a ordem imposta pelo governo tucano. As forças conservadoras de SP  perpetuaram a desigualdade e a discriminação  baseados em idade, cor da pele, sexo, identidade de gênero, classe, orientação sexual e em deficiência. Os jovens e são criminalizados, como são criminalizados TODOS os movimentos sociais. Cuidado. Isso é fascismo policial. Abram-se as conversas, sabe-se claramente que a policiais infiltrados na multidão. A imprensa afirmou isto o dia todo. Porque estão lá?

Manter uma manifestação com milhares de pessoas pacífica não é possível com repressão e violência policial severa. Unidos como povo, reconhecemos a realidade: que o futuro da raça humana exige a cooperação de seus membros; que nosso sistema deve proteger nossos direitos e que, ante a violência desse sistema, resta aos indivíduos a proteção de seus próprios direitos e de seus semelhantes; que um governo democrático deriva seu justo poder do povo,  e que nenhuma democracia real é atingível quando o processo é determinado pelo poder econômico, e não pelo diálogo constante com as forças populares. Não coloquem a força na frente da  justiça, e a opressão antes da igualdade, eles   pacificamente,  como é de seu direito estão gritando.

Se calarem, talvez as pedras comecem a  gritar.

Troféu como assim para a PM de SP!  TROFEUREI